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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

DESMANDOS NEOLIBERAIS PERSISTENTES

 


“Esse novo sistema administrativo é falho e está sobrecarregado!”. Essa foi uma fala de análise contextual em um momento de Assembleia sobre o PGD, na Instituição Sindical à qual estamos filiados. É preciso compreender melhor essa “falha” e esse “sobrecarregamento”, pois, certamente, tanto como como outro podem não serem nada daquilo que apresentam, mas falar de algo que não se encontra totalmente visível, mas que diz de uma intenção política muito mais consistente. E não, não é falho ou sobrecarregado por um simples descuido, uma negligência ou despreparo, há anos a lógica digital e privada, desde a redemocratização do país, invadiu a Administração Pública Federal, sem qualidade, critério e/ou adaptação nenhuma. O resultado não poderia ser outro senão o caos, até porque é o caos que pode justificar e dar suporte ao desmonte da máquina administrativa do Estado. 

O PGD, esse programa esdrúxulo do momento, um perfeito Frankenstein dos tempos modernos, é apenas mais uma ação de facilitação do desmonte, basculhando entre a lógica da iniciativa privada e a da Administração Pública, e que transformou a ideia da “gestão por competências” em um puro instrumento de controle que, tudo indica, visa a se transformar em um instrumento punitivo e de exclusão. Essa ideia desconstrutora, é bem diferente da lógica desenvolvimentista pensada pelo grupo que deu início aos estudos e a elaboração do Projeto de Gestão por Competências na APF/INSS, nos idos do início da segunda década deste século. Isso evidencia a fragilidade, e inabilidade gestora, com que foi pensada a implantação do referido projeto, e a falácia desenvolvimentista posterior, quando da mudança política concretizada após o golpe parlamentar de 2016, que produziu uma corrida ao desmonte das instituições estatais, sobretudo aquelas que possuem um caráter social e redistributivo do Estado de Bem-Estar. 

A Administração Pública que, de fato, busca controle, maquiado por um discurso de desenvolvimento, e que, não nos enganemos, sempre foi assim, encontrou no desmonte do Bem-Estar Social uma real função para um projeto desenvolvimentista transformado em programa de controle. Hoje, na APF, não há incompetência nas ações, mas a falta de interesse político no desenvolvimento estatal e funcional. Desde o primeiro governo pós redemocratização do país, após 21 anos de uma ditadura militar corrupta e nefasta, onde muitos foram banidos, outros desapareceram, outros ainda foram calados e outros apagados, tenta-se desconstruir qualquer contribuição do período getulista, de proteção ao trabalho e ao trabalhador.



Um exemplo muito claro, não apenas da transformação, mas também da fragilidade do que foi pensado por alguns no pós-ditadura, é o SIASS, que se tornou mais uma estrutura esquizofrênica, cindida, como quase toda a administração pública, sob ataque de um projeto neoliberal de diminuição do Estado e transferência de seus ativos financeiros para a iniciativa privada. O SIASS, hoje, é um organismo externo às instituições das APF, já o era quando de sua implantação, embora naquele tempo fechava-se os olhos para a compreensão da forma das estruturas estatais, e que, hoje, funciona apenas como um consultório de perícia médica, que jamais conseguiu implementar seus outros dois pilares de Promoção e Prevenção em saúde do trabalhador do Estado. Este organismo que, como uma estrutura externa que pretendia atuar dentro de organismos com estrutura de poder verticalizada e causas do adoecimento, cuja cultura de banca e escritório suplanta qualquer desejo de   modernidade, nunca teve nenhuma autonomia para sua atuação, tornando-se apenas um organismo fiscalizador e pericial. O SIASS perdeu completamente o seu rumo e, nos dias que correm, é apenas uma estrutura natimorta e estranha que não cumpre suas funções.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
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Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política

INCURSÕES FEUDAIS e FASCISTAS: EXCLUSÃO DE CLASSE e COSTUMES EXCLUDENTES

 

Numa ponte imaginária entre a bela e quente Maceió, terra de promessa, e a verdejante e fria Curitiba, terra de exílio, encontrei a mais sólida das ações estruturantes humanas: a exclusão do outro. Sim, o outro é aquele que diz o tempo inteiro de mim, daquilo que faço, e daquilo que não faço em prol de um possível, talvez improvável nós. Mas o outro, para além dele mesmo, é o espelho que me incomoda, que diz de mim e de todas as minhas possibilidades, impossibilidades e probabilidades. E se eu não lido bem com isso, se eu não posso e não consigo mergulhar em mim sem me horrorizar comigo mesmo, o outro, reflexo de mim, é meu grande inimigo.

Das lembranças que tenho de Maceió, uma das mais vivas são as discussões que ouvia, quando era criança, sobre parentesco e propriedades, na casa dos meus avós paternos, uma conversa fútil, obtusa e completamente oca. Mas, essa é uma conversa que ainda hoje preenche o dia a dia de muitos amigos que lá permanecem, como que petrificados no tempo e no espaço, ajudando a manter essa característica tão presente no convívio com a alagoanidade, a dominação coronelística do status quo, que nos trouxe até aqui, a ser o Estado mais bolsonarista do nordeste do Brasil. O afastamento me faz deparar com algumas surpresas, que, talvez, em lá permanecendo não me causariam espanto algum, como por exemplo, a pergunta de uma amiga sobre qual a família do marido de minha sobrinha, coisa que muito me espantou na época da pergunta, por ser esta amiga profissional da área social e parecer tão à vontade para fazer tal pergunta com tanta naturalidade.

E essa questão acima me remete a uma outra menos recente, quando outra amiga justificou seu descontentamento com o casamento da própria filha, simplesmente porque o rapaz era pobre. Até onde sei, tal rapaz era e continua sendo um profissional liberal, hoje casado com outra pessoa, lutando pela sua sobrevivência, como tantos outros. Aliás, isso também remete a outra característica das Alagoas, onde um título, seja ele verdadeiro ou ficção, sempre precede o nome das pessoas. Então, o que mais se ouve, como forma de tratamento, nas Alagoas é o doutor ou a doutora fulano/fulana dos grudes, o que denuncia a importância que se dá à classe social, ao status quo, até porque na classe A todo mundo é doutor, sendo ou não. Não é incomum você se referir a um conhecido, amigo ou um parente como o doutor ou a doutora fulano(a).

Mas, e na terra dos pinheirais? As questões são as mesmas, porém se sobressaem questões mais vinculadas aos costumes, à rejeição ao diferente. O caráter nazifascista da cultura sulista é forte e claro como água cristalina. Não é à toa que proliferam, mais do que em outras partes do país, células nazistas que desejam a separação da região do restante do país. Recentemente uma vizinha declarou, quando soube que uma dupla homossexual viria morar no nosso prédio, que: “esses gays deveriam morar todos em um mesmo lugar!” Ora, se isso não é a expressão mais clara de fascismo, eu não sei o que é! Morar todos no mesmo lugar é uma alusão clara, embora não objetiva mas análoga, ao Gueto de Varsóvia, onde Hitler confinou judeus para serem dizimados durante a segunda guerra mundial, e que precedeu à sua chamada solução final. Recentemente, foi-me mostrado uma conversa entre uma empresária e uma atendente de cadastro de empregados, e elaque buscava um enfermeiro para contratação. Porém, foi veemente ao informar que ele não podia ser homossexual, porque seus clientes não aceitariam. Disse que as pessoas já eram obrigadas a aturar essas pessoas no dia a dia, mas tão próximo para desenvolver o trabalho de enfermagem não daria certo. Frisou que não tinha preconceito algum, mas que não seria possível aceitar um homossexual para o trabalho, por causa dos clientes... Imaginemos se ela fosse preconceituosa, né mesmo?!

Há alguns anos foi lançado um novo projeto na área de T&D, na cidade de Natal, para onde viajamos como treinandos, e, quando retornamos, eu quis apresentar o tal projeto para a direção da Instituição à qual estávamos vinculados. Porém, o colega que participou comigo do tal treinamento me disse o seguinte: “para que apresentar esse projeto, nada de apresentação, elas (mulheres da direção) só vão olhar para você e pensar: do que é que esse paraíba está falando!” A esposa desse mesmo colega, quando soube que ele ia me dar um sofá que eles pretendiam por na rua, um sofá onde dormia o cachorro e estava abandonado na casa deles, foi até mim e disse o seguinte: “esse sofá eu vou lhe cobrar R$ 150,00, porque senão depois você vai querer devolvê-lo todo sujo de sexo que você vai fazer em cima!” Outro fato curioso que aconteceu há algum tempo, foi quando uma servidora que ocupava uma chefia importante no INSS nesta capital foi fazer um treinamento na cidade de Maceió e, em seu retorno, soltou a seguinte pérola: “as pessoas lá em Maceió são muito boas, mas são muito feias, parecem com os aborígenes da Austrália!”.

Por exemplo, o que está em questão, nas ações absurdas contra o deputado Renato Freitas, está para muito mais além da política partidária. Neste lugar se premia quem rouba cem mil reais em propina, mas se mata quem rouba um chocolate. O que está em questão é o ethos e o caráter que viceja na cultura local. Uma coisa solenemente escutada por mim quando aqui cheguei clarifica esta questão: “seja e faça o que quiser na surdina, mas mantenha a pose!” Essa coisa que me foi dita há 31 anos é mais do que prova inconteste de todas as denúncias feitas pelo Renato, e de que, por estas bandas, máscaras e fachadas são mil vezes mais importantes que a própria vida humana, bem diferente das publicidades roedoras, do “Estado que cuida”, que somos obrigados a ouvir diariamente na mídia, como um olor de um esgoto a céu aberto tentando camuflar sua fedentina.

Como gente de verdade, possibilidades de humanidade, temos muito o que evoluir, seja no Paraná ou nas Alagoas.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
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