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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

DESMANDOS NEOLIBERAIS PERSISTENTES

 


“Esse novo sistema administrativo é falho e está sobrecarregado!”. Essa foi uma fala de análise contextual em um momento de Assembleia sobre o PGD, na Instituição Sindical à qual estamos filiados. É preciso compreender melhor essa “falha” e esse “sobrecarregamento”, pois, certamente, tanto como como outro podem não serem nada daquilo que apresentam, mas falar de algo que não se encontra totalmente visível, mas que diz de uma intenção política muito mais consistente. E não, não é falho ou sobrecarregado por um simples descuido, uma negligência ou despreparo, há anos a lógica digital e privada, desde a redemocratização do país, invadiu a Administração Pública Federal, sem qualidade, critério e/ou adaptação nenhuma. O resultado não poderia ser outro senão o caos, até porque é o caos que pode justificar e dar suporte ao desmonte da máquina administrativa do Estado. 

O PGD, esse programa esdrúxulo do momento, um perfeito Frankenstein dos tempos modernos, é apenas mais uma ação de facilitação do desmonte, basculhando entre a lógica da iniciativa privada e a da Administração Pública, e que transformou a ideia da “gestão por competências” em um puro instrumento de controle que, tudo indica, visa a se transformar em um instrumento punitivo e de exclusão. Essa ideia desconstrutora, é bem diferente da lógica desenvolvimentista pensada pelo grupo que deu início aos estudos e a elaboração do Projeto de Gestão por Competências na APF/INSS, nos idos do início da segunda década deste século. Isso evidencia a fragilidade, e inabilidade gestora, com que foi pensada a implantação do referido projeto, e a falácia desenvolvimentista posterior, quando da mudança política concretizada após o golpe parlamentar de 2016, que produziu uma corrida ao desmonte das instituições estatais, sobretudo aquelas que possuem um caráter social e redistributivo do Estado de Bem-Estar. 

A Administração Pública que, de fato, busca controle, maquiado por um discurso de desenvolvimento, e que, não nos enganemos, sempre foi assim, encontrou no desmonte do Bem-Estar Social uma real função para um projeto desenvolvimentista transformado em programa de controle. Hoje, na APF, não há incompetência nas ações, mas a falta de interesse político no desenvolvimento estatal e funcional. Desde o primeiro governo pós redemocratização do país, após 21 anos de uma ditadura militar corrupta e nefasta, onde muitos foram banidos, outros desapareceram, outros ainda foram calados e outros apagados, tenta-se desconstruir qualquer contribuição do período getulista, de proteção ao trabalho e ao trabalhador.



Um exemplo muito claro, não apenas da transformação, mas também da fragilidade do que foi pensado por alguns no pós-ditadura, é o SIASS, que se tornou mais uma estrutura esquizofrênica, cindida, como quase toda a administração pública, sob ataque de um projeto neoliberal de diminuição do Estado e transferência de seus ativos financeiros para a iniciativa privada. O SIASS, hoje, é um organismo externo às instituições das APF, já o era quando de sua implantação, embora naquele tempo fechava-se os olhos para a compreensão da forma das estruturas estatais, e que, hoje, funciona apenas como um consultório de perícia médica, que jamais conseguiu implementar seus outros dois pilares de Promoção e Prevenção em saúde do trabalhador do Estado. Este organismo que, como uma estrutura externa que pretendia atuar dentro de organismos com estrutura de poder verticalizada e causas do adoecimento, cuja cultura de banca e escritório suplanta qualquer desejo de   modernidade, nunca teve nenhuma autonomia para sua atuação, tornando-se apenas um organismo fiscalizador e pericial. O SIASS perdeu completamente o seu rumo e, nos dias que correm, é apenas uma estrutura natimorta e estranha que não cumpre suas funções.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Copyright © 2025 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política

INCURSÕES FEUDAIS e FASCISTAS: EXCLUSÃO DE CLASSE e COSTUMES EXCLUDENTES

 

Numa ponte imaginária entre a bela e quente Maceió, terra de promessa, e a verdejante e fria Curitiba, terra de exílio, encontrei a mais sólida das ações estruturantes humanas: a exclusão do outro. Sim, o outro é aquele que diz o tempo inteiro de mim, daquilo que faço, e daquilo que não faço em prol de um possível, talvez improvável nós. Mas o outro, para além dele mesmo, é o espelho que me incomoda, que diz de mim e de todas as minhas possibilidades, impossibilidades e probabilidades. E se eu não lido bem com isso, se eu não posso e não consigo mergulhar em mim sem me horrorizar comigo mesmo, o outro, reflexo de mim, é meu grande inimigo.

Das lembranças que tenho de Maceió, uma das mais vivas são as discussões que ouvia, quando era criança, sobre parentesco e propriedades, na casa dos meus avós paternos, uma conversa fútil, obtusa e completamente oca. Mas, essa é uma conversa que ainda hoje preenche o dia a dia de muitos amigos que lá permanecem, como que petrificados no tempo e no espaço, ajudando a manter essa característica tão presente no convívio com a alagoanidade, a dominação coronelística do status quo, que nos trouxe até aqui, a ser o Estado mais bolsonarista do nordeste do Brasil. O afastamento me faz deparar com algumas surpresas, que, talvez, em lá permanecendo não me causariam espanto algum, como por exemplo, a pergunta de uma amiga sobre qual a família do marido de minha sobrinha, coisa que muito me espantou na época da pergunta, por ser esta amiga profissional da área social e parecer tão à vontade para fazer tal pergunta com tanta naturalidade.

E essa questão acima me remete a uma outra menos recente, quando outra amiga justificou seu descontentamento com o casamento da própria filha, simplesmente porque o rapaz era pobre. Até onde sei, tal rapaz era e continua sendo um profissional liberal, hoje casado com outra pessoa, lutando pela sua sobrevivência, como tantos outros. Aliás, isso também remete a outra característica das Alagoas, onde um título, seja ele verdadeiro ou ficção, sempre precede o nome das pessoas. Então, o que mais se ouve, como forma de tratamento, nas Alagoas é o doutor ou a doutora fulano/fulana dos grudes, o que denuncia a importância que se dá à classe social, ao status quo, até porque na classe A todo mundo é doutor, sendo ou não. Não é incomum você se referir a um conhecido, amigo ou um parente como o doutor ou a doutora fulano(a).

Mas, e na terra dos pinheirais? As questões são as mesmas, porém se sobressaem questões mais vinculadas aos costumes, à rejeição ao diferente. O caráter nazifascista da cultura sulista é forte e claro como água cristalina. Não é à toa que proliferam, mais do que em outras partes do país, células nazistas que desejam a separação da região do restante do país. Recentemente uma vizinha declarou, quando soube que uma dupla homossexual viria morar no nosso prédio, que: “esses gays deveriam morar todos em um mesmo lugar!” Ora, se isso não é a expressão mais clara de fascismo, eu não sei o que é! Morar todos no mesmo lugar é uma alusão clara, embora não objetiva mas análoga, ao Gueto de Varsóvia, onde Hitler confinou judeus para serem dizimados durante a segunda guerra mundial, e que precedeu à sua chamada solução final. Recentemente, foi-me mostrado uma conversa entre uma empresária e uma atendente de cadastro de empregados, e elaque buscava um enfermeiro para contratação. Porém, foi veemente ao informar que ele não podia ser homossexual, porque seus clientes não aceitariam. Disse que as pessoas já eram obrigadas a aturar essas pessoas no dia a dia, mas tão próximo para desenvolver o trabalho de enfermagem não daria certo. Frisou que não tinha preconceito algum, mas que não seria possível aceitar um homossexual para o trabalho, por causa dos clientes... Imaginemos se ela fosse preconceituosa, né mesmo?!

Há alguns anos foi lançado um novo projeto na área de T&D, na cidade de Natal, para onde viajamos como treinandos, e, quando retornamos, eu quis apresentar o tal projeto para a direção da Instituição à qual estávamos vinculados. Porém, o colega que participou comigo do tal treinamento me disse o seguinte: “para que apresentar esse projeto, nada de apresentação, elas (mulheres da direção) só vão olhar para você e pensar: do que é que esse paraíba está falando!” A esposa desse mesmo colega, quando soube que ele ia me dar um sofá que eles pretendiam por na rua, um sofá onde dormia o cachorro e estava abandonado na casa deles, foi até mim e disse o seguinte: “esse sofá eu vou lhe cobrar R$ 150,00, porque senão depois você vai querer devolvê-lo todo sujo de sexo que você vai fazer em cima!” Outro fato curioso que aconteceu há algum tempo, foi quando uma servidora que ocupava uma chefia importante no INSS nesta capital foi fazer um treinamento na cidade de Maceió e, em seu retorno, soltou a seguinte pérola: “as pessoas lá em Maceió são muito boas, mas são muito feias, parecem com os aborígenes da Austrália!”.

Por exemplo, o que está em questão, nas ações absurdas contra o deputado Renato Freitas, está para muito mais além da política partidária. Neste lugar se premia quem rouba cem mil reais em propina, mas se mata quem rouba um chocolate. O que está em questão é o ethos e o caráter que viceja na cultura local. Uma coisa solenemente escutada por mim quando aqui cheguei clarifica esta questão: “seja e faça o que quiser na surdina, mas mantenha a pose!” Essa coisa que me foi dita há 31 anos é mais do que prova inconteste de todas as denúncias feitas pelo Renato, e de que, por estas bandas, máscaras e fachadas são mil vezes mais importantes que a própria vida humana, bem diferente das publicidades roedoras, do “Estado que cuida”, que somos obrigados a ouvir diariamente na mídia, como um olor de um esgoto a céu aberto tentando camuflar sua fedentina.

Como gente de verdade, possibilidades de humanidade, temos muito o que evoluir, seja no Paraná ou nas Alagoas.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2025 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

sexta-feira, 28 de março de 2025

A INSTITUIÇÃO INSS E O NOVO PGD – pinceladas sobre desconstrução, a partir da PT/MPS n. 3.526, de 4 de novembro de 2024

 

Vive-se sob um Governo de coalisão, condição que foi necessária para fazer frente ao nazifascismo do nosso tempo, mas que por conta disso está constituído como um Frankenstein político, em um terreno já profundamente fecundado pelo fascismo neoliberal. O Governo de centro-esquerda do PT-Partido dos Trabalhadores se encontra em uma situação extremamente difícil, por falta de apoio e sustentação, ou um apoio e uma sustentação bastante relativos, tendo em vista a correlação de forças desfavorável na casa dos horrores, O Congresso Nacional, infestada de extremistas de direita, fascistas e bolsonaristas.

 

Este não pretende ser nenhum estudo aprofundado do PGD-Programa de Gestão e Desenvolvimento do INSS-Instituto Nacional do Seguro Social, mas apenas pontuar algumas contradições e armadilhas que, vistas para além do senso comum, nos revela intenções nada saudáveis para com os servidores, a Instituição e os segurados. Ao tomarmos como referência a trajetória dessa Instituição secular, sobretudo a partir do desmantelamento do SINPAS-Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social, verifica-se um processo contínuo de desmantelamento organizacional deste então. Ao longo dos últimos anos, os diversos desmembramentos e a importação de instrumentos de gestão da iniciativa privada para a instituição pública têm, aos poucos, desconstruído uma política pública típica do Estado de Bem-Estar social, com o claro objetivo de transferi-la para a iniciativa privada. Para tanto seus servidores têm sido preparados ao longo do tempo, não apenas para se habituar com ideia de lucratividade exclusiva daquela iniciativa, como também para se habituar aos conceitos neoliberais da uberização.

 

A Administração da instituição INSS também permanece infectada e infestada de fascistas neoliberais, que tentam sobrepujar a Lei, com portarias e decretos que não possuem esta força, e que se tornam ilegais, tendo em vista que a Lei, de fato, existe. E assim, eivado de ilegalidades nasce o novo PGD-Programa de Gestão e Desempenho que, logo no primeiro parágrafo de seu primeiro artigo diz: “A instituição de que trata o caput é discricionária e poderá ser suspensa ou revogada por razões técnicas ou de conveniência e oportunidade, devidamente fundamentadas.”, confirmando o seu caráter infra legal, e porque não dizer ilusório. E ainda, em seu parágrafo segundo: “O PGD-MPS é de adesão facultativa e a participação não consistirá em direito adquirido, conforme disposto no art. 5 do Decreto n. 11.072, de 17 de maio de 2022.”, o que não dá nenhuma segurança jurídica ao servidor e deixa clara sua temporalidade. Nenhum servidor é obrigado a acatar ordens ilegais na APF (Administração Pública Federal), enquanto ainda vige a Lei 8.112/90, e enquanto não se consegue desconstruir a Administração Pública Federal como um todo, como se quer.

 

O interessante nesses projetos administrativos que visam, ou resolver de maneira abrupta uma dificuldade premente da Instituição, ou prepará-la para mutações mais abrangentes e definitivas, é a preparação do terreno para a aceitação do desastre pessoal, evidentemente bem disfarçado, por meio de promessas de isolamento das dificuldades relacionais produzidas dentro e pela própria Instituição. Para tanto, o encantamento produzido é necessário para convencer alguns espíritos incautos a embarcarem nessa aventura. Vejamos o Art. 4, onde se lê: “todos os participantes estarão dispensados do registro de controle de frequência e assiduidade, na totalidade de sua jornada de trabalho, qualquer que seja a modalidade o regime de execução.”. Ora, recentemente uma servidora aposentada verbalizou o seguinte: “o melhor da aposentadoria é não ter mais um SISREF (Sistema de Registro de Frequência).”, ou seja, o controle. Disso se depreende que a obrigação e o controle do ponto parece ser um fardo pesado para a maioria dos servidores, e que a administração está benevolentemente retirando esse fardo se suas costas. Além dessas questões objetivas, há outras, mais subjetivas, como a eliminação do contato com o segurado, ou o cidadão que precise se relacionar com a Instituição na busca de seus direitos. Anos de trabalho na área de gestão de pessoas me fazem perceber a imensa dificuldade do servidor no trato com o público, podendo concluir que isso se deve, primordialmente aos inúmeros e ineficazes processos seletivos de pessoal ineficazes e ineficientes para desenvolver tal função. E este é mais um encantamento, ou um Canto da Sereia, que visa levar o servidor a aderir a tal programa.

 

Porém, e sempre há um porém, no Art. 12, podemos observar a seguinte informação: "Art. 12 Terão prioridade para participação no programa na modalidade teletrabalho em regime de execução integral, nesta ordem, os agentes públicos: I – acometidos de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, estados avançados da doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, ou síndrome de imunodeficiência adquirida; II – com deficiência; III – que sejam pais ou responsáveis por dependentes com deficiência; IV – lactantes de filho ou filha de até dois anos de idade; V – gestantes; VI – idosos; VII – que residam fora da unidade de exercício no interesse da administração; VII – com horário especial, do caput do art. 98 da Lei n. 8.112, de 11 de dezembro de 1990.". Ora, à parte a questão da necessidade de afastamento de servidor com doença contagiosa, as demais situações parecem favorecer muito mais a administração, e que sugere, por este texto, se desobrigar de algumas responsabilidades para com o seu corpo funcional. Em alguns casos é possível pensar que seria muito cômico, se não fosse extremamente trágico, pois claramente há o abandono dos cuidados com o servidor e, em alguns casos, traços de práticas nazifascistas de exclusão. E para não dizer que não falei de estagiários, eis uma pérola que se encontra no artigo 13, parágrafo 5: “A alteração da jornada presencial para teletrabalho dos estagiários ocorrerá por meio da celebração de acordo entre a Instituição de ensino, a parte concedente, o estagiário e, exceto se este for emancipado ou tiver dezoito anos de idade ou mais, o seu representante ou assistente legal.”. Além de ser um cheque mate na, de há muito, fictícia supervisão de estágio, é uma declaração pública de que os estagiários são na verdade mão de obra barata que complementam a falta de servidores para o exercício das funções na Instituição.

 

Uma denúncia feita por uma servidora da Agência Visconde de Guarapuava, de que não há telefone na Instituição para se comunicar com os segurados, em uma Agência da Gerência Executiva do INSS em Curitiba, e de que os servidores daquela Unidade administrativa são obrigados, por força funcional, a usar os próprios aparelhos portáveis, nos remete diretamente ao processo de Uberização da economia, prática bastante disseminada entre patrões e empregados na iniciativa privada dos dias que correm. Ora, esse processo de uberização já se encontra presente desde o início do trabalho remoto, quando a Instituição transfere para o servidor a responsabilidade com os insumos necessários ao desenvolvimento dos trabalhos executados em seu domicílio.

 

O chamado PGD (Programa de Gestão e Desenvolvimento), se vale da uberização como forma de diminuir os custos da produção administrativa, e assim está inexoravelmente atrelado ao produtivismo neoliberal, demonstrando a lógica do empreendedorismo neoliberal aplicada ao serviço público. Nessa lógica de contenção de custos de produção, o novo Programa assinala algumas questões importantes, e dificilmente observadas por aqueles indivíduos encantados pelo Canto da Sereia, como por exemplo na Seção II, que se refere a pagamentos e indenizações. No Art. 32, “fica vedada a autorização da prestação de serviços extraordinários e horas excedentes aos participantes do programa de gestão. Paragrafo único. O cumprimento, pelo participante, de metas superiores às metas previamente estabelecidas, não configura a realização de serviços extraordinários e horas excedentes.”; No Art. 33, lê-se: “Não haverá banco de horas para os participantes do programa de gestão e desempenho, visto que o controle será realizado por metas.’; No Art. 35, lê-se: “Fica vedado o pagamento de adicional noturno aos participantes do programa em regime de teletrabalho.”. Esses artigos deixam muito claro que a liberdade tão sonhada é bastante relativa e que possuem um preço, além do que o ganho financeiro por trabalho além da meta estabelecida é inexistente.

 

Além das questões acima pontuadas, esse PGD me leva a uma época já passada, quando ainda discutíamos desenvolvimento na Instituição. E nesse processo de gestão e desenvolviemnto, a avaliação dos servidores não deveria ser unicamente um instrumento para ascensão na carreira em termos de progressão, ou punição, mas um processo para evolução em termos de conhecimento e aprendizagem, além de compromisso com a função social da Instituição. A avaliação do desempenho dos servidores deveria ter um caráter educativo, e foi isso o que foi previsto e projetado no Projeto de Gestão por Competências, elaborado, e não concluído por decisão institucional, não se sabe o motivo, entre os anos 2010 e 2018, do qual participei e com o qual se gastou enormes quantidades de dinheiro público, mas que, ao que parece, foi enfiado totalmente em LINS: lugar incerto e não sabido, sendo este PGD, ora apresentado, apenas um programa de controle de produção sem nenhum compromisso com a qualidade, logo sem compromisso com a segurado, ou com a qualidade de vida do servidor no trabalho, logo um aprofundamento da precarização do trabalho e da vida funcional do servidor.

 

Penso que, com tantas ilegalidades e ataques ao servidor, está mais do que na hora de se pensar em um grande processo por danos morais, em favor dos servidores e contra a administração do INSS, além de uma ofensiva real dos servidores contra a administração da Entidade. Mas parece que isto se torna impossível na medida em que a grande maioria se encanta pelo canto da sereia, acéfala de raciocínio e cognição, sem perceber que a sereia que canta e encanta, na verdade, é um terrível demônio que pretende ceifar a Instituição, a vida funcional dos servidores e a inclusão daqueles cidadãos mais necessitados.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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segunda-feira, 17 de março de 2025

A MEDIDA DO OUTRO PELA PRÓPRIA MEDIDA E A RUPTURA DA FRATERNIDADE...OU APENAS UM DESABAFO!

 

É da lógica da dinâmica psíquica projetar no outro aquilo que ainda não está completamente apaziguado em si. Em um certo sentido,  isso poderia atravessar o social como o benefício da dúvida e, consequentemente, da possibilidade de crescimento. Infelizmente, apesar de parecer benéfico numa certa medida, é, também, exatamente assim que surgem as discórdias e a violência entre os pares.

 

Mas em tempos tão conturbados, de recrudescimento da violência sistêmica, de cancelamento do futuro possível, e de manipulação para a construção de um novo humano desumanizado, é estarrecedor, até mesmo frustrante e constrangedor, vivenciar, na prática, o ódio e a estupidez que se apresenta entre esses pares. Os servidores da Previdência Social, seguindo a lógica manipulada pelo sistema, estão divididos e babando ódio uns pelos outros. De um lado aqueles que vivenciaram as lutas contra a opressão do sistema na segunda metade do século XX e também no início do XXI, e que, mesmo em uma fase da vida em que deveriam estar mais tranquilos, continuam a lutar pelo bem comum, do outro lado aqueles que não vivenciaram estas lutas, mas que foram infinitamente forjados e influenciados pela ideologia neoliberal que, entre outras características, tenta reimplantar a Lei da selva, anti civilizatória, do homem como lobo do homem, e que, para tanto, fortaleceu o individualismo e a personalidade narcísica, além de uma ode à estupidez e uma aversão absoluta ao conhecimento e à educação. Concomitante a isso, o avanço tecnológico mortifica o animal humano, escravizando-o, isolando-o cada vez mais do outro da relação, condição necessária para Ser, e projetando um futuro sombrio, onde o corpo, desde a revolução cognitiva, já perverso em relação à natureza, simplesmente passa a não ter mais importância alguma, sendo este o ápice da perversão em relação ao natural da natureza e à própria vida.

 

Mas, voltemos ao cancelamento da relação entre os pares, se ainda é possível assim nomea-los, dentro da Previdência Social brasileira. O Sindicato da categoria, composto em sua grande maioria por aqueles servidores mais experientes nas lutas contra a opressão do poder sistêmico, tem tentado, além de continuar sempre o embate direto com o poder patronal, chamar esses servidores, ditos novos, - talvez novos zumbis! -, para o aprimoramento da discussão política, sem sucesso algum. Parece que estes cidadãos foram, de fato, encantados pelo canto da sereia, além de dominados completamente pela manipulação neoliberal de transformação dos indivíduos em zumbis do capital, estimulados a se acreditarem seres mais preparados do que aqueles que estão na batalha desde há muito. Esses pobres coitados não percebem onde os estão colocando, talvez por desconhecerem o conceito de Uberização, vinculado à ideologia neoliberal. Infelizmente, essa divisão só levará a todos à ruína, onde os próprios trabalhadores da Previdência preparam, com suas atitudes egocêntricas e divisionistas, o ataque final e definitivo do poder sistêmico ao que ainda resta de uma política construída para salvaguardar a existência de todos diante da voracidade do capitalismo, sem cotraponto, no terceiro milênio.

 

É interessante, e ao mesmo tempo muito triste, que conceitos como Modernidade Líquida e Banalidade do Mal, além de pensamentos como os de Deleuze, sobre a super potencialização do poder na era digital, e de Ecco, sobre o fato da imbecilidade ser alçada ao podium a partir da internet, possam ser extremamente bem identificados nesse processo. Quando um ser completamente imbecilizado sugere que lutadores, lugar que o imbecil não consegue, e, provavelmente, jamais conseguiria ocupar, não precisariam lutar, ou que, se o fazem, não precisariam comer..., facilmente identifica-se a liquidez das relações, a profunda maldade, a mão do poder super opressor da modernidade sobre este indivíduo, e a total imbecilização do sujeito da compreensão, se sobra nessa personalidade algum resquício de uma estrutura capaz de compreensão.

 

ùltimamente, o tesão está indo pelo ralo, e como já dizia um autor falecido "sem tesão, não há solução", e a paciência para o embate com certas portas está se esgotando. Tendo passado tantos anos estudando e batalhando por uma Instituição melhor, por uma qualidade de vida funcional melhor para todas e todos, sem nenhuma perspectiva pessoal, tendo em vista ter praticamente abandonado o sonho da docência na Universidade para continuar ensinando e analisando na Instituição, ter que saber da fala de uma porta dessas, - que deve se acreditar uma sapiência!, que num processo em que, como sabido, tudo está interligado, a nossa luta é desnecessária porque uma coisa não tem nada a ver com a outra, pois "o orçamento já foi aprovado e uma hora sai", sendo desnecessária qualquer tipo de luta, é o fim da pícada! É um desconhecimento total e absoluto do processo político, sobretudo do processo político brasileiro, após a experiência protofascista que vivenciamos no período de '16 a '22. Penso que o maior problema dessa gente estúpida não é um processo de enlouquecimento, mas burrice pura e simplesmente, estupidez servil e subserviente. Talvez a dita porta ache que o cu nada tem a ver com a boca, apesar de ambos fazerem parte do mesmo sistema digestivo. E pois bem, no meio dessa luta fratricida, já se vislumbra o grande vencedor, que só descobrirá quem, no meio dessa turba, ainda tenha um pouquinho de discernimento neste mar de merda infra cognitivo, pelo qual somos obrigados, todas e todos, a navegar.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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O CANTO DA SEREIA E A AGONIA DE UMA INSTITUIÇÃO SECULAR

 


A Previdência Social do Brasil já é uma Instituição secular, a partir de 2024. Mas, apesar de sua importância e longevidade, agoniza diante de novos ataques de desconstituição disfarçados de modernidade. 

E agoniza junto com aqueles que a fazem, seus servidores que, completamente iludidos por desejos forjados pela ideologia neoliberal capitalista, sobretudo aqueles narcísicos de inflação de autoimagem, ou aqueles bem egoístas de “comida pouca, meu pirão primeiro”, além do profundo desprezo pelo outro da diferença, caminham a passos largos para um território abissal, do qual será difícil a emersão. 

A religião, nos dias que correm, está na pauta, seja enquanto sua transformação em mercadoria, fato observável nas igrejas neopentecostais, seja enquanto mecanismo de destruição étnica, com os recentes ataques genocidas do fundamentalismo judaico aos palestinos, seja enquanto mecanismo de inclusão, fruto do papado de Francisco na igreja católica, por muitos combatido. Também, clama-se em nome do divino o apaziguamento dos espíritos mais belicosos, mas vamos um pouco mais para trás, para um tempo onde reinava o paganismo e seus mitos, a religião na antiga Grécia. Vamos pedir suporte a esta religião mais antiga, vamos nos valer da sua mitologia, que sempre foi, em todas as culturas, uma forma de suporte do real da realidade. O canto da sereia é um mito daquela cultura pagã grega que, embora possa, hoje, ser associado ao canto das baleias, e talvez fosse de fato isso, o que realmente se escutava naqueles tempos, ajudou a construir o mito. Mas o canto das sereias, na mitologia grega, trata de algo que é extremamente atraente e sedutor na superfície, mas que, ao fim e ao cabo, é enganoso, perigoso ou destrutivo. Presente na Odisseia de Ulisses, o canto das sereias era um acontecimento que, segundo o mito, levava muitos marinheiros a um fim trágico, envolvidos por aquele som mavioso e sedutor. Facilmente os navios de perdiam e eram levados a pique, fazendo sucumbir toda a marujada.

Na Epopeia, Ulisses, porém, em seu retorno de Tróia, quis experimentar essa escuta para entender o poder daquele canto sem colocar, evidentemente, sua vida em risco. Pediu que os marinheiros o amarrassem ao mastro do navio, sem proteções nos ouvidos, coisa que todos usavam, e quase enlouqueceu ao ouvir e se deparar com tamanha beleza sonora. Ulisses escapou, por estar amarrado, mas comprovou o poder sem medidas daquele canto. 

Trazendo o mito para nossa realidade, podemos associar o canto da sereia às saborosas ofertas do poder, hoje, e que atingem em cheio os desejos de poder econômico e social, e as muitas frustrações dos servidores da nossa Instituição, acenado com ilusões de uma capacidade econômica irreal, afastando-os do entendimento de classe, e que não se sustenta ao longo do tempo. Os objetivos não declarados, pois sempre os há, são os mais nefastos e hediondos para o servidor e a própria Instituição: desconstrução, transferência de capital público para a esfera privada e, finalmente, o abandono do servidor à própria sorte, num mato sem cachorro, ou numa selva capitalista. Afinal de contas, o servidor é levado a se crer o senhor de si, quase um autônomo, - ou por que não dizer um Deus?! - e deverá se virar no mundo da livre concorrência, coisa que já é levado a fazer internamente, mesmo sem o sentir. 

É preciso que o servidor acorde urgentemente, reaja ao encantamento, arrebente a mesa, arrebente seus grilhões invisíveis, antes que seja muito tarde, antes que o canto da sereia o arraste definitivamente para o abismo, juntamente com a Instituição e a população que dela necessita e depende para sobreviver.

Um predador cerca a presa porque é de sua natureza, e assim é o sistema sob o qual existimos, ele nos cerca, nos encanta, nos manipula...e não esqueçamos…assim como o sistema no qual navegamos, as sereias da mitologia eram, na verdade, terríveis demônios, devoradores de homens, com uma voz celestial, de encantar os anjos.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7

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O AVANÇO DA EXTREMA DIREITA NO MUNDO, OU, O QUE QUER A EXTREMA DIREITA

 O que não se percebe, ou não, para não sabotar a presunção da dúvida, é que o avanço da extrema direita em todas as partes dos espaços humanos do planeta é, na verdade, a busca pelo afrouxamento, na civilização, de processos civilizatórios necessários à existência da própria civilização. Tais processos relegam ao nível do inconsciente características predatórias primárias que, sem os quais, livres de qualquer recalque, como em período anterior à aquisição da consciência, anterior mesmo à revolução cognitiva, fazem-nos mergulhar na horda primitiva. Ao nos afastar continuamente, ao longo do tempo, do natural da natureza, de forma lenta e complexa, esses processos propiciaram nosso mergulho na civilização.

 

Como muito bem frisou, na abertura do seminário sobre o processo de desconstrução do regime jurídico único dos servidores federais do Brasil, e promovido pela Frente Parlamentar Mista do Serviço Público, no dia 11/03/2025, o deputado Reimont Luiz Otoni Santa Bárbara, do PT do Rio de Janeiro, tudo está interligado. Nesse sentido, também não dá para pensar nos ataques neoliberais da extrema direita sem pensar nos mecanismos estruturais produzidos pela característica predatória humana, que sustentam o sistema econômico sob o qual sobrevivemos, e que, fazendo seu contrário, sustentam a possibilidade ou não de manutenção da civilização.

 

Para salvaguardar o existir é preciso reforçar os mecanismos que dão suporte à civilização humana, que controla e subjuga a predação, valorizando e encorpando todas as formas de união entre os seres da compreensão, propiciando as ações comuns de existência, enfim de mecanismos de valorização e de suporte à vida. Para tanto é preciso combater todos os mecanismos de desligamento da vida e da possibilidade do existir.

 

Vivenciamos, hoje, nos dias que vão, um momento trágico de nossa existência no planeta, em que se recrudescem mundo afora os ataques ao meio ambiente, ao outro de uma maneira geral, ao conhecimento e ao saber, e à vida como um todo. Todos os mecanismos criados pela civilização, de compreensão e/ou manutenção da vida, são atacados em função de uma pseudoliberdade, divulgada à torta e à direita, que simplesmente não existe. No meio social, a liberdade é a medida da existência do outro. A liberdade absoluta, que prega o neoliberalismo, só é possível na morte, sendo a liberdade possível, inexoravelmente atrelada à manutenção da civilização. 


O neoliberalismo, com seu canto de sereia, que acena para aquele humano “desavisado” com as impossibilidades libertárias do existir, não apenas tenta aprimorar o processo predatório do homem pelo homem, mas de forma subjacente prepara o terreno para um “gran finale” da humanidade, assim como sonham certas doutrinas religiosas de extrema direita com o Armagedom, e não apenas sonham, preparam o terreno para que ele se realize. Ou seja, tudo que se nega via extrema direita é a própria vida, ilusoriamente atrelado este fim ao outro, o outro que incomoda, o outro que se crê menor, mas que, negando essa relação e o ambiente natural, busca-se levar toda a civilização a um termo, e ao retorno do humano ao inanimado, extinguindo a vida para o gozo supremo de Deus. 


O discurso político é sempre um discurso encobridor, que, como o discurso do mestre, traz complexidade ao jogo predatório do Capital, dificultando a claridade, para além desse discurso, do desejo de morte de si, que, antes, sugere o desejo de morte do outro. Na política, cabe a cada um de nós escolher, nesse jogo de cena que constitui a civilização, sermos agentes de vida, se trabalhamos pelo coletivo e pela coletivização dos meios de produção, ou sermos agentes de morte, se trabalhamos em prol do egoísmo e do individualismo, numa ode a Narciso, que, - não esqueçamos!, também se afoga pelo encantamento com sua imagem, e do consequente fim da existência.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política

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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

O GOLPE DE 2016 E O GOLPISMO NO BRASIL



Falar sobre o golpe de 2016 requer um esforço hercúleo no sentido de fazer entender, sobretudo ao senso comum, manipulado pelos meios de comunicação de massa, que, apesar da ausência de tanques nas ruas, da ausência de assassinato de mandatários e da ausência da quebra do rito processual, sofremos sim um golpe de estado, cujo ator principal foi o parlamento brasileiro, capitaneado por alguns atores políticos corruptos e corruptores que não mediram esforços para apear do governo uma presidente eleita democraticamente e sem crime de responsabilidade.

Duas falas públicas de atores do golpe são suficientes para sustentar a veracidade deste fato. Uma delas, do próprio golpista que usurpou o poder, o senhor Michel Temer, quando, em visita à ONU, logo após o processo do golpe, declarou que Dilma Roussef só sofreu o impeachment porque não aceitou o projeto ultraneoliberal Ponte para o Futuro, que a partir de então foi implementado no país. A outra fala importante, e que nos dá a dimensão exata do processo desenvolvido e implementado nos bastidores para destituir a mandatária, foi o do corruptor Marcelo Odebrecht, que declarou ter liberado 40 milhões de reais para o senhor Eduardo Cunha, que presidia a Câmara de Deputados à época, e que capitaneou o golpe naquela casa, para comprar os votos necessários à consumação da ação golpista.

Outro fator importante de análise é o fator de sustentação do processo de impeachment, as chamadas pedaladas fiscais, que nada mais são que ajustes gerenciais para fechamento de contas, e que não poderiam jamais se configurar enquanto crime de responsabilidade, e que também não tinham relação direta com a presidência da república. O Golpe teve ainda uma importante e decisiva participação dos meios de comunicação de massa, que mobilizaram os inúmeros preconceitos de classe, de raça, de sexualidade, que subexistem na cultura brasileira, sob o berço explêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, ocultos pela ideia falaciosa da nação tropical da festa, da paz e do amor fraterno.

E para além dos fatos acima citados, e que certamente dão substância à narrativa do Golpe, há a questão política que define o Golpe como "uma ruptura da ordem constitucional legítima, visando a tomada do poder por um determinado grupo político". O Golpe, na verdade, se constitui como um processo político que se iniciou já nos primeiros passos do primeiro Governo de Dilma Rousseff, ao dar início à desconstituição do projeto político da centro-esquerda, substituindo-o por outro, de um outro grupo, profundamente sedimentado na ruptura da conciliação de classe efetivada por aquele governo, e que se aprofunda até os dias atuais. Para entendermos a questão da ruptura da conciliação efetivada nos dois primeiros governos de centro-esquerda, é preciso entender a mudança nos eixos da política de governo iniciada no terceiro mandato da centro-esquerda no país. Na política proposta nos dois primeiros governos há três eixos importantes, a saber: 1. Um amplo esforço de investimento público para o crescimento econômico, 2. Distribuição de renda que, além dos auxílios que promoveram a inserção de uma enorme massa na economia, produziu aumentos reais no salário mínimo e nos salários, e 3. O fornecimento significativo de crédito para a população. A partir do terceiro mandato houve uma mudança considerável nesta política, com 1. Corte significativo do investimento público, 2. Redução da taxa de juros e 3. Acatamento absoluto das exigências do mercado, com um processo de desoneração fiscal que passou da casa dos 50 para a casa dos 250 bilhões. Essa nova direção, paulatinamente foi desconfigurando a chamada conciliação de classes, e o governo começou a perder seu apoio e sua sustentação, o que escancarou a porta para o golpismo de direita. Na verdade, substituiu-se um jogo de ganha-ganha por um outro que se revelou de perde-perde, embora mantendo-se alguns benefícios sociais.

O golpe desnudou a nação brasileira, fez cair a máscara da fraternidade, e fez eclodir o ódio que vicejava por todo o sempre como fogo de munturo, sob a grande hipocrisia nacional. A colonização de pilhagem e os trezentos anos de escravidão negra no país explicam, em parte, o que hoje desfila despudoradamente em manifestações públicas da classe média brasileira, desde a pequena classe média à alta, e nas redes sociais, onde se diz o que de fato se quer dizer, já que não se diz para ninguém, embora se diga para todos. Umberto Eco, pouco antes de falecer, chegou a dizer que a internet deu voz aos imbecis, eu diria que ela não só deu voz aos imbecis, mas também propiciou a expressão profunda de traços não muito bonitos e palatáveis da alma humana, antes reprimidos pela presença do Outro no diálogo face a face.

Os golpes que acontecem no Brasil, e desde a sua Independência, passando pela República, mesmo o Estado Novo, pelo Suicídio de Getúlio Vargas, pela Renúncia de Jânio Quadros, pela tomada do poder pelos militares e a deposição de Jango, e finalmente pela deposição de Dilma Roussef, são movimentos das classes dominantes que, sempre que se sentem ameaçadas, agem para a manutenção de seu status quo, e para manter a relho e a reza para as classes menos favorecidas. Durante todos esses processos, o povo foi alijado da ação defensiva, com a retórica do não derramamento de sangue pelos golpeados. Essa retórica está materializada no discurso de Pedro II, no suicídio de Getúlio, no discurso de Jango e, mais recentemente, na renúncia de Lula à desobediência civil.

O golpe de 2016 segue a lógica do recrudescimento das relações do poder opressor, embora bem mais sutil, mas eficaz no que diz respeito ao uso do discurso da legalidade, mesmo burlando completamente a Lei. À parte a diferença em relação às demonstrações de força e intimidação, largamente utilizados no golpe de '64, com tanques nas ruas e deslocamento de militares, além da presença de porta-aviões norteamericanos no Rio de Janeiro, fato comprovado pelo sociólogo e professor Rodrigo Czajka, em pesquisas recentes em território americano, há similaridades gritantes entre os dois eventos.

Periodicamente o sistema entra em crise e busca no confisco dos benefícios sociais a sua salvaguarda. A partir de 2008, o sistema mergulhou em uma crise estrutural sem precedentes. Alguns analistas chegam a afirmar que a crise de 2008 foi maior que a de 1929. À parte seu funcionamento crítico e não planejado, com suas crises periódicas de autoajuste, o sistema capitalista é um produtor de enormes desigualdades. No Brasil apenas 3% de sua população são de empregadores/capitalistas, no mundo esse número não passa de 5%. 2/3 da população brasileira é de assalariados que recebem até 2 salários mínimos, ou 25% da população. A globalização econômica e o avanço neoliberal destruiu a burguesia nacional existente, herdeira do surto desenvolvimentista a partir da era JK, e anterior ao Golpe de '64. Hoje, não há burguesia nacional suficientemente forte para defender o país e construir um projeto de capitalismo nacional. O Golpe de 2016 acabou de liquidar com o sonho desenvolvimentista mais recente e consequentemente com o que restava de burguesia nacional no Brasil.

Das capitanias hereditárias, com sua constituição duvidosa e com objetivos meramente extrativistas, brotou uma elite mercenária que jamais olhou para a terra colonizada como pátria e que, nas acomodações do tempo, tratou de produzir lacaios para ocupar os espaços de poder a seu serviço, de forma permanente e hereditária, na estrutura do estado. A composição político familiar presente nas instituições do estado, que se repete de há muito, não deixa dúvidas quanto à perpetuação de certos núcleos familiares que se reproduzem nos círculos de poder. 2/3 da Câmara e 3/4 do Senado é composto por famílias que se perpetuam naqueles espaços. Dados estes fornecidos pelo professor da sociologia Ricardo de Oliveira. O atraso dessas famílias e suas ramificações na esfera política é tão grande que não conseguem sequer suportar a própria democracia burguesa, e um mergulho mais recente na cultura do país nos dá a dimensão dessa dificuldade, tanto na constituição de uma elite nacionalista, como para o desenvolvimento da nação. A elite nacional, e consequentemente a classe média nela espelhada, é tão subdesenvolvida que sequer suportam a universalização da educação, e a própria democracia burguesa.

O embate entre classes antagônicas sempre esteve presente nas disputas políticas, embora, segundo o economista e professor Claus Germer, no golpe de '64 tivemos um embate entre burguesia urbana ascendente, nascida do surto desenvolvimentista a partir de JK, unida aos trabalhadores por uma certa convergência de interesses, versus burguesia rural decadente, por conta da ascensão da burguesia urbana, unida aos interesses oportunistas norteamericanos no país. No golpe de 2016, e pelo avanço do projeto neoliberal no mundo, a globalização e a ausência de um contraponto ao sistema capitalista, vemos um embate entre a massa proletária e uma burguesia internacionalizada, e por isso aliada mais uma vez de interesses estrangeiros no país, notadamente dos Estados Unidos da América do Norte.

Os últimos governos de centro-esquerda no país ousaram enfrentar o domínio americano na região, o que, evidentemente, não agradou a Washington. A tentativa de unificação da América Latina, pelo fortalecimento do Mercosul, com a participação de governos de centro-esquerda surgidos nas últimas décadas, os investimentos estratégicos na infraestrutura de países do bloco, além da criação do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que hoje somam 11 países) e seu banco, com o claro objetivo de fazer face à hegemonia da moeda norteamericana, além da descoberta do pré-sal no Brasil, foram fatores decisivos para o posicionamento de Washington contrário à ascensão da socialdemocracia brasileira. Na América Latina, onde Washington não conseguiu produzir uma mudança de rumo pela via da democracia burguesa, como na Argentina e no Chile, patrocinou e instrumentalizou um golpe de estado, a exemplo do Paraguay, Honduras e, mais recentemente, Brasil. Seguem na resistência Uruguay, Bolívia e Venezuela, com um governo controverso e mais à esquerda que os dois primeiros.

No Brasil, a partir do golpe de 2016, produziu-se o maior ataque de todos os tempos aos direitos dos trabalhadores, direitos estes conquistados a partir da década de '30 do século passado, e a desconstrução do frágil, e que se encontrava em processo de desenvolvimento, estado de bem-estar social nacional. O desmantelamento da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), a Lei das terceirizações irrestritas; a reforma do ensino, que tem o objetivo claro de restringir o pensamento crítico e produzir mão de obra barata e não especializada na classe trabalhadora; o congelamento do gastos públicos por vinte anos, com o claro objetivo de sufocar a administração pública, forçando seu desmantelamento, como já acontece com as Universidades e outros setores; as privatizações no setor público, inclusive em áreas estratégicas; e o desmantelamento da seguridade social, com o desmonte da Previdência Pública, cujo órgão estratégico foi o primeiro a ser ceifado, com o corte de 95% (noventa e cinco por cento) da verba para a Assistência Social, e o recente acordo com a FEBRAPLAN (Fedração Brasileira de Planos de Saúde), com o objetivo claro de extinção do SUS, e transferência da verba pública para a iniciativa privada, dão a dimensão exata da arquitetura da destruição projetada e promovida pelo golpe de estado de 2016 em nosso país.

O objetivo dessa arquitetura é claríssimo, demantelar o estado de bem-estar social brasileiro, e em seu lugar instituir o estado mínimo neoliberal, conforme preconiza o acima referido Projeto Ponte para o Futuro, e é constrangedor que cidadãos brasileiros natos estejam envolvidos nesse processo. Um processo que, além de destruir o bem-estar social, nos coloca de joelhos diante do capital internacional, entregando nossas riquezas e empresas construídas ao longo dos anos com o suor do povo brasileiro. Como se isso já não fosse estarrecedor, o golpe flertou cada dia mais com o totalitarismo e a intolerância, haja vista as ações ilegais que produziu, a desmoralização das Instituições e dos Poderes da República, a desmoralização das forças armadas, e a dessiminação do ódio e da violência no seio da sociedade brasileira, que já produziu agressões, tentivas de homicídio, além de suicídio, assassinatos e prisões ilegais patrocinadas pelo próprio Estado.

Apesar dos avanços contidos no PNDH-3, de 2010, com seus seis eixos integrados para a questão da segurança pública, na prática, não houve melhora na questão da violência no país. Ao contrário, houve uma aumento considerável nos números da violência, conforme dados disponíveis para pesquisa e repassados pelo historiador Clovis Gruner, da UFPR: violência no Brasil / dados de 2016: 61,6 mil assassinatos / 4,6 mil mortes em ações policiais / 437 mil PMs mortos em serviço. Destes números 92% são homens, 82% têm entre 12 e 29 anos e 76% são negros, portanto traduzindo esta realidade é possível afirmar que as vítimas de violência em sua quase totalidade são de homens jovens, negros e pobres, o que evidencia a situação de embate social, que se desenrola entre a população pobre e o aparato miliciano do estado burguês, o que evidencia a existência de uma guerra civil permanente no Brasil de há muito, que apenas não é declarada como tal. O tráfico de drogas se apresenta como uma cortina de fumaça neste conflito de classes, tendo em vista que ele está relacionado a todos os segmentos da sociedade, tanto em termos de consumo como em termos de comercialização. Uma interessante declaração do traficante Fernandinho Beira-Mar dá a dimensão deste fato: "No tráfico, negro e favelado não chega ao topo, mas onde lhe é permitido chegar.". As recentes notícias de envolvimento de parlamentares com o tráfico, e o flagrante do "helicoca", só confirmam o real alcance do braço armado da polícia burguesa. Entre 1992 e 2017 houve um aumento de 400% na população carcerária do Brasil, que hoje ocupa, apenas abaixo dos Estados Unidos e da China o terceiro lugar em população carcerária.

A mais recente intervenção militar no Rio de Janeiro não cumpriu absolutamente nenhum papel no combate à violência, sendo antes uma jogada política, por meio de apropriação simbólica e institucional de um governo sem nenhuma sustenção democrática no poder. Ademais, tal ação, que desvia completamente a finalidade das forças armadas, pode favorecer certos grupos criminosos, em detrimento de seus rivais, que comandam o crime organizado nas favelas dos grandes centros urbanos do país. Sabe-se que as favelas do Rio de Janeiro são redutos do CV, muito menos perigoso que o PCC, que atua na capital paulista, e cujo advogado foi alçado a Ministro do Supremo pelo governo golpista e intervencionista.

Já a partir de 1530, e não apenas a partir da ditadura militar de 1964, iniciou-se a formação de uma polícia política, com Martim Afonso, na defesa das capitanias hereditárias que se instalavam no território. Em 1809, funda-se no Rio de Janeiro, a Guarda Real da Polícia, com o objetivo de proteção da familía real portuguesa chegada no Brasil, fugindo das guerras napoleônicas, um ano antes. Em 1830, cria-se a Guarda real durante a Regência, período de grandes insurgências, devido a não aceitação do Regente por parte da população, e a partir de 1831 dissemina-se no país a ideia da polícia protetora do Estado. Já em 1919, as forças armadas e polícias militares são organizadas, e em 1946 os corpos de guardas municipais. O caráter de proteção do estado, leia-se aqui das classes dominantes, está presente em toda a trajetória evolutiva do aparato policial, inclusive na Constituição Cidadã de 1988, que trata a questão em termos de violência ostensiva e preservação da ordem pública, o que lhe confere o caráter de defesa apenas do Estado. Portanto, até os dias atuais a polícia se configura como o braço da violência do grupo que ocupa o Estado. Com o estado exceção, a violência potencial da polícia tem passado rápida e constantemente para a violência em ato, com o intuito de intimidar os movimentos sociais e o povo que se insurge contra os crimes do de governos golpistas.

No Brasil do pós golpe o aparato judicial policial se transformou em polícia política”, declarou o preso político José Dirceu à jornalista Mônica Bergamo, sobre o período pós golpe de 2016. Porém de toda esta avaliação fica a triste constatação de que, em nosso país, o golpe e o golpismo são sustentados em uma relação promíscua entre o poder e a força, onde somos meros objetos de uma orgia sadomasoquista nacional.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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