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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

EDUCAÇÃO CORPORATIVA & ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

A Educação Corporativa na Esfera Pública

          O processo de Educação Corporativa no Serviço Público pode e precisa tornar-se o elemento motor para a estruturação de um processo contínuo e eficaz de desenvolvimento profissional. Na Administração Pública Federal isso já é ponto pacificado, pelo menos em sua Legislação, e normativas vigentes e pertinentes, bem como na literatura especializada e específica da área, restando porém a busca do fato, já embasado pelo direito.

          As dificuldades, por vezes encontrada nesse caminho, não devem desviar do foco ou deixar desesperançosos os profissionais dessa área. As dificuldades fazem parte de um processo de ajuste e de crescimento, de aperfeiçoamento, enfim de evolução. Não se conseguiu, na maioria das vezes, convencer a Administração Pública Federal da necessidade de tornar a Educação Corporativa, de fato, uma prioridade. Muitas vezes também, e em casos particulares, sequer alcançou-se o objetivo de justificar, de maneira plausível e satisfatória, essa prioridade.... Mas, deve-se aprender com as dificuldades e os tropeços do dia-a-dia funcional. E é isso que se espera da Administração Pública como um todo, que aprenda com seus erros e possa assim avançar em direção ao tão almejado futuro.

          Há muito o que fazer na estruturação da Educação Corporativa na Administração Pública Federal, e essa estruturação passa necessariamente por respostas a questões que não se cansam de gritar na busca dessas respostas. O que realmente se define como Educação Corporativa para o Serviço Público? Qual o real papel de profissionais de educação na estrutura administrativa das Instituições não voltadas ao ensino? O que fazem? Como fazem? Quando fazem? Por que fazem? Onde querem chegar? Há de fato Profissionais da área de educação a serviço da Educação Corporativa na APF? A APF entende realmente o papel desse profissional em meio à busca frenética pelo atingimento de metas e resultados que precisa e deve alcançar? Ou ela ainda os entende, erroneamente, como apoio logístico para os diversos Eventos institucionais? Caso aqueles não se firmem enquanto profissionais de educação na Instituições Públicas, confirmar-se-á, mais uma vez, o que se tem visto em muitas ocasiões ao longo de anos? O que se pode, e se deve fazer para mudar essa realidade?

          Como proceder a construção da Educação Corporativa na APF sobre algo já inadequadamente construído? Parece só haver uma única via possível...a desconstrução. Desconstrução esta que pressupõe uma posterior reconstrução. Reconstrução de uma nova realidade, sobre uma base que já sustentava a realidade anterior, ou seja, uma reconstrução sob a perspectiva de um projeto educacional para o desenvolvimento de perfis competentes.

          Uma outro ponto de extrema importância nesse contexto de Educação Corporativa para a APF, é a questão do mérito. Alguns gestores públicos atendem que é impossível trabalhar com mérito na administração pública, tendo em vista a relação direta com a política. Seria mesmo a política que entrava essa questão? E isto leva a APF a um grande impasse. Não há como desenvolver carreira e profissionais gabaritados, sem levar em consideração e incorporar o mérito. O Mérito esta intrinsecamente ligado à perspectiva de crescimento profissional e, consequentemente, com o desejo do indivíduo em mobilizar energia para seu próprio crescimento. Torna-se assim dicotômico o discurso de promoção do desenvolvimento profissional e da qualidade de vida no trabalho, sem contudo levar em consideração essa questão do mérito. Não há, portanto, como falar em perfis competentes e profissionais gabaritados subtraindo a questão do mérito.

          E aqui é possível se deparar com uma enorme dificuldade da Administração Pública...o Mérito. A supervalorização dos cargos de chefias, em detrimento dos demais profissionais, reflete-se na maioria das vezes nos pedidos de indicações para a composição de equipes, grupos de trabalho, etc. Infelizmente, malgrado todo o conhecimento acumulado ao longo dos anos, é assim que se inicia, ainda, na Administração Pública, a estruturação de uma Unidade, de um Grupo de Trabalho, de uma Gestão?! Onde está o tão versado e celebrado profissionalismo na APF? Especificamente na área de Educação Corporativa, por que o conhecimento desses profissionais não é aproveitado pela Administração para formar equipes a partir de perfis competente, de seleção interna, por exemplo? Na grande maioria das vezes, essas equipes de Educação Corporativa são formadas, não por mérito, mas por indicações. Então, pergunta-se, como equipes formadas por indicação terão força, e sobretudo moral, para avaliar potenciais, avaliar a aquisição e a necessidade de desenvolver competências profissionais, de quem quer que seja?

          Aliás, por onde tem andado o entendimento do processo de Gestão por Competências na área de Educação Corporativa em nossas Instituições? Afinal de contas, o processo de Gestão por Competências, instituido pelo Decreto 5.707, não parece se tratar de mero arroubo institucional, como tantos e tantos outros, mas de um Determinação de uma Instância Superior à qual está subordinada toda a Administração Pública Federal, e à qual se deve obediência, e disso não se pode escapar. A Gestão por Competências muda completamente a noção da gestão das pessoas e da noção de Educação Corporativa nas Instituições Públicas Federais. Mas, será que isso foi bem compreendido pela mesma Administração Pública? Por todos os lados, em diversas Instituições, há um movimento bascular para a efetivação e implantação da gestão por competências, e... É de se estranhar que em dado momento, em muitos casos, "dá-se um tempo" para a estruturação do processo de implantação...Parece, pelo que está posto pela APF, que nosso objeto é o desenvolvimento de competências, e que aliás está escrito e decretado por esta mesma Administração Pública...

          Pois bem, há mesmo muito o que fazer ainda em Educação Corporativa, em qualquer esfera da Administração Pública, ...mas antes de qualquer coisa, antes que qualquer novo modismo possa surgir no horizonte administrativo, há muito o que pensar, o que refletir e, sobretudo, o que definir...tomando posições coerentes, bem fundamentadas e firmes, a despeito de qualquer "desmérito"....Continuar-se-á com o engodo do desenvolvimento de pessoas? Com a falácia do processo educacional? Ou institucionalizar-se-á verdadeiramente uma política de gestão de pessoas por competências na Administração Pública? Pensar nessa questão é, principalmente, decidir que tipo de profissionais se quer na Esfera Pública, e assim, que tipo de marca se quer deixar para aqueles que os sucederão um dia. E por assim dizer, dia este que certamente e muito em breve virá, tendo em vista que, a passos de gigante, e nada adormecido, não se tem conseguido repor a força de trabalho que se vai, deixando uma lacuna no conhecimento, mudando sua condição funcional para a inatividade.



Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2012 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

domingo, 19 de agosto de 2012

VIOLÊNCIA E HUMANIDADE I


A violência contra a própria espécie - Um traço particularmente humano?!


                    Pensando na convivência humana e na violência que a permeia, escolhi um interessante relato do primeiro capítulo do trabalho acerca das origens biológicas da agressividade humana, intitulado “O macho demoníaco”, de Richard Wrangham[1]. Nesse trabalho, o autor busca encontrar, no estudo de nossos parentes mais próximos na escala evolutiva, os chimpanzés, a explicação biológica para a agressividade do homem voltada para sua própria espécie. A descrição a seguir se refere à sua chegada ao continente africano, onde foram desenvolvidas as suas pesquisas, em meio a conflitos políticos de extrema gravidade em Burundi. E os relatos de violência abaixo descritos dizem respeito, não a primatas, mas a seres humanos, ditos civilizados:




“Nos últimos anos, meia dúzia de ondas de matanças étnicas havia varrido havia varrido aquela pequena nação. Num mês, em 1972, os tutsis haviam assassinado todos os líderes hutus, e qualquer outro hutu que aparentasse ser alfabetizado. Dessa forma, embora constituíssem  apenas cerca de 15% da população, nas duas décadas seguintes os tutsis haviam passado a controlar o serviço público, as Forças Armadas e, num sistema de partido único, os escalões superiores do governo. Até 1993, quando o país desfrutou pela primeira vez em sua história eleições edemocráticas, todos os presidentes saído da maioria tutsi.


                        Das eleições de 1993 surgiu o primeiro presidente hutu de Burundi, um político moderado, que acreditava na não-violência e na reconciliação étnica, Melchior Ndadaye. Contudo, no início da manhã de 21 de outubro de 1993, quatro emses antes de pagarmos por nossos vistos, um tanque do exército abriu um buraco na parede branca de alvenaria do palácio presidencial e soldados radicais tutsis mataram a facadas o presidente Ndadye. Também assassinaram meia dúzia de altos funcionários do governo Ndadaye. Os ministros que sobreviveram se refugiaram atrás de tropas francesas num hotel em Bujumbura, capital de burundi.


Enquanto os ministros sobreviventes transmitiam pela Rádio Ruanda apelos para que o povo “se levantasse em armas, como um só homem, em defesa das instituições democráticas de Burundi”, os hutus pelo pais afora tomaram armas toscas, na sua maioria facões e lanças, e foram massacrando tutsis durante os três meses seguintes. Por seu lado, os soldados e civis tutsis massacravam hutus sempre que podiam.


                        Quando aterrissamos, no dia 12 de fevereiro, provenientes de Campala, o aeroporto de Bujumbura estava tranqüilo, quase vazio, vigiado por homens armados com fuzis. Alguém disse (em francês): “a estrada hoje está boa. Ontem, não estava. Amanhã, talvez não esteja.”  De modo que embarcamos numa van alugada e atravessamos as terras baixas, indo para oeste, na direção de Ruanda e do Zaire.


                        Burundi era verde, fresco e úmido. Cruzamos uma terra fértil, com lagos ondulantes de capim e campos estriados em que cresciam milho e mandioca. Havia rebanhos de gado de longos chifres, odores fortes, mulheres carregando enormes feixes de galhos retorcidos na cabeça e uma mulher envolta num pano, de pé, no campo, trabalhando com a enxada. Homens fardados, com ar hostil, portando fuzis, nos fizeram parar numa barreira na estrada, examinaram nossos documentos e depois nos deixaram passar.


                        Depois de algumas horas e de mais três barreiras na estrada, passamos pelo controle de imigração e alfândega, e entramos em Ruanda. A estrada fazia curvas pela colina, depois subia as montanhas, e foi se deteriorando, mas sempre serpenteando para cima, rumo a um lugar promissor onde nuvem e montanha se entremeavam despreocupadamente. Nós nos detivemos por um instante, para olhar para a amplidão de planícies de aluvião e montanhas acidentadas que se erguiam ao longe, ouvindo o rugir de um rio que deslizava lá embaixo. Retornamos então para a van e continuamos a nos deslocar por esse paraíso suspenso de vilarejos e pequenas áreas de plantio circundadas por bananeiras e cercas de bambu.


                        Os problemas ainda não tinham chegado a Ruanda. Ainda se passariam sete semanas, até 6 de abril, quando o presidente de Ruanda e o presidente interino de Burundi foram assassinados. Os presidentes regressavam juntos de uma conferência na Tanzânia quando o avião em que viajavam, ao aterrissar, foi derrubado sobre a capital de Ruanda por homens não identificados que atiraram do solo.


                        Numa réplica invertida da situação em Burundi, os hutus ruandenses controlavam o exército e o governo, enquanto os tutsis eram mantidos de fora. Nos três dias que se seguiram ao assassinato, o Exército e a milícia hutu começaram a levar a cabo uma campanha bem organizada de genocídio. O Exército executou todos os líderes da oposição: 68 tutsis e hutus moderados. A primeira-ministra Agathe Uwilingiyimana foi assassinada. Os guardas das Nações Unidas  que a protegiam foram torturados, tiveram seus órgãos genitais mutilados e, em seguida, foram assassinados. O ministro do Trabalho foi cortado em três pedaços, que foram utilizados como barreira de estrada.


                        Então começou a matança de verdade. Homens, mulheres e crianças tutsis foram massacrados em campos de refugiados da Cruz Vermelha, onde tinham buscado proteção. Num hospital, os pacientes e os funcionários tutsis foram mortos a golpes de facão, enquanto os médicos estrangeiros presenciavam a cena. Os membros das famílias tutsis que haviam se refugiado numa missão religiosa foram despedaçados com granadas de mão, depois seus corpos foram empapados com gasolina e queimados; os poucos sobreviventes que tentaram fugir foram mortos a golpes de facão. As estimativas do número de mortos elevaram-se a meio milhão de pessoas, cujo sangue e corpos, literalmente, desciam pelos rios daquele pequeno e lindo país. Segundo um reporte da News-week, “pilhas de cadáveres flutuavam como bonecas de pano”, deslizando pelo lamacento rio Rusumo em direção à Tanzânia. As autoridades de Uganda calcularam que dez mil corpos tinham descido pelo rio Kagera de Ruanda  para o lago Vitória, onde foram encalhar nas margens ugandenses.


                        Ngoga Murumba, um fazendeiro que foi contratado para retirar os corpos do lago e dar-lhes destino, descreveu uma lembrança confusa e estonteante de horror. Havia envolto em folhas de plástico e empilhado centenas de corpos, mas uma única imagem lhe perturbava a mente. “uma vez encontrei uma mulher”, disse ele. “Estava com cinco crianças amarradas ao seu corpo. Uma em cada braço. Uma cada perna. Uma nas costas. Ela não tinha nenhum ferimento...” (WRANGHAM, 1998, p. 12-15)


                    O trabalho de Wrangham se constituiu na observação do comportamento social de chimpanzés em seu habitat natural, o que o levou a relacionar uma série de atitudes e comportamentos semelhantes aos da espécie humana. Segundo ele “a luta dos primatas pelo poder era de fato política. Tal como a política humana, ela levava à violência quando as negociações fracassavam”.(WRANGHAM, 1998, p.159-160). Suas observações o levaram a concluir que, a exemplo dos humanos, esses primatas planejam ataques e promovem matanças no seio de sua própria espécie, exercendo uma capacidade de violência sem precedentes. Seus estudos o levaram a concluir que “só chimpanzés e humanos regularmente matam adultos de sua própria espécie. Os chimpanzés e os humanos também compartilham outros males: assassinatos políticos, espancamentos e estupros”.(WRANGHAM, 1998, p. 164). A partir desses estudos, busca dar suporte à tese, segundo a qual, há bases biológicas de explicação da violência nos próprios seres humanos. Seus estudos e conclusões nos remetem ainda a outro campo de estudo, às elaborações da abordagem psicanalítica acerca da agressividade humana, dirigida ao ambiente e aos semelhantes, e que em última análise é dirigida a si mesmo.




Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2012 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved



[1] Richard Wrangham é professor de Antropologia da Universidade de Harward e desenvolveu o trabalho ora citado, através de pesquisas de campo com primatas no continente africano.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ÁGORA MODERNA


A nossa Ágora pode ser aqui e agora, e ao mesmo tempo em qualquer parte.



          O espaço tempo da rede mundial de computadores, em certa medida, atualiza o espaço tempo da antiga Ágora grega, como espaço democrático de discussão política, cultural e humana. Mas não podemos comparar essa moderna Ágora com aquela outra, tendo em vista que estamos falando de um espaço onde milhões se relacionam... É preciso então aprender a conviver e a respeitar a diversidade, e, sobretudo, ver nessa diversidade a possibilidade de crescimento e qualificação desse espaço tempo.
 
          Há uma grande diferença entre discutir pessoas e discutir ideias, postei algo parecido naquele espaço há algum tempo, não lembro bem quando, mas isso faz toda a diferença entre fazer história e fazer movimentos circulares que não produzem efetivamente possibilidades de mudanças
 
          Vamos pensar em nosso tempo, no momento que vivemos, no discurso veiculado nos meios de comunicação e que vendem muito por que falam de pessoas. Mas, dão pouquíssima importância ao que de fato poderia alavancar a nossa “modernidade”.  Não podemos dizer que seja importante o julgamento da corrupção e de possíveis corruptos, com certeza o é. Mas não há uma discrepância enorme entre essa publicidade, veiculada em certas mídias, e a publicidade que se deveria dar às necessidades de mudanças estruturais que, em última análise, poderiam engendrar um maior controle a essa prática nefasta? Por que não se faz um grande estardalhaço para as necessidades de reforma política e tributária? Por que o “espetáculo” não revê o foco
 
          Os corruptos, ou os prováveis corruptos não deveriam ser o foco do espetáculo, pois se sabe pelas evidências, que estão em todo lugar, por toda parte. O que é mais importante não se discute, não se espetaculariza.
 
          Assim, nosso povo não cresce e não aprende a pensar, e continua a participar dessa simbiose doentia, mergulhado num mundo circular e espetaculoso, onde quase nada pode ser feito, pois os mecanismos de controle não são alterados.



Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
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domingo, 15 de maio de 2011

A INVASÃO BÁRBARA

Sobre a insegurança no mundo e o confisco do lugar do Outro



          Recentemente, assistimos estupefatos a um episódio que, como diria Cazuza, nos faz lembrar "um muséu de grandes novidades". As invasões bárbaras se repetem dia após dia, ano após ano, no desenrolar dos séculos.

          A invasão de um país estrangeiro, pelo grande império da modernidade, para eliminar um desafeto, nos transmite uma sensação de insegurança sem precedentes. Algo nos diz: Caso você discorde ou, de alguma forma, for de encontro às verdades do império, sua casa pode ser invadida a qualquer momento, e você assassinado, em nome da verdade...do império.

          Esse tipo de ação nos retroagir na história, e parece que vivemos eternamente cumprindo destinos circulares, repetindo as ações de todo o sempre em nossa cultura humana, quando o império romano reinava soberano sobre os povos das terras conhecidas e além, por se supor A Civilização, adentrava nos territórios alheios, subjugando os povos, como se aqueles fossem apenas seres inferiores, e assim eram vistos: Os bárbaros, que habitavam o quintal da casa do grande império romano, quintal este que se estendia a todo lugar.

          Mas não é o que vemos na atualidade?! O  império americano, em nome de uma verdade que se crê a única verdade, sua suposta democracia, adentra as terras de outrem para subtrair, subjugar, pilhar e matar em nome dessa suposta verdade. Sabe-se a importância da democracia, da participação de todos nos destinos da civilização, da economia, da coisa pública...mas isso de fato acontece? No mundo do espetáculo e do discurso ensaiado, moldado por interesses privados é essa democracia que se apresenta?

          E vê-se isso tão perto, e não só em relação ao império americano e suas incurções em terras alheias, mas em círculos menores de poder, na administração pública em nosso próprio país, onde os regimentos e a hierarquia não são respeitados por que o poder centralizador não admite a partilha e se vê, em última análise, como a única verdade a ser admitida. Obviamente, quem se imbui da verdade, não consegue ver o outro como uma possibilidade de verdades. A administração pública está repleta dessa canalha, que Reich chamaria de "Zés Ninguém", que, em nome de ganhos pessoais e da politicagem partidária, impedem a gestão participativa, o respeito ao Outro e à hierarquia, o desenvolvimento e a profissionalização da administração do Estado.

          Evidentemente, o fato de denunciar a invasão americana não é, absolutamente, uma apologia ao fundamentalismo, ou às ações de grupos radicais que, na maioria das vezes, fazem reivindicações legítimas, mas que buscam meios nada civilizados para o atingimento de seus objetivos. Mas, a ação protagonizada pelo império americano ajuda a civilização? O suposto bandido, "representante de satã na terra" não deveria ser preso, com ajuda do país que o abrigava, e julgado na sequência dos acontecimentos para uma possível e provável condenação? "Olho por olho e o mundo terminará cego!" O sábio Gandhi já proclamava na época em sua terra era subjugada pelo império britânico.

          Há grandes possibilidades de esse círculo de violência jamais terminar. Os oprimidos e subtraidos nunca se calarão, e o império da vez jamais se deterá em sua voracidade de acúmulo e desenvolvimento econômico, fundados na dominação e na pilhagem. E, finalmente, o grande engodo dessa história é o aniquilamento do suposto mal, pois o aniquilamento pode traformar o aniquilado e seu pensar em Lei, Lei a ser perseguida por levas de seguidores.

          O mundo precisa ficar mais atento aos sinais da civilização humana através da história. Nela, há verdades extremamente desagradáveis sobre o humano e a cutura humana, mas dar atenção a estes sinais pode um dia nos salvar de nós mesmos.



Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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terça-feira, 8 de março de 2011

O MAL DO OUTRO

      Sobre a Erva de Passarinho...

      Pensar e repensar incansavelmente sobre o mal que nós humanos civilizados podemos causar uns aos outros, à cultura humana e às instituições, é uma tarefa necessária para nos proteger da "peste emocional", das garras do Zé Ninguém, já definido por W. Reich no conjunto de sua obra, e que, infelizmente, existe e insiste, insiste, insiste.

      Alguém conhece uma plantinha chamada erva de passarinho? A erva de passarinho é uma plantinha muito singela que, de muitas maneiras, pode ser confundida com outras plantas. Trazida por passarinhos, se aloja em árvores frondosas e saudáveis, confunde-se com elas e pouco a pouco vai sugando sua seiva, podendo levar seu hospedeiro à morte. Sua frutinha muito doce atrai a passarinhada que, pulando de galho em galho, de árvore em árvore, limpando seus biquinhos repletos de sementes, que neles grudaram durante o banquete, levam a outros organismos o terrível predador.

      Tristemente, percebemos que nossa Cultura e suas Instituições estão repletas de humanos ervas de passarinho. Alojados por interesses obscuros e estranhos, estes seres humanos não conseguem se vincular  de maneira saudável às diversas organizações das quais venham a participar, para desenvolver e progredir em função de um bem comum, de uma meta ou uma nobre missão a cumprir.
Como a erva de passarinho, estes buscam tirar o maior proveito possível daqueles organismos, não se importando se sua passagem trará prejuizos, ou até mesmo, se levará o organismo à morte. O importante para eles é o lucro imediato, o benefício pessoal que se lhes poderá advir.

      Evidentemente, a erva de passarinho aje desta forma para sua sobrevivência, é de sua natureza, é o seu destino a cumprir. Os humanos, seres ditos "superiores" e pensantes, podem fazer suas escolhas. Mesmo que já estejam formados e prontos para a vida, podem repensar sua forma de relacionamento com mundo, sem com isso modificar suas estruturas básicas. É claro que estamos falando de uma estrutura dentro de uma certa "normalidade" possível.

      É preciso, e todo botânico bem o sabe, estar atento à contaminação da árvore pela erva de passarinho, e assim que aquela seja detectada, deve-se retirá-la da árvore pelo bem de sua vida, e daqueles que dela dependem, dela retiram sua sobrevivência, sem necessariamente matá-la.
Será que com os indivíduos, os humanos ervas de passarinho, não deveriamos ter a mesma atitude? Ao identificá-los, não deveríamos neutralizá-los, isolá-los ou mesmo extirpá-los de nossas instituições da cultura, das organizações da civilização?!

      Isso nos remete a uma passagem na bíblia católica que se refere a essa atitude, quando se sugere que o joio e o trigo sejam identificados, separados e o joio queimado. Essa passagem bíblica sugere enfim que os humanos ervas de passarinho transitam há tempos pela humanidade! Parece que temos que conviver com eles, já que eles fazem parte de nossa trajetória, - talvez sejam até uma parte de nós mesmos!?, porém, e nisso pode estar a nobreza de nossa existência, o importante é estar sempre atentos e prontos para combatê-los em função de um bem muito maior, de um bem comum a todos.

      Em março de 2011...



Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

POLÍTICA E POLITICAGEM - A diferença que é suportada por princípios éticos

          Sobre o Canadá...

          É extremamente frustrante, constrangedor e até bem doloroso quando, acreditando na possibilidade de lisura do processo administrativo, vinculado a nobres ideais políticos, somos colocados frente-a-frente com nossa alma "naïf"... Mas talvez isso nem sempre ocorra pela falta de entendimento do processo, talvez sejamos pegos de surpresa, agredidos mesmo, pela formação que recebemos um dia de um grande Outro. Esquecemos então que o mundo que nos cerca é um lugar vazio de significados sem a nossa subjetividade. Esquecemos que esse mundo é habitado pelo bicho homem, o maior de todos os predadores que jamais existiu. É, talvez a educação, os princípios éticos que um grande Outro um dia nos transmitiu, que nos deixe cegos diante dessa realidade, e nos faça saborear uma certa estranheza diante de um espelho...

          Mas, há de fato uma grande diferença entre a Política - arte de influenciar os outros para a aceitação de propostas que visem um bem comum, e a Politicagem - arte de tirar vantagem de certas situações em detrimento de princípios éticos que deveriam sustentar um determinado agrupamento de humanos. Política é coisa séria, mas parece que são muito poucos os que a fazem, a grande maioria envereda pelos caminhos tortuosos da politicagem, da falta de ética, da sacanagem, do grande banquete predatório que nos remete à Horda Primitiva.

          Mas todos fazemos parte dessa garnde família de bases predatórias, apesar do que nos transmitiu aquele grande Outro, sempre estará latente em nós um rasgo do selvagem que um dia nos habitou...ou habita. E vem à mente do pensador a seguinte questão: Será que eles têm solução? Suas estruturas já estão formadas e nelas tão arraigadas a deformidade do caráter que, em benefício de todos, não seria o caso de emparedá-los?! Acho que assim pensando, deixa-se sair, por um lapso(?!) um pouco do selvagem que permanentemente habita as profundezas da alma... Então não, em consideração ao necessário processo civilizatório, aos ensinamentos daquele grande Outro que já não se encontra mais entre nós, é preciso batalhar por princípios éticos, pela lisura dos processos administrativos, pela ética na política, mas é preciso sim denunciar esta escória, estes seres que envergonham a raça humana civilizada, suas comunidades ideológicas - o socialismo, suas categorias funcionais, e que de um dia para o outro ousam chamar seus pares de Companheiro.

          Em janeiro de 2011, Ano Novo... Assim espera-se...



Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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