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quarta-feira, 18 de julho de 2018

MANIFESTO PÓS GOLPE


Povos da América Latina, do Caribe e do Mercosul, levantemo-nos!

Precisamos nos levantar, todos nós, povos espoliados e atacados em processos golpistas ou não, contra as investidas do capital internacional, ajudado pelas burguesias nacionais, subservientes e entreguistas, que o servem e o apoiam, que nos quer de joelhos a seu serviço. Desobedeçamos definitivamente a qualquer poder que não priorize o bem-estar do povo e a soberania nacional e regional.

A lição deixada pelos governos de esquerda e/ou centro esquerda que ascenderam nas últimas décadas na América Latina, alijados do poder em processos golpistas, como no caso de Honduras, Paraguay e Brasil, ou de manipulação de massas, como no caso da Argentina, Chile e Peru, e aqueles que ainda não cairam, mas podem cair a qualquer momento, é a de que temos direitos e podemos ter acesso a eles, e só não o conseguimos por que estes são negados ou roubados por uma burguesia maldita, criminosa e dependente, que do povo querem apenas o suor, a dor ou até mesmo a morte.

Façamos valer a frase atribuída ao Imperador Pedro I do Brasil, quando de sua "independência" de Portugal. Levantemo-nos contra a opressão, a miséria, a fome, a destruição dos direitos trabalhistas, da seguridade social (Previdência, Saúde e Assistência), da educação pública e do patrimônio público, e o jugo do sistema financeiro e do capital estrangeiro em nossas nações irmãs.

Não podemos permitir que destruam o MERCOSUL, a UNASUL, a UNILA, os BRICS e todos os mecanismos criados para nos fortalecer frente a sanha predatória voraz do capital internacional e do financismo, que pela globalização e o neoliberalismo, e como um cancro metastásico se espalha e destrói a todos nós. Lutemos pela União da América Latina e do Caribe, celeiro de espoliação desde sempre!

Liberdade e Democracia já!
Independência ou Morte!

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2018 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

CARTA ABERTA AO POVO BRASILEIRO


Cidadãos brasileiros,

Vivemos um momento muito difícil em nosso País, onde um governo que não foi eleito pelo povo, e que não agrada a maior parte da população, haja vista seus apenas 3% (três por cento) de aprovação, procura retirar todas as proteções do povo e dos trabalhadores, conquistadas ao longo dos últimos sessenta anos.

Neste sentido, é preciso vir a público denunciar e esclarecer a população acerca do momento pelo qual estamos passando. É preciso que tomemos consciência do que está acontecendo no Brasil, de tudo que estamos perdendo e que vamos perder com este governo, que não é dos trabalhadores e nem a favor do povo brasileiro.
O objetivo deste governo é acabar com a saúde pública, transferindo para os planos privados os recursos públicos e a gestão da saúde pública, que a partir de então não será mais pública mas privada, administrada pelos planos de saúde. Nesse sentido o governo se reuniu com a FEBRAPLAN, no último dia 10/04, em Brasília, com o objetivo claro de extinguir a saúde pública no nosso país.

Com o objetivo de acabar com a assistência aos mais necessitados, reduziu a verba da assistência social em 95% (noventa e cinco por cento), numa ação criminosa contra a maioria da população carente deste país. Concomitante a isso, dificulta mais e mais o acesso aos benefícios da assistência social, administrados pelo INSS.

Como ainda não conseguiu fazer passar a reforma da previdência social, o governo ilegítimo se utiliza de mecanismos internos, no INSS, para sufocar o sistema previdenciário social, e forçar a saída e a migração do segurado para sistemas privados de previdência.

Além do ataque aos pilares da seguridade, ou seja, a Assistência Social, a Saúde Pública e a Previdência Social, o governo perverso do senhor Michel Temer avança sobre outras áreas que beneficiam a população desprovidade de recursos, como a educação pública, desde o ensino fundamental até as Universidades, com o objetivo muito claro de também privatiza-las e dificultar o acesso da população.

Todas as ações implementadas por este governo, como a reforma trabalhista, que retira direitos do trabalhador, até as reformas do ensino público e da seguridade social, tem o objetivo de destruir o pouco que a classe trabalhadora conseguiu conquistar nos últimos anos. Além disso, o congelamento dos gastos públicos por 20 (vinte) anos tem a função estratégica de sufocar as instituições públicas, facilitando a sua destruição.

Não é hora de ficar "parado com a boca escancarada e esperando a morte chegar", é hora de lutar e confrontar este governo que é contra a população brasileira e inimigo de todos os trabalhadores honestos e lutadores deste país!

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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segunda-feira, 9 de julho de 2018

PERDER O MEDO...


...E ATACAR O INIMIGO.

Urge, em tempos tão sombrios, a perda total e absoluta do medo para o enfrentamento do opressor. Essa lição nos é dada por uma personagem do filme Narradores de Javé, que enfrenta os engenheiros de uma empreiteira que tem como objetivo inundar o povoado de Javé, transformado-o em um lago para uma usina hidroelétrica, sepultando assim sua história sob as águas do "progresso".

O caráter simplório e servil do povo brasileiro está muito bem retratado naqueles que, na cidade, tentam conter o único habitante que ousa enfrentar o algóz, exatamente por ter perdido o medo. E essa personagem perdeu o medo por ter experienciado a invasão, a agressão e a morte de seu genitor dentro da própria casa. E, não por coincidência, há algo de similar que nos une a Javé, e que se passa no Brasil de hoje.

As atrocidades que o Golpe de 2016 tem promovido no país, e a falta de resposta à altura do povo, nos dá a dimensão exata deste medo subserviente e servil que acomete toda a população. Os maiores absurdos contra o povo e a nação estão sendo cometidos sem que uma resposta mais contundente seja proferida contra os serviçais do capital internacional e da destruição do Brasil e dos brasileiros. A desconstrução do bem-estar social, com os ataques à saúde, à assistência, à previdência, e à educação públicas carecem de uma resposta dura por parte do povo que, sem essas políticas, perecerão na indigência, em uma sociedade cada vez mais desigual.

Concomitantemente à destruição do estado, que tem em sua arquitetura a estratégia do congelamento dos gastos por vinte anos, o patrimônio público e a soberania nacional são entregues ao capital internacional, com a desculpa mentirosa da incapacidade do estado de gerir o patrimônio público. Durante muito tempo foi assim! Maus brasileiros, que apostam na pouca capacidade de discernimento de alguns e na ingenuidade manipulada de uns tantos outros, usurpam o patrimônio do povo em troca de enriquecimento pessoal.

E esses arautos da miséria apostam no medo do povo, disseminando a ideia de uma nação ordeira e pacífica, em detrimento de uma realidade cada vez mais destrutiva e promotora de um fosso social inimaginável. E muito do patrimônio do povo e da nação já se foi nas águas do Golpe, como a Embraer, o Pré-sal, a Base de Alcântara, os Direitos Trabalhistas, o Ciências sem Fronteiras, o Orçamento Reajustado, o Controle dos Agrotóxicos, a Farmácia Popular, o Fundo Soberano e a própria Democracia.

Na verdade, somos um povo mantido a chicote desde sempre, que tem na autoridade opressora, e no poder altamente verticalizado, sua estrutura de dominação opressiva. A história do Brasil é uma história de opressão e imbecilização de sua gente. A experiência de mais de trezentos anos de escravidão, as diversas tentativas de controle da liberdade dos corpos indígenas que jamais assimilou a cultura invasora, os sucessivos golpes perpetrados pelo poder econômico e a perpetuação do status de colônia no imaginário, forjaram uma situação de apartheid entre a massa do povo e o estado, ou entre esse imagiário construído e a realidade. A falta de identificação com a própria nação e o medo desmedido são os maiores inimigos da liberadade e da própria existência.

A quadrilha que assumiu o país desde então (Golpe de 2016) desconstrói o país a cada nova cartada, a cada nova investida, protegida por um poder judiciário comprometido até a tampa com essa arquitetura da destruição. A maior prova desse envolvimento está tipificada nos últimos acontecimentos, manobras notadamente ilegais que, subvertendo a instituição do direito, expoem cada vez mais as víceras do conluio golpista.

Só a perda absoluta do medo, medo do pai-patrão, medo da autoridade despótica, medo da polícia repressiva e até mesmo o medo de deus, estruturas forjadas para o controle do corpo e da alma, poderia libertar o ser cidadão/brasileiro para sua autoafirmação e a libertação desse controle opressivo. O povo brasileiro carece dessa autoafirmação, desse empoderamento enquanto pessoa e cidadão, como o indivíduo dentro do processo analítico, para passar a ser agente de seu meio, na defesa de seu espaço e de seu território.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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sexta-feira, 3 de março de 2017

ILDEFONSO PEREIRA CORREIA...ou, O BARÃO DO SERRO AZUL

  

Um autêntico herói paranaense...e por que não dizer um herói curitibano...

Neste mês de fevereiro, mais precisamente no dia 09, a histórica cidade da Lapa, enraizada nos campos gerais das terras paranaenses, relembrou um famoso episódio que ficou conhecido como o Cerco da Lapa, durante a Revolução Federalista.

Esse fato histórico, ocorrido naquela localidade no ano de 1894, transfomou a cidade numa arena de sangrento confronto entre tropas republicanas, os então nominados Pica-paus, e os Maragatos, contrários à República. A Lapa resistiu bravamente até que os Lapeanos, comandados pelo General Ernesto Gomes Carneiro, caíram extenuados em combate. Resistiram ao cerco por 26 dias, mas sucumbiram frente ao poderio do exército republicano, em maior número.

Esse fato histórico nos remete também a um triste episódio, ocorrido no Planalto curitibano durante aquela Revolução Federalista, e que tem ao centro a brava figura do Barão do Cerro Azul. Nascido Ildefonso Pereira Correia, na cidade portuária de Paranaguá, Ildefonso foi um grande comerciante paranaense, maior produtor de erva mate do mundo, e maior exportador da erva no país. O envolvimento com as questões políticas tiveram início antes mesmo do menino Ildefonso se entender de gente, em seu nascimento, pois seu pai, por ter ter imprimido um manifesto solicitando a separação da comarca de Curitiba da província de São Paulo, perdeu todos os seus cargos públicos.

Assim, Ildefonso conviveu desde cedo com questões políticas, e com as lutas entre ideias antagônicas entre conservadorismo e liberalismo e escravatura e abolicionismo. Cursou Humanidades, na cidade imperial do Rio de Janeiro, o que, provavelmente, lhe deu uma visão mais humanista da condição e das questões envolvendo os seres humanos. Ao retornar da capital do império, envolveu-se com os negócios de erva-mate, visitou mercados importadores do cone sul, abriu seu primeiro negócio em sociedade e participou de exposição no mercado norte-americano, o que o levou a ser convidado a participar da política pelo partido conservador, tornando-se deputado provincial.

Com a construção da estrada da Graciosa, transferiu seus negócios para Curitiba. Na capital, adquiriu e modernizou engenhos, envolveu-se coma exportação de madeira, com a imprensa, com indústria de embalagens para a erva-mate, com o sistema financeiro e foi diretor da Sociedade Protetora de Ensino. Além de tudo tudo isso foi um dos fundadores da ACP – Associação Comercial do Paraná, da qual se tornou o primeiro presidente. Tornou-se assim, um dos vultos que mais produziu na política e na atividade empresarial em terras paranaenses.

Possuia a simpatia do imperador, e recebeu daquele a comenda da Imperial Ordem da Rosa, foi deputado provincial e assumiu interinamente o governo da província nos idos de 1888. O título de Barão adveio pelas mãos da princesa Isabel, enquanto regente do Brasil, provavelmente por ser um abolicionista convicto, e por ter, quando presidente da da Câmara Munipal de Curitiba, se comprometido publicamente com a emancipação dos escravos no município.

Com o advento da "Proclamação da Répública", um dos muitos golpes pelos quais passou a história dessa nação, foi convidado pelo então governador, Vicente Machado da Silva Lima, para a comissão organizadora do partido republicano. Porém a situação mudou repentinamente com a renúncia do alagoano golpista Deodoro da Fonseca e a ascensão de outro alagoano mão de ferro, Floriano Peixoto, que dissolveu o Congresso e convocou novas eleições. Células de resistência à República se formaram nos estados do sul, o que provocou reações do poder central, e tropas foram enviadas para controlar os revoltosos, dando início à Revolução Federalista.

Prevendo a eminente invasão pelos maragatos, que ameaçavam destruir a cidade de Curitiba, o Barão procurou o então governador da província, o Senhor Vicente Machado, que o tranquilizou, afirmando que a situação estava sob total controle, e que as tropas do governo garantiriam a segurança da cidade e de sua população.

Ao se aproximarem os maragatos da cidade, o senhor governador, juntamente com suas tropas abandonaram a cidade, deixando a população de Curitiba à própria sorte. Vendo-se obrigado a assumir o controle da situação, o Barão precisou negociar com as tropas resistentes, salvando assim a cidade de uma provável destruição.

Ao retornar à cidade, Vicente Machado determinou a prisão do Barão, juntamente com outros proeminentes políticos que negociaram com os maragatos, acusando-os de traição. Ao serem encaminhados para julgamento no Rio de Janeiro, os prisioneiros foram embarcados com destino a Paranaguá, onde deveriam tomar o vapor que os conduziria à capital do país.

Contudo, os prisioneiros, juntamente com o Barão, jamais chegariam à capital da recém proclamada República, ou mesmo ao porto da cidade costeira e portuária de Paranaguá. Ao adentrar a serra do mar, já no município de Morretes, km 65, o trem foi parado, e todos os prisioneiros foram desembarcados e sumariamente fuzilados. A situação era tão tensa e opressiva que o corpo do Barão foi resgatado às escondidas, e sepultado no meio da noite, sem nenhum alarde, em cova sem identificação, no Cemitério Municipal de Curitiba, não muito longe de sua residência, que hoje abriga o complexo cultural Solar do Barão.

O que nos sugere a história do Barão do Serro Azul é que nem todo burguês é mau, assim como nem todo proletário é bandido, como costuma julgar o imaginário popular, manipulado pelo poder econômico. Mas o poder, - Ah, o poder! - o poder, sem nenhum controle, é essencialmente criminoso!


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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quinta-feira, 28 de abril de 2016

PONTE PARA O INFERNO


No início dos anos 2000, em palestra proferida para servidores do INSS-Instituto Nacional do Seguro Social, no então Projeto NMG-Novo Modelo de Gestão, realizada na Associação dos Procuradores da Previdência Social, no DF, versei sobre a implantação do Projeto socioeconômico neoliberal e as perspectivas para o Estado de Bem-Estar Social, tendo em vista a vinculação clara desse projeto com as mudanças nas Políticas Públicas relacionadas à Seguridade Social, da qual faz parte o Seguro Social como política de Estado.

Naquela época, na efervescência das privatizações do então governo FHC, o que motivou a referida palestra foi a mudança significativa porque passava a Instituição em sua forma de administração, trazendo a lógica do gerenciamento privado para dentro da esfera pública. Segundo Bresser Pereira, uma mudança necessária para se evitar a privatização da Previdência Social à época.

A ascensão de um governo mais sensível à questão social frustrou, em certa medida, a implantação, no país, do projeto neoliberal na íntegra. Porém, por se tratar de um governo que se adaptou facilmente às exigências de setores mais à direita, favorecido pelo momento econômico propício, conseguiu promover um certo "entendimento" entre antagonismos históricos, favorecendo amplos setores da economia capitalista.

Por 12 anos, a política de inclusão de médio e longo prazos, com a instituição dos programas de bolsas e aquelas relacionadas ao acesso ao consumo de bens e serviços, propiciou uma ilusão de mudança inclusiva permanente no cenário nacional. Contudo, as recentes crises econômicas, com mudanças no cenário da economia global, e a possível miopia em relação às bases que sustentam a economia capitalista, e aqui se dá o direito ao princípio do contraditório a um governo dito de esquerda, apesar do evidente estlionato político por ele praticado em relação à direita, o arranjo humanitário passou a não ser mais aceito e tolerado por setores mais conservadores e sequiosos por lucro e poder, como o foi ao longo dos últimos anos.

A retomada da implantação do projeto neoliberal, tal como exposto na década de '90, está claramente explicitada no chamado Programa "Ponte para o Futuro", de um possível novo governo que venha a substituir o atual. Tal programa é a expressão exata da desconstrução do Estado de Bem-Estar Social, das políticas públicas e de amparo ao trabalhador, face à ganância e à sede voraz do sistema na apropriação do que Lacan chamou de Mais de Gozar do outro.

A tal ponte para o futuro que, em se vislumbrando a condição e o lugar do trabalhador no sistema, mas poderia ser chamada de ponte para o Hades – o inferno, do qual apenas Hércules, o semideus, conseguiu retornar, segundo a mitologia grega, ou Jesus, segundo as escrituras da religião católica apostólica romana, tendo em vista dar continuidade e sustentação à implantação do projeto socioeconômico neoliberal que, dentre outras ações previstas, estão a desregulamentação das leis do trabalho, que na prática é um ataque direto à CLT, e a reestruturação do Estado de Bem-Estar, por meio da redução da seguridade (saúde e previdência), e diminuição da máquina estatal, que na origem do projeto neoliberal passa a ser apenas uma célula de fomento legal do livre mercado. Na prática, está-se diante da conclusão do desmonte do Estado de Bem-Estar Social.

A proteção ao trabalhador e ao trabalho, nascida da crise capitalista no início do século XX, - e que ninguém se engane! - surgiu para proteção do capital e não do trabalhador, mas também expôs as fragilidades e a malevolência do sistema, e ensejou a necessidade de proteger o indivíduo da sanha de um sistema que, metonimicamente, reproduz o desejo de morte em relação ao outro da própria espécie. Desejo este que se traduz no campo econômico e social, pela necessidade de subtrair do outro, em forma de mais valia, o mais de gozo. Não podemos nos enganar que este sistema, enquanto forma sublimada, e sofisticada, de violência humana contra a própria espécie, não represente um avanço em relação às formas de apropriação violentas utilizadas por nossos ancestrais. Contudo, o seu descontrole pode nos custar muito caro, e já custa muito caro às massas de miseráveis espalhadas por toda a terra. Há importantes estudos nos campos da psicanálise, da sociologia e da antropologia que suportam essa tese. A obra dos antropólogos Richard Wrangham e Dale Peterson: O Macho Demoníaco - As origens da Agressividade Humana, faz uma análise interessante sobre algumas características comuns, relativas à violência contra a própria espécie, entre humanos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos na escala filogenética, assim como as conclusões de Hannah Arendt sobre a "banalidade do mal", que além de por em nivelamento dois lados de um imenso confronto, nos faz pensar na relação perversa que sustenta, para além das aparências, a relação humana dentro dos mesmos grupos.

As recentes manifestações contra as mudanças na Lei do Trabalho, na França, sua perigosa abertura para negociação entre patrões e empregados sobre flexibilização da jornada de trabalho, sem a intervenção do estado, as crises econômicas em países europeus, com propostas de arrochos fiscais perversos por parte do bloco, a crescente migração humana dos conflitos nos países árabes, frutos de intervenções imperialistas de países do ocidente, e os golpes promovidos na América Latina, Honduras, Paraguay e a tentativa no Brasil, denotam a sanha do capital para se expandir e se consolidar hegemonicamente no mundo. Tal expansão foi favorecida após a desestruturação, arquitetada interna e externamente, para o bloco soviético que, de alguma forma, barrava o avanço do capital no mundo e sustentava, em uma certa medida, a manutenção dos Estados Nacionais de Bem-Estar Social.

O avanço do projeto econômico neoliberal, em todo o mundo, nos coloca frenta a frente com uma crise humana sem precedentes, até porque a população da terra tem crescido assustadoramente, e o aumento do fosso entre os muito ricos e os miseráveis, é um prenúncio de grandes, crescentes e recorrentes conflitos, de massacres de proporções épicas, com o aumento da fome e da exclusão, ou de um desastre de proporções ainda maiores. Recentemente, pelas bandas de cá, uma declaração assustadora de um membro da FIESP, de que o empregado poderia apertar um parafuso com uma mão e comer um sanduiche com a outra, e assim não precisaria de horário de almoço, dá a medida exata dessa nova relação entre capital e trabalho que se busca.

No Brasil, em suma, o que significa a retomada sem freios do projeto neoliberal? Significa a destruição gradativa de todas as conquistas sociais, implementadas no país, a partir da década de 30 do século passado. Independentemente da administração pífia e comprometida com o grande capital, a saída do governo atual escancara, definitivamente, as portas para a passagem, no Brasil, de um Estado de Direitos Sociais para um Estado de Direita absoluto, comprometido apenas com o Deus Mercado.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
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domingo, 12 de abril de 2015

ENDOMARKETING E EMPREENDEDORISMO NAS ORGANIZAÇÕES DA MODERNIDADE


Grandes transformações vêm acontecendo em um ritmo arrebatador, em nosso cenário global, desde os primeiros momentos do fenômeno conhecido como Revolução Industrial. A chamada Revolução Industrial colocou a pedra fundamental na passagem da produção artesanal e da manufatura, para a produção em série e industrializada. Com todas as mudanças que a globalização nos tem trazido, e esta também remontando às grandes navegações e à expansão dos mercados da época, dentre as mais impactantes e essenciais ao mercado de trabalho, apresenta-se a necessidade de se ter uma comunicação eficaz, facilitada nos dias atuais pelo desenvolvimento tecnológico, haja vista a necessidade de se tê-la como uma forma de vantagem competitiva.  

O endomarketing e o intraempreendedorismo, tradicionalmente e resumidamente explicados como conceitos do marketing organizacional e pessoal, respectivamente, ora são utilizados nas grandes empresas como aliados de mecanismos e práticas da moderna administração. Estes fenômenos se propõem a agregar valor e conhecimento de forma estratégica ao processo administrativo, a fim de alavancar os processos e relações de e com o trabalho, e assim, fazer com que os mesmos não se tornem obsoletos.
As constantes mudanças econômicas e tecnológicas, pelas quais passamos desde a virada do século passado para o início deste, demandam modificações nas relações humanas com o trabalho. Tais eventos têm suas raízes modernas em meados do século XX, quando o sistema econômico passou por enormes modificações, sobretudo após a crise econômica de ’29, com a inclusão de um olhar para o fator humano na engrenagem da produção econômica. Mas, se assim o quiséssemos, poderíamos remontar, para o entendimento dos eventos atuais, há tempos imemoriais da história da humanidade, desde o advento da propriedade e das culturas agrícolas e pecuárias, quando o animal homem se fixou em um determinado sítio, cercando-o e iniciando um processo produtivo.
As estruturas econômicas e sociais tem se movimentado numa dinâmica de avanços e retrocessos constantes, mas que indicam uma enorme inquietação na busca de ajustes nas relações do homem em sociedade e daquele com o trabalho e a produção econômica. Mas, foi a partir do século XX que alguns profissionais das ciências humanas desenvolveram teorias e abordagens, na tentativa de explicar e avaliar as relações desse homem com o trabalho, e assim buscar soluções para as dificuldades advindas dessa relação. Foi a partir de uma melhor compreensão da importância do fator humano para o sucesso dos empreendimentos, que chegamos ao momento atual de desenvolvimento da ciência da administração.
O momento atual é o momento da gestão por competências, da busca de resultados e do envolvimento do indivíduo com o seu objeto de trabalho. É nesse sentido que antigos conceitos são revisitados e outros novos são criados para dar conta de nossa modernidade administrativa e empresarial.
Dois conceitos importantes surgem aqui para exemplificarmos a relação de importância que se dá, na atualidade, ao elemento humano, para o sucesso de qualquer empreendimento: Endomarketing e Empreendedorismo.
Um dos fatores mais importantes e que alavancaram o desenvolvimento humano através dos tempos foi, sem sombra de dúvidas, a comunicação. A comunicação humana permitiu as trocas e o desenvolvimento das relações econômicas e políticas que movem a humanidade e a civilização há tempos. E, na atualidade, não podemos deixar de ver que o desenvolvimento tecnológico é o próprio desenvolvimento dos meios e formas de comunicação, que encurtam distâncias e aumentam a produção e os controles sobre a vida humana.
A comunicação é, portanto, elemento essencial ao desenvolvimento de relações equilibradas entre os agentes profissionais e o negócio do empreendimento no qual estão inseridos. Nesse sentido, vamos buscar entender o primeiro conceito, o Endomarketing, que “é uma área diretamente ligada à de comunicação interna, que alia técnicas de marketing a conceitos de recursos humanos.”.
          “O endomarketing surge como elemento de ligação entre o cliente, o produto e o empregado”, e se apresenta como o esforço da organização no sentido de construir uma relação de objeto de desejo entre esses três elementos, pois se entende que a partir do momento em que se estabelece essa relação, uma profunda fluidez ocorrerá na cadeia de produção: produtor x produto x consumidor.


          Nesse sentido a gestão da comunicação assume papel “sine qua non” para o sucesso dessa empreitada e, “é preciso haver objetividade e clareza na comunicação com clientes internos e externos, a começar pela imprensa, passando pela comunidade, clientes, demais parceiros da cadeia produtiva e da própria organização empresarial, principalmente funcionários. ” São os funcionários o maior ativo que uma empresa pode possuir, pois estes são as peças elementares que movimentam a engrenagem empresarial.


 Contudo, é de extrema importância que o processo educacional corporativo, inserido no processo de gestão da comunicação se mobilize no sentido de proporcionar o desenvolvimento dessa relação afetiva, e poder-se-ia dizer até libidinosa, com o objeto de trabalho. Enfim, “o endomarketing existe para atrair e reter seu primeiro cliente: o cliente interno, obtendo significativos resultados para as empresas e, também, atraindo e retendo clientes externos. Funcionários insatisfeitos com as condições de trabalho e com os próprios produtos lançados irão fazer uma contrapropaganda cada vez que multiplicam fora da empresa a sensação de descontentamento que os dominam.”

Nesse sentido, “o endomarketing é um elemento indispensável para o sucesso de qualquer empresa. A confiança do público, tanto o interno como o externo, é uma consequência do endomarketing.” Uma relação de confiança entre os agentes envolvidos na produção e consumo é condição de sucesso para qualquer empreendimento, e a confiança só se dá a partir do conhecimento e do apego que dele advêm.
No contexto das mudanças de nossa atualidade administrativa, ao lado da necessidade de desenvolver uma relação libidinal entre o trabalhador e seu objeto de trabalho, surge a necessidade de torná-lo autônomo, para que possa empreender novas perspectivas empresarias, visto aqui ‘o empreendedorismo como uma atitude, uma postura perante a vida, um estado de espírito que nos motiva e impulsiona para sonhar e agir, para sermos agentes de mudança e transformação”, um agente de transformação no campo profissional. Aqui, diferentemente do entendimento do senso comum, onde o empreendedorismo está voltado ao lançamento de ações empresarias, visualiza-se a mesma ação como capacidade do profissional atuar no meio, de forma proativa e independente, produzindo as soluções que o sistema venha a exigir.
Assim, aliado ao conceito do Endomarketing, a necessidade de compor equipes de colaborados autogeridos e autodirecionados aos resultados do negócio, verdadeiros empreendedores internos à organização, completa a estratégia corporativa para se adequar aos apelos da modernidade do pensamento administrativo. Nesse sentido, nos últimos tempos, no mundo dos negócios e empreendimentos, “passou-se à busca do desenvolvimento de perfis profissionais polivalentes, flexíveis, baseados em habilidades cognitivas e posturas estratégicas, capazes de acompanhar a velocidade das mudanças e de se antecipar à obsolescência do conhecimento”, com o objetivo de produzir trabalhadores empreendedores, voltados ao alcance das metas organizacionais e ao desenvolvimento das empresas às quais pertencem. A esse empreendedor interno, denomina-se de intraempreendedor, e sua ação se funda ao desenvolvimento de uma autonomia para atuação no meio, dominando-o e transformando-o. “Qualquer pessoa - desde que se oriente pela ação e por resultados; que perceba o mundo como um imenso e inesgotável espaço de possibilidades; que tenha visões; imaginação e que, ao longo de sua existência, construa um histórico de realizações - pode ser considerada um empreendedor.”
Há algumas características comportamentais importantes que designam os empreendedores e intraempreendedores, são elas: Aceitação do risco; Autoconfiança; Motivação; Controle e influência; Tomada de Decisão e responsabilidade; Energia; Iniciativa; Otimismo; Persistência; Sem temor do fracasso e da rejeição e Trabalho em Equipe. Esses comportamentos e habilidades indicam uma personalidade empreendedora ou intraempreendedora, e o estímulo aos mesmos, juntamente com a gestão do conhecimento na organização, colabora ao desenvolvimento da autonomia e ao desenvolvimento da capacidade produtiva do indivíduo. O conceito de intraempreendedorismo confunde-se, em certo sentido, com o conceito de competências do indivíduo que, em poucas palavras, é a mobilização de conhecimentos, habilidades e atitudes para a geração de um resultado, e este com foco em resultados úteis para a sociedade.
Pensando-se em competências e seu desenvolvimento, o processo de Educação Corporativa pode e precisa tornar-se o elemento motor para a estruturação de um processo contínuo e eficaz de desenvolvimento profissional, apoiando os processos de endomarketing e intraempreendedorismo.
As dificuldades, por vezes encontrada nesse caminho, não devem desviar do foco ou deixar desesperançosos os profissionais dessa área. As dificuldades fazem parte de um processo de ajuste e de crescimento, de aperfeiçoamento, enfim de evolução. Não se conseguiu, na maioria das vezes, convencer a certos segmentos corporativos da necessidade de tornar a educação corporativa, de fato, uma prioridade e o motor desse processo.
Há muito o que se fazer na estruturação de uma verdadeira educação corporativa para a administração de muitas empresas, e essa estruturação passa necessariamente por respostas a questões que demandam continuamente respostas. O que realmente se define como educação corporativa para as diversas corporações (privadas ou públicas)? Qual o real papel de profissionais de educação na estrutura administrativa dessas Empresas e Instituições? O que fazem? Como fazem? Quando fazem? Por que fazem? Onde querem chegar? Há de fato profissionais da área de educação a serviço da educação corporativa? As corporações e instituições entendem realmente o papel desse profissional em meio à busca frenética pelo atingimento de metas e resultados que precisa e deve alcançar? O que se pode, e se deve fazer para mudar certas realidades na educação corporativa?
Como proceder a identificação do importante papel da educação corporativa nas corporações? O cerne dessa questão está na origem, por exemplo, dos processos de endomarketing e intraempreendedorismo, nos processos de comunicação organizacional e na gestão por competências, cujos pressupostos são basicamente educacionais.
Um outro ponto, de extrema importância, nesse contexto de educação corporativa para, é a questão do mérito. Não há como desenvolver carreiras, e profissionais gabaritados, sem levar em consideração e incorporar o mérito. O Mérito está intrinsecamente ligado à perspectiva de crescimento profissional e, consequentemente, com o desejo do indivíduo em mobilizar energia para seu próprio crescimento. Torna-se assim dicotômico o discurso de promoção do desenvolvimento profissional e da qualidade de vida no trabalho, hoje em voga na administração pública, por exemplo, sem, contudo, levar em consideração essa questão do mérito. Não há, portanto, como falar em intraempreendedorismo, gestão por competências, perfis competentes e profissionais gabaritados subtraindo a questão do mérito.
A gestão por competências, o endomarketing e o intraempreendedorismo mudam completamente a noção da gestão das pessoas e da noção de educação corporativa nas corporações/instituições. Essa mudança se conecta com as novas perspectivas do lugar dos indivíduos na relação capital/trabalho. Mas, será que isso foi realmente bem compreendido pelas empresas e instituições? Por todos os lados, em diversas Instituições, sobretudo no setor público, há um movimento bascular para a efetivação e implantação da gestão por competências.
Pois bem, há bastante trabalho a ser desenvolvido ainda em educação corporativa, em qualquer esfera de administração empresarial e/ou institucional, e antes que qualquer novo modismo possa surgir no horizonte administrativo, há muito o que pensar, o que refletir e, sobretudo, o que definir, para que de fato possa-se acolher essas novas perspectivas de gerir pessoas. Pensar nessa questão é, principalmente, decidir que tipo de profissionais se quer no seio das corporações e instituições, e assim, que tipo de marca se quer deixar na e para a sociedade. O endomarketing e o intraempreendedorismo é, em sua concepção, um processo de libertação para o agir, e a área de educação corporativa é o fenômeno que proporcionará essa liberdade.
Este fenômeno de libertação é um fenômeno natural ao desenvolvimento humano que, em princípio, vive a heteronomia, entendida como dependência absoluta do outro, natural do mundo infantil, precisa ser levado assumir sua autonomia, característica do mundo adulto, e a responsabilidade por seus atos e ações. Portanto, para empreender em suas ações pela vida, o humano precisa libertar-se do jugo do outro e assumir suas responsabilidades de forma autônoma e consciente. Dessa forma, o “empreendedorismo tem a ver com o fenômeno humano e se traduz na maneira de estar e agir no mundo. E o intraempreendedorismo é a aplicação do empreendedorismo dentro de uma organização.” Pensando-se no desenvolvimento da personalidade humana, e sua trajetória na busca de libertação e autonomia, visualiza-se toda a dificuldade que o meio impõe a essa libertação, e, neste contexto, percebe-se o quanto é salutar encontrar no meio administrativo, o forjamento de condições culturais com fins libertários.  “Um grande pensador e empreendedor contemporâneo, Fernando Flores (1995), diz que o ser humano alcança sua plenitude não na sua reflexão abstrata, mas quando atua se envolvendo com a mudança, inovando-a no cotidiano e principalmente quando se torna conscientemente o protagonista da sua história.”.
Neste sentido, pensando-se na modernidade administrativa do nosso tempo, “o intraempreendedorismo e o endomarketing são características de empresas que estimulam e incentivam as atitudes empreendedoras de seus profissionais”, e assim constroem parceiros no mercado e para o mercado das relações de produção. Essa nova visão administrativa estabelece novas relações de trabalho e, na prática, transforma trabalhadores em parceiros de empreendimentos econômicos.
Podemos concluir que existe uma relação direta entre a estrutura corporativa e a estrutura humana, ambas vislumbram a busca incessante por novos patamares de satisfação, seja através do lucro, seja através de satisfação pessoal, no caso dos indivíduos.
Na da mais salutar para a saúde das organizações, passar a compreender as necessidades dos colaboradores e, a partir disso, comporem com aqueles uma parceria para o batimento consonante de metas organizacionais e individuais.
Utilizar o Endomarketing e o Intraempreendedorismo nesse processo, assim como a gestão das pessoas com base em competências, possibilita não só uma tentativa de eliminação de obstáculos ao crescimento da corporação, mas também são elementos de libertação e crescimento importantes para aqueles que as fazem.
Nesse sentido, a área de educação, nas corporações, desponta como ferramenta estratégica importantíssima da gestão organizacional e empresarial, e o reconhecimento da importância do manuseio adequado de um processo natural que nos fez a todos humanos, a linguagem.

Esse processo de mudança que, como dissemos no início deste artigo, iniciou-se e confunde-se com o desenvolvimento da civilização humana, não tende a estagnar. Novas formas de pensar a administração advirão da experiência e do conhecimento, enfim da educação, como ferramenta elementar no processo de comunicação humana.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

LIDERANÇA & MOTIVAÇÃO





Há um erro clássico, e que ainda persiste em Instituições Públicas, quando o assunto é motivação de colaboradores, que são os ainda chamados por alguns de “treinamentos motivacionais ou comportamentais”. Mas, por que é um erro clássico? Porque durante muito tempo se insistiu em motivar as pessoas por meio desses eventos. Em certa medida, buscava-se um despertar motivacional, sem para isso averiguar as bases estruturais da própria organização, necessárias a esse despertar, assim como as bases estruturais dessas pessoas para de fato se motivarem.

Ora, o processo de motivação é um processo intrínseco, ou seja, que é inerente ao ser. Ele depende de elaborações mentais próprias do indivíduo e não pode ser plantado a partir do exterior, no indivíduo adulto. Mas então, o que se pode fazer? Podem-se controlar as varáveis externas, que possibilitem essa manifestação motivacional, que é inerente ao desejo do indivíduo, e partir disso produza seus efeitos no meio.

Ao analisarmos a abordagem da hierarquia das necessidades de Maslow, que foi explicitada didaticamente pelo autor, é possível verificar o quanto o ambiente precisa produzir em termos de condições (fisiológicas, segurança e pertencimento) para que surjam as possibilidades motivacionais superiores, ligadas a uma realização do indivíduo. Isso fica bem claro na continuidade da abordagem elaborada por Herzberg, quando divide as necessidades em estímulos higiênicos e estímulos motivadores.

Então, durante muito tempo tentou-se, na melhor das hipóteses, despertar algo nos servidores públicos, em detrimento das condições necessárias para esse despertar. Quanto a isso, certa feita, em um curso de especialização, ouviu-se de um Mestre/doutor em abordagem psicanalítica a seguinte colocação: “Enquanto instrumento de saúde mental, a psicanálise é um instrumento que não se presta para qualquer dor, e também é um instrumento elitizado sim, e há uma razão social para isso. As pessoas comuns, as pessoas do povo, estão às voltas com necessidades básicas, e não têm tempo ou disponibilidade para as necessidades da alma!” A partir disso, pode-se entender o quanto é necessário resolver questões básicas e fundamentais para, posteriormente, poder se pensar em autorrealização. Isso também nos remete ao flagelo da educação pública, pois não é à toa que as faltas básicas dos meninos e meninas do povo tanto interferem, e de diversas formas, no processo educacional, provocando esse cenário fictício, no qual se tornou a formação educacional pública em nosso país.

Mas, enfim, voltando ao tema da motivação dos servidores públicos, o que pode contribuir para uma autorrealização? Inicialmente, é preciso satisfazer essas necessidades básicas que, se pensarmos em termos das relações perversas que campeam nossas instituições públicas, já se tem um grande problema a ser resolvido. Outra questão é a necessidade de despertar nos servidores o entendimento da importância de seu trabalho, público, e vincular seus desejos a este objeto, a questão do bem-estar social. Em outras palavras é preciso analisar e trabalhar com perfis adequados. E isso é condição sine qua non para a motivação para o trabalho.

O que é possível fazer? Hoje, a gestão por competências (Decreto 5.707/2006) é uma luz, e que pode contribuir para a construção de uma carreira profissional para os servidores. Alguns setores da administração pública já avançaram bastante, sobretudo no campo da gestão tecnológica, e nesse sentido o futuro promete, mas a estrutura de poder, da forma como se apresenta, não está preparada para motivar ou liderar pessoas, transformando esses servidores em profissionais da coisa pública. Isso, em se tratando das formas mais, por assim dizer, progressistas de gestão e gerenciamento, extremamente difundidas no meio, e em muitos casos, não devidamente adaptadas.

Esse despreparo para a gestão das pessoas, pode estar relacionado a uma dificuldade pessoal de se relacionar, ao exercer uma posição de mando, ou mesmo de burilamento no entendimento da questão humana. Certa vez, um determinado gestor perguntou a um educador da área de gestão de pessoas qual seria o segredo para gerir uma equipe. Quis saber ainda quem, de fato, teria a responsabilidade sobre o sucesso da mesma. Uma pergunta complicada? Talvez não. Pensemos em uma orquestra, onde todos tem competência em suas singularidades, mas precisam seguir a batuta do maestro, que dita ritmo e o andamento. Ora, quem dita ritmo e o andamento é sempre o maestro, diante da diversidade de instrumentos à sua frente. Mas, por que isso? Não é porque aquela diversidade o vê como Manda-Chuva, mas porque ele é o líder, ele tem a competência para tal, demonstrada em sua batuta, e por isso é respeitado e seguido. Todos, então, participam harmonicamente, seguindo o líder que se faz respeitar como tal, para que possamos nos maravilhar com o resultado daquele trabalho, um produto de qualidade para encantar nossos ouvidos.

Então, o grupo é e sempre será uma diversidade que pode ser transformada em uma equipe, e ao líder cabe ditar o seu ritmo e o andamento, com seu exemplo, seu estímulo e a observação de suas necessidades e movimentos. Não há como escapar disso, isso está inscrito na estruturação psíquica do indivíduo. Como fazer isso? Como fazer uma gestão estratégica de pessoas adequada, onde as pessoas sejam respeitadas, vistas fenômenos da motivação, e se tenha desejo por desenvolvê-las para o trabalho. Para fazer isso, não é só querer, é preciso ser.

Observações realizadas na conduta de alguns gestores sugerem certas distorções em relação ao exercício dessa função administrativa. Atitudes incompatíveis com as funções exercidas requerem uma análise mais apurada da situação, havendo diversas questões a considerar, inclusive em relação à própria motivação desses pretensos gestores, para agirem como tal.

Distorções em relação à conduta do gestor pode gerar, numa equipe de trabalho, um desconforto em relação à autoridade dentro de uma Unidade de trabalho. O gestor precisa se conscientizar de que seu trabalho é de gestão, e não apenas de processos, mas também de pessoas. Para tanto, é preciso usar as ferramentas necessárias e disponíveis para isso. Um gestor precisa se reconhecer como tal, e isso implica em reconhecer o próprio perfil e sua motivação.  Caso perfil e motivação estejam mais vinculados a um fazer operacional, o gestor precisa pensar nas possibilidades de desenvolver habilidades e atitudes compatíveis, caso contrário tenderá a agir sempre como um líder autoritário ou como um líder “laisser-faire”. Ambas as situações, que podem compor um perfil, de acordo com a demanda e a necessidade, quando se tornam em característica dominante, certamente, influenciará negativamente a motivação.

        Ao gestor de pessoas reserva-se a incumbência de ser um desenvolvedor de pessoas, um “coaching” para usar um termo da modernidade administrativa. Analisemos um caso real de Planejamento de Gestão de Equipe, para exemplificar essa necessidade do gestor construir estratégias de desenvolvimento para as pessoas.


Planejamento de Gestão de Equipe

Um dos elementos mais importantes para a construção de uma equipe de trabalho é, sem nenhuma sombra de dúvidas, a análise e o desenvolvimento do perfil profissional de seus componentes. Deve-se levar em consideração, nesse desenvolvimento, a construção de uma identidade e de uma relação de objeto com a missão e os valores da equipe.

Na construção da identidade profissional do servidor é necessário ao gestor, atuar como educador e facilitador do processo de aprendizagem e crescimento dos componentes de sua equipe. Tal aprendizado, em se tratando de um processo educacional envolve muito mais elementos do que o aprendizado e o treinamento relacionado unicamente aos processos de trabalho.

Portanto, no planejamento de gestão de uma equipe de trabalho é necessário, como passo inicial, envolver os componentes da equipe na construção de sua missão e de seus valores. Evidentemente, tal construção passa pelo entendimento dos objetivos e da função que a organização pública exerce para a sociedade. Esse primeiro passo dará o suporte necessário e possibilitará a construção dessa identidade profissional, vinculado-a por identificação à missão da organização. E isso é apenas uma possibilidade.

Um próximo passo, e também de importância vital, é o envolvimento da equipe na construção de seus fluxos e rotinas de processos de trabalho, para familiarização com uma metodologia de gestão de processos. A importância desse momento, além de organizar os fluxos e as rotinas de trabalho, é o desenvolvimento da percepção e da visão de processo, desde sua entrada até sua saída enquanto produto. E assim, os servidores poderão perceber a importância de seu próprio trabalho e a relação sinérgica necessária à equipe na realização de um ato social e de cidadania.

O passo seguinte nessa construção, e neste momento já se pensando em posicionamentos adequados de seus componentes, é a recolocação dessas identidades de acordo com suas aptidões e habilidades. Para tanto, é necessário um conhecimento mais apurado dos diversos perfis que compõem a equipe de trabalho, e o ajuste necessário ao ambiente, e que facilitará os fluxos e as rotinas dos processos.

Assim, concomitantemente ao desenvolvimento dos componentes da equipe, é necessário interferir no meio. Como este é um processo dinâmico, não se pode atribuir a esta ação uma hierarquia, em relação aos passos acima referidos. É preciso adequar o ambiente com vistas a facilitar o fluxo dos processos, seguindo a lógica da gestão de processos, ou seja, o ambiente deve refletir a entrada, o tramitar e a saída do produto.

É preciso ainda construir ferramenta de gestão para esses processos de trabalho. Tal ferramenta deve propiciar: a transparência, a análise das variáveis de interferência, as ações realizadas e realizáveis, relatórios para análise, e assim como a participação integrada de toda a equipe. Em suma, uma ferramenta possibilitará a gestão dos processos e a gestão participativa em uma Unidade de trabalho.

Na implantação de um plano de gestão é preciso levar em consideração a cultura, o comportamento e o clima organizacionais. Um planejamento de gestão de pessoas, que leve em consideração os fatores citados, além das características necessárias à liderança e à motivação das pessoas, tende a possibilitar bons resultados. Contudo, variáveis humanas, ou seja, características de personalidade podem ser fatores de extremo impacto e precisam, sempre que possível, ser controlados. E isso, infelizmente, não se dá apenas pela vontade, mas pela implantação de uma estrutura que possibilite tal controle.

Este texto faz referências aos psicólogos Abraham Maslow (1987) e Frederick Herzberg (1975).



Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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