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terça-feira, 30 de julho de 2024

Da BANALIDADE DO MAL entre nós II

 


Em um dado momento no tempo, de um dia, um ano e um século carregado de pós-modernidade, reuniram-se pessoas e seres “enigmáticos” para discutir pontos divergentes e oportunidades de melhoria para um suposto grupo coralista. Deste momento participaram diversos atores do mundo da música.

Nesse momento, tratou-se de coisas importantes para vida da música entre nós. Tratou-se então da possibilidade de aulas de canto para quem quisesse aprimorar sua performance, numa perspectiva desenvolvimentista clara, e para aqueles que apresentassem mais dificuldades, evidentemente definidos pelo saber de um mestre; tratou-se da possibilidade de apresentações em diversos e possíveis eventos, o que implicaria em uma maior observância de questões relativas à responsabilidade, tais como pontualidade, assiduidade, seriedade, e isso parece o óbvio. Outros assuntos, menos importantes para esta análise também foram tratados, como a possibilidade de aulas de instrum,ento musical para quem tivesse esse interesse; Também a possibilidade de respeito ao estatuto vigente, sobre a eleição de dav coordenação do grupo, o que também implicaria na possibilidade de conclusão de um novo Estatuto, cuja construção havia sido iniciada há meses.

A proposição desses elemntos de discussão foi longamente tratada, anteriormente, para, segundo uma das participantes: “alinhamento de discurso”, o que pressupõe, certamente, um embate político entre grupos. Mas será?! Por conta disso, é de causar espanto declarações, durante o encontro, sobre divergências internas dentro da Instituição promotora, além de um pedido de desculpas para que os membros do grupo musical, ali presentes, não pensassem que se queria, com as propostas apresentadas, ser o “dono do Coral”. Um discurso muito estranho e esquisito, tendo em vista a insistência no alinhamento de discursos anterior ao encontro, e declarações anteriores sobre quem, de fato, promove aquele grupo musical.

Os assuntos tratados nesse encontro foram atravessados por duas questões principais: o descompromisso/dificuldades de alguns participantes e a criação de um “subgrupo suposto saber” dentro daquele grupo musical, criando claramente um “apartheid” absurdo na estrutura do mesmo, o que vai totalmente contra a ideia desenvolvimentista anteriormente proposta, e reforçando uma ode ao descompromisso para alguns que, claramente, servem a propósitos obscuros, sejam políticos ou de gozo mórbido, com clara vinculação a uma estrutura perversa, e à pulsão de morte, em seu estado quase puro.

Sim, eu, que ora produzo este texto e esta avaliação, naquele encontro satânico, fiquei boa parte do tempo calado, observando e ouvindo todas as manobras para não se chegar ao cerne das questões, ou seja, a lugar algum em relação às questões principais e relevantes, uma espécie de “detournement du sujet”, até quando me foi cobrada uma fala. Ora, uma fala de quem tenta ver além da manobra, do senso comum, do escárnio da morte...do outro, evidentemente. Mas, infelizmente, eu não poderia navegar ali de braços dados com o Real, o Imaginário e o Simbólico, então usei o reforço da proposta educacional e tentei desmontar uma armadilha criada no seio daquele momento. Eu comecei dizendo que minha sugestão, que estava na pauta da discussão, era a criação de um grupo para aprendizado de canto e técnicas vocais, onde aqueles que sentissem maiores dificuldades pudessem melhorar suas performances, treinando fora do horário de ensaio daquele grupo cantante, evidentemente. Devo dizer que minha fala foi tumultuada por uma falação paralela inimaginável, num total e absoluto desrespeito à proposta e a mim.

Questionei então... de onde surgiu esse discurso de que se queria que aqueles cantantes amadores fossem profissionais do canto? pois em momento algum isso foi falado por mim, ou por quem quer que seja, embora tenha, de fato, sido dito que foram profissionais que avaliaram mal a performance do grupo. Uma fala extremamente infeliz de avaliação de uma apresentação de Dia das Mães, onde foi usado o termo totalmente fora de contexto. Então, alguém respondeu que isso surgiu por minha culpa, pelas críticas que foram feitas por mim (forma e conteúdo) sobre a tal apresentação de dia das mães, e que, apesar de quatro pronunciamentos desfavoráveis, inclusive o do mestre, apenas o meu pronunciamento parece ter gerado certa “revolta” por, supostamente, ter sido mais contundente e pretensioso (isso dito nas entrelinhas). E assim, eu virei um bode...are, satanás! Vade retro!

Oriundo da área de educação, inclusive devo dizer aqui que a psicanálise pode ser considerada como tal, pois o que produz a clínica nada mais é que um processo de aprendizagem, aprendizagem de si, e aprendizagem das relações com o meio. Acredito que nesse processo, e que se refere à própria relação humana, há momentos de elogiar e de criticar, evidentemente em um processo dialógico necessário, para citar o mestre Paulo Freire. Não acredito absolutamente na divisão criada, e essa é mais uma que lembramos aqui, sabe-se lá por qual espírito de porco, entre “críticas construtivas e críticas destrutivas”. Críticas são críticas, são sempre válidas, sejam elas da forma que forem, a não ser que sejam ataques, mas, e isso é o mais importante, críticas demandam reflexão e não melindres. Só não reflete sobre críticas quem tem alguma dificuldade psíquica de encarar o espelho, de se ver cara-a-cara. E nesse aspecto o casamento entre “o estilo “laissez-faire” e a ilusão da mentira”, do cego que se acerca do mito e vai, é perfeito.

Então, como essa pessoa oriunda da área de educação, tendo como norte a educação libertadora, em momento algum, e aqui abro espaço para pedir desculpas a quem “desavisadamente” se sentiu ofendido com minhas ações e falas, jamais busquei denegrir ou diminuir quem quer que seja, e sempre tive como norte o desenvolvimento humano, e o estímulo à manutenção da vida, em qualquer idade, o que significa manter aceso o desejo de saber. Esse é o cerne de minha formação profissional.

Mas há indivíduos que não pensam e não agem assim, que são movidos por suas próprias questões psicológicas. Que precisam manter alguns zumbis, seres semimortos como aqueles zumbis da seita Vodu, do Tahiti, para seu próprio gozo mórbido. Esse é o casamento perfeito entre o, supostamente, não querer aprender, não querer se desenvolver e esperar a morte, e o propiciar o gozo mórbido para uma estrutura perversa. Nesse ponto, e isso está claro para mim, me vejo isolado, já que voz dissonante e sem apoio de ninguém, - pelo menos ninguém que se pronuncie, que ouse! -, um ponto fora da curva, tacitamente convidado, diversas vezes, a me adaptar ou me adaptar...quem sabe até sair, …talvez. Nesse sentido, tenho a declarar que jamais me adaptarei à morte, antes dela mesma acontecer...e se acercar inexoravelmente de mim...sempre preferirei sair.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2024 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

segunda-feira, 29 de julho de 2024

O ESCROTO BANQUETE DO PRECONCEITO E DA IGNORÂNCIA

 

Por ocasião da abertura das Olimpíadas de Paris 2024, mais uma polêmica envolvendo a comunidade LGBTQIAP+ e etc. está em voga. Parece que não se dá mesmo sossego àqueles ou àquelas que querem fazer de suas vidas o que bem entenderem, que querem usar seus corpos da forma que mais lhes aprouver, que querem sentir em seus cus, suas bucetas, suas rolas e suas bocas as sensações que a vida lhes ensinou a descobrir. Sim, porque é uma descoberta, que passa pelo desenvolvimento da sexualidade e da libido e que, no final das contas, torna a vida humana tão diversa, atrativa e divertida. Mas há as comunidades que só produzem repressão, martírio, suicídio e morte. A dita Santa Ceia já foi reproduzida em outros contextos e com outros personagens, inclusive personagens de desenho animado, e jamais provocou indignação alguma...por que será?!

A questão é que, em ambas as obras, e em ambos os contextos, essa comunidade lgbtqiap+, e etc., está, na atualidade, contemplada pelo significado simbólico das obras, pois tem protagonizado ao longo dos últimos anos, mesmo aos trancos e barrancos, uma passagem para um possível mundo melhor de aceitação e inclusão. Mas o que não se quer dizer, e não se diz, de fato, é que a questão principal está oculta sob um véu de narrativas que, usando de preconceito para combater supostas injúrias, não diz o que realmente importa: que é o profundo preconceito à comunidade lgbtqiap+ que está, mais uma vez na baila do dia. Não importa se é o Festim de Dioniso ou a chamada Santa Ceia, o Festim lgvbtqiap+ tem o mesmíssimo sentido simbólico, qual seja o de passagem, de libertação, de comemoração. Não é a falta de conhecimento acerca da obra O Festim dos Deuses que determina o ignorante, o que determina o ignorante, é o preconceito e a incapacidade de interpretar a vida. 

Pois bem, tanto o Festim dos Deuses, um Banquete de Dioniso/Bacchu, a depender se se olha com um olhar grego ou romano, que celebra um casamento divino no Olimpo, como a Santa Ceia de Da Vinci, que retrata, segundo a tradição, o momento que antecede o assassinato de Cristo, caberiam nesta celebração LGBTQIAP+, já que em ambas as situações se comemora algum tipo de passagem com alegria. Afinal de contas o que, segundo a Bíblia, Jesus comemorava com seus discípulos era a Páscoa, um evento judaico de passagem de uma vida cativa para a liberdade. Todo o peso da morte e da culpa só foi acrescido a este evento muito depois, na construção da religião católica. Pode-se dizer que a própria morte do Cristo e sua consequente e suposta ressureição transferiram o sentido da Páscoa para os católicos, como passagem de um estado martirizante, penoso, para um estado glorioso, de gozo absoluto. A associação do significado de sua própria morte à imolação do cordeiro à deus em comemoração a esse rito de passagem é clara nas construções posteriores do catolicismo, mas no sentido de engendrar um peso maior à própria morte para mobilizar a culpa, onde podemos fazer uma associação clara com Totem e Tabu, quando um pai cuidante é assassinado e, por ser cuidante, possibilita, pela culpa, a força da Lei.

O banquete que se serve nas redes e na internet é o do ódio, do ódio à diferença, ao LGBTQIAP+ e etc. E o que este ódio revela é a incomensurável vontade de eliminar indivíduos que ousam ser da cena humana. É isto que está posto para além dessa discussão vazia sobre cristianismo/catolicismo e paganismo. O que vemos desfilar diante de nossos olhos, para muito mais além do preconceito, e da ignorância geral, é a mentira, ou a ocultação da verdade. O que desfila diante dos céus do mundo é a mentira da aceitação, travestida de uma desculpa, que, na verdade, carrega mais um preconceito, o de achar que quem não conhece a obra O Festim dos Deuses é burro, inculto. Ora, - parafraseando uma suposta fala do Cristo! - que atire a primeira pedra aquele que conhece todas as obras de arte de todos os tempos, por nome e autor! Na verdade, seriam muito mais honestos, para consigo e para com o mundo, se encampassem uma campanha para que se reabrissem todas as Instituições Totais, onde seriam encarcerados e exterminados, como já o foram outrora (?!) esses inconvenientes desviantes, diferentes, que ousam saber e se expressar com arte. É bem mais fácil enfrentar e, quem sabe, tentar educar o inimigo quando ele é, do que quando ele se oculta.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2024 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Da BANALIDADE DO MAL entre nós


O conceito cunhado por Hannah Arendt durante o julgamento de Eichmann em Jerusalém é de uma importância ímpar a compreensão da história humana. E ele não é importante apenas porque foi cunhado por Arendt, ou porque surgiu do icônico julgamento de Eichmann. Ele é importante porque, fruto de um período tenebroso da civilização, quando o genocídio, o extermínio e maldade voltada para a própria humanidade se realizou plenamente, escancara a essência dessa mesma humanidade que a Cultura tenta camuflar como forma de sobrevivência da civilização. 

O Mal, a Maldade ou a Violência Predatória da criação de Deus, escapa pelas brechas do cotidiano, e escancara a face do inferno, aquele descrito por Dante, de uma humanidade que vive, e precisa viver, pela negação. O Mal está presente o tempo inteiro e a toda hora nas ações mais simples e despretensiosas do nosso dia a dia. É companheiro inseparável do poder, este, neste caso, entendido no sentido foucaultiano, de ser circulante no meio de nós, em todas as esferas da vida. Por isso, um ser pequeno e comum, e tendo participado de tamanha maldade, produziu em Arendt a visão da mediocridade, o que a fez posicionar o mal na banalidade da vida comum. Das igrejas às organizações sindicais, dos palácios aos campos de batalha, das áreas nobres e desejadas às periferias imundas e abandonadas, o mal viceja e se torna banal. 

Seres comuns e de todos os espectros psíquicos e sociais, com especial participação daqueles estruturalmente perversos, promovem a maldade, muitas vezes tornando-se instrumentos de ideologias produzidas por um poder maior, um outro poder, catalisador, e quase sempre sem se aperceber, embora ávidos da produção de gozo. Hoje, na produção histórica contextual, o mal está a serviço do expansionismo imperialista, e da ideologia capitalista neoliberal, nascida nos idos dos anos ’70 do século passado, sistema que vive um embate entre vida e morte, mas que projeta o homem autocentrado, egoísta, narcísico e que despreza definitivamente o conhecimento, o saber e a verdade. 

Afinal de contas, não é este desprezo que acompanhamos diariamente nas discussões e nas manobras dentro do pior parlamento que jamais existiu neste nosso país, o Brasil?! Não é este desprezo que potencializa as tragédias advindas de mudanças climáticas promovidas pelo poder econômico predatório?! Não é este desprezo que também se infiltra sorrateiramente em organizações sociais e sindicais?! Um dos maiores projetos à implantação e à manutenção de uma arquitetura capitalista neoliberal é a desconstrução da educação para o povo, sobretudo relacionado àquele mais além do conhecimento, ou seja, o saber e a crítica. 

Nos dias que correm, o saber e a crítica são tratados, sobretudo pela extrema-direita, mas também por outras vertentes políticas que simpatizam com o projeto neoliberal, como inimigos da humanidade. E por qual motivo? Porque o ignorante é útil ao projeto. Porque o bobo alegre é a coisa mais fofa que existe para os desígnios da extrema-direita e seu projeto de poder. Não há, por enquanto, nenhuma escapatória, e a desqualificação da educação e do discurso do educador serve ao projeto neoliberal de produção de mão de obra semiqualificada para o capital, para compor o exército de reserva na produção de mais valia e sobrevivência de um sistema criminoso, produtor de miséria e morte, forjado à nossa imagem e semelhança. 

Em algumas áreas, organizações ditas progressistas ou de esquerda na vida civil, a desqualificação serve a alguns outros propósitos, propósitos de manutenção do status quo de algum suposto poder, embora siga a mesma lógica da direita e extrema-direita. O modus operandi stalinista, a desqualificação pública, de impor e forçar um mea culpa por um suposto saber, emerge da desistência da luta por um mundo melhor para todos. A execração pública, a desqualificação do outro com o objetivo claro de colocá-lo “em seu lugar” é um ato político, porém perverso. Para desqualificar o discurso do outro não é necessário todo o potencial de maldade que existe dentro de todos nós, é preciso apenas vincular esse discurso a uma minoria tida como insignificante, que supostamente, e capciosamente pronunciado, possui algum suposto conhecimento, o que se crê não ser a realidade de uma grande maioria que assim deve permanecer, para os propósitos e o bem-estar de um pretenso poder político e social, mas que, em verdade, um poder histérico, Falo de Deus. 

Mas se, para dita maioria, se quer servir de massa de manobra para uns e outros, numa dança macabra de sadomasoquismo e gozo, que assim o seja…nada se há de fazer. Que, apesar desse gozo, mórbido, que é o definitivo gozo de deus, os ventos continuem a soprar a suposta leveza. E assim, quase sem se sentir, atinge-se o nirvana...e, indiscriminadamente, …já estamos todos mortos!


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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Brasil, navegando pelo REAL, IMAGINÁRIO e SIMBÓLICO

 

O Brasil supostamente real está explicitado no mapa oriundo dos resultados do censo de 2022, onde a miscigenação praticamente impera no país?! 

Aqueles que se declaram puramente indígenas estão totalmente reduzidos a pequenos espaços do imenso território nacional, ao norte. Os pretos, assim como aqueles que se declaram indígenas, estão ainda mais restritos aos rincões da Roma Negra. E aqueles que se declaram brancos ocupam parte da região sudeste e sul do país, a parte do território nacional que foi praticamente povoada pela imigração europeia tardia, entre o final do século XIX e boa parte do século XX, especialmente estimulada durante a primeira e segunda Repúblicas, para embranquecimento da população, já que mão de obra havia.

Mas, para muito além dessa imagem que se quer real, supostamente explicitada no mapa, o que isso quererá dizer?! 

Bem, o Brasil é um estranho país, onde negros se escondem, ou são escondidos, por si ou outrem, e onde ser mestiço é menos pior do que ser negro, onde cidades, como Curitiba, invisibilizam sua população negra, perseguem aqueles que eventualmente ascendem na política, e Porto Alegre tem uma prática enorme de cultos de matriz africana, mesmo sendo, segundo o mapa uma cidade praticamente branca, e estes cultos são mais presentes naquele espaço geográfico do que na cidade de Salvador, a nossa Roma Negra, mas esse dado passa bem despercebido. Mas estes são fatos pouco conhecidos ou praticamente um tabu nessas regiões. Muitos mestiços se veem brancos e muitos brancos, e isso é facilmente observável naquela região sul do país, se sentem estrangeiros residentes, se definindo pela nacionalidade estrangeira de seus antepassados migrantes e longínquos. Mas essa é uma outra história.

Ser indígena no nosso país é reviver ou renovar constantemente a invasão do território pelo império expansionista português; pelos senhores feudais das capitanias hereditárias; pelos bandeirantes mercenários e criminosos caçadores de índios; por fazendeiros latifundiários e criminosos; por governos militares assassinos ou coniventes com a matança; por grileiros e caçadores de tesouros tardios, garimpeiros modernos destruidores do meio ambiente. Uma outra opção para este segmento foi e é a secular aculturação, o abandono de suas tradições e a adequação ao sistema capitalista vigente na nação forjada pelo colonialismo, e esse foi o papel exercido pelas congregações religiosas, inicialmente os jesuítas, na aculturação dos filhos da terra, durante os primeiros passos do Brasil colônia.

A princípio, olhando aquele mapa produzido pelo censo de 2022, pode-se pensar que o projeto de branqueamento dos cidadãos brasileiros, traduzido na explicitada miscigenação, com a importação dos migrantes europeus, deu certo. Não branqueou, mas transformou o leite e o café em café com leite. Mas, contudo, não se deve esquecer que a grande miscigenação ocorreu, principalmente e sobretudo, entre portugueses, africanos e indígenas, que nos proporcionou esse nosso povo café com leite, facilmente dourável pelo sol. Os europeus importados pelo poder ao longo do tempo, continuam isolados e se isolando em suas ilhas de fantasia, a quilômetros de suas origens, e de seus destinos. Sim, este último é um fator extremamente importante para compreender certos traços culturais do sul. Mas, de acordo com o tal mapa, o genocídio indígena parece ter funcionado. De centenas de nações que dominavam o território, hoje, apenas algumas nações no norte isolado e alguns poucos indivíduos e etnias confinados em pequenos espaços regionais sobrevivem.

Você pode ser branco, mas ter em sua árvore genealógica um indígena ou um preto, assim como você pode ser um preto e ter tido um branco ou um indígena em sua árvore, e não saber, ou mesmo não querer saber. E essa é uma grande questão. Isso faz lembrar a última conversa que tive com uma senhora, minha tia, que, conversando sobre minhas pesquisas e descobertas sobre as origens da família, pronunciou: “Meu avô era português, e se encantou por uma moreninha. Não sei por que esses portugueses gostam tanto dessa gente moreninha”. E, - é de pasmar! - ela falava de sua avó paterna. Se você é mestiço, certamente você compartilha de uma mistura de raças. De qualquer forma, nada disso reflete o que simboliza para você ter ou não ter misturas de raças, pois há outros fatores importantes que interferem na sua autoimagem, e na resposta a uma simples pergunta sobre qual a sua raça. E não se pode negar a interferência deste campo simbólico na história, e os interesses que foram mobilizados em sua produção. A história é feita por homens, e homens trabalham e produzem a história a partir de seus espíritos, que por sua vez funcionam nessas três dimensões: Real, Imaginário e Simbólico. E isso é o que nos diferencia na escala filogenética.

A realidade, porém, pode não estar, ainda, associada à imagem traduzida pelo tal mapa, tendo em vista o período conturbado, de negação, da pesquisa e a subjetividade vinculada às respostas, e muito menos sustentar os significados traduzidos por essa imagem. Outras pesquisas precisariam ser efetuadas nesse sentido. A consciência da mestiçagem da maioria esmagadora, ainda não pode ser traduzida como uma consciência de um tipo nacional. A confusão identitária, vinculada a um profundo desejo de autoafirmação e ocupação dos espaços públicos, e que permeiam as ações humanas no território nacional, hoje, favorecem as cisões e os (des)entendimentos sobre si. As vinculações entre o identitarismo e a ideologia neoliberal, atreladas ao “selfmade man”, é um casamento perigoso e deletério.

“Ah, eu nasci na terra do samba de fato, um país mulato chamado Brasil” (Afrolatinô, Nei Lopes). Sim, o Brasil é um país mulato, a mistura de raças está mesmo na maior parte do território e na cara do povo, mas, e o espírito?! Ele, de fato, assumiu essa identidade mestiça?! E os que não foram miscigenados, de fato ou espiritualmente?! Talvez os dados do mapa escondam alguma coisa, alguma subjetividade simbólica, mas certamente revelam muita coisa também, resultado da nossa colonização de pilhagem e apartheid estrutural.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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