Powered By Blogger

segunda-feira, 29 de julho de 2024

O ESCROTO BANQUETE DO PRECONCEITO E DA IGNORÂNCIA

 

Por ocasião da abertura das Olimpíadas de Paris 2024, mais uma polêmica envolvendo a comunidade LGBTQIAP+ e etc. está em voga. Parece que não se dá mesmo sossego àqueles ou àquelas que querem fazer de suas vidas o que bem entenderem, que querem usar seus corpos da forma que mais lhes aprouver, que querem sentir em seus cus, suas bucetas, suas rolas e suas bocas as sensações que a vida lhes ensinou a descobrir. Sim, porque é uma descoberta, que passa pelo desenvolvimento da sexualidade e da libido e que, no final das contas, torna a vida humana tão diversa, atrativa e divertida. Mas há as comunidades que só produzem repressão, martírio, suicídio e morte. A dita Santa Ceia já foi reproduzida em outros contextos e com outros personagens, inclusive personagens de desenho animado, e jamais provocou indignação alguma...por que será?!

A questão é que, em ambas as obras, e em ambos os contextos, essa comunidade lgbtqiap+, e etc., está, na atualidade, contemplada pelo significado simbólico das obras, pois tem protagonizado ao longo dos últimos anos, mesmo aos trancos e barrancos, uma passagem para um possível mundo melhor de aceitação e inclusão. Mas o que não se quer dizer, e não se diz, de fato, é que a questão principal está oculta sob um véu de narrativas que, usando de preconceito para combater supostas injúrias, não diz o que realmente importa: que é o profundo preconceito à comunidade lgbtqiap+ que está, mais uma vez na baila do dia. Não importa se é o Festim de Dioniso ou a chamada Santa Ceia, o Festim lgvbtqiap+ tem o mesmíssimo sentido simbólico, qual seja o de passagem, de libertação, de comemoração. Não é a falta de conhecimento acerca da obra O Festim dos Deuses que determina o ignorante, o que determina o ignorante, é o preconceito e a incapacidade de interpretar a vida. 

Pois bem, tanto o Festim dos Deuses, um Banquete de Dioniso/Bacchu, a depender se se olha com um olhar grego ou romano, que celebra um casamento divino no Olimpo, como a Santa Ceia de Da Vinci, que retrata, segundo a tradição, o momento que antecede o assassinato de Cristo, caberiam nesta celebração LGBTQIAP+, já que em ambas as situações se comemora algum tipo de passagem com alegria. Afinal de contas o que, segundo a Bíblia, Jesus comemorava com seus discípulos era a Páscoa, um evento judaico de passagem de uma vida cativa para a liberdade. Todo o peso da morte e da culpa só foi acrescido a este evento muito depois, na construção da religião católica. Pode-se dizer que a própria morte do Cristo e sua consequente e suposta ressureição transferiram o sentido da Páscoa para os católicos, como passagem de um estado martirizante, penoso, para um estado glorioso, de gozo absoluto. A associação do significado de sua própria morte à imolação do cordeiro à deus em comemoração a esse rito de passagem é clara nas construções posteriores do catolicismo, mas no sentido de engendrar um peso maior à própria morte para mobilizar a culpa, onde podemos fazer uma associação clara com Totem e Tabu, quando um pai cuidante é assassinado e, por ser cuidante, possibilita, pela culpa, a força da Lei.

O banquete que se serve nas redes e na internet é o do ódio, do ódio à diferença, ao LGBTQIAP+ e etc. E o que este ódio revela é a incomensurável vontade de eliminar indivíduos que ousam ser da cena humana. É isto que está posto para além dessa discussão vazia sobre cristianismo/catolicismo e paganismo. O que vemos desfilar diante de nossos olhos, para muito mais além do preconceito, e da ignorância geral, é a mentira, ou a ocultação da verdade. O que desfila diante dos céus do mundo é a mentira da aceitação, travestida de uma desculpa, que, na verdade, carrega mais um preconceito, o de achar que quem não conhece a obra O Festim dos Deuses é burro, inculto. Ora, - parafraseando uma suposta fala do Cristo! - que atire a primeira pedra aquele que conhece todas as obras de arte de todos os tempos, por nome e autor! Na verdade, seriam muito mais honestos, para consigo e para com o mundo, se encampassem uma campanha para que se reabrissem todas as Instituições Totais, onde seriam encarcerados e exterminados, como já o foram outrora (?!) esses inconvenientes desviantes, diferentes, que ousam saber e se expressar com arte. É bem mais fácil enfrentar e, quem sabe, tentar educar o inimigo quando ele é, do que quando ele se oculta.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2024 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

Nenhum comentário:

Postar um comentário