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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Brasil, navegando pelo REAL, IMAGINÁRIO e SIMBÓLICO

 

O Brasil supostamente real está explicitado no mapa oriundo dos resultados do censo de 2022, onde a miscigenação praticamente impera no país?! 

Aqueles que se declaram puramente indígenas estão totalmente reduzidos a pequenos espaços do imenso território nacional, ao norte. Os pretos, assim como aqueles que se declaram indígenas, estão ainda mais restritos aos rincões da Roma Negra. E aqueles que se declaram brancos ocupam parte da região sudeste e sul do país, a parte do território nacional que foi praticamente povoada pela imigração europeia tardia, entre o final do século XIX e boa parte do século XX, especialmente estimulada durante a primeira e segunda Repúblicas, para embranquecimento da população, já que mão de obra havia.

Mas, para muito além dessa imagem que se quer real, supostamente explicitada no mapa, o que isso quererá dizer?! 

Bem, o Brasil é um estranho país, onde negros se escondem, ou são escondidos, por si ou outrem, e onde ser mestiço é menos pior do que ser negro, onde cidades, como Curitiba, invisibilizam sua população negra, perseguem aqueles que eventualmente ascendem na política, e Porto Alegre tem uma prática enorme de cultos de matriz africana, mesmo sendo, segundo o mapa uma cidade praticamente branca, e estes cultos são mais presentes naquele espaço geográfico do que na cidade de Salvador, a nossa Roma Negra, mas esse dado passa bem despercebido. Mas estes são fatos pouco conhecidos ou praticamente um tabu nessas regiões. Muitos mestiços se veem brancos e muitos brancos, e isso é facilmente observável naquela região sul do país, se sentem estrangeiros residentes, se definindo pela nacionalidade estrangeira de seus antepassados migrantes e longínquos. Mas essa é uma outra história.

Ser indígena no nosso país é reviver ou renovar constantemente a invasão do território pelo império expansionista português; pelos senhores feudais das capitanias hereditárias; pelos bandeirantes mercenários e criminosos caçadores de índios; por fazendeiros latifundiários e criminosos; por governos militares assassinos ou coniventes com a matança; por grileiros e caçadores de tesouros tardios, garimpeiros modernos destruidores do meio ambiente. Uma outra opção para este segmento foi e é a secular aculturação, o abandono de suas tradições e a adequação ao sistema capitalista vigente na nação forjada pelo colonialismo, e esse foi o papel exercido pelas congregações religiosas, inicialmente os jesuítas, na aculturação dos filhos da terra, durante os primeiros passos do Brasil colônia.

A princípio, olhando aquele mapa produzido pelo censo de 2022, pode-se pensar que o projeto de branqueamento dos cidadãos brasileiros, traduzido na explicitada miscigenação, com a importação dos migrantes europeus, deu certo. Não branqueou, mas transformou o leite e o café em café com leite. Mas, contudo, não se deve esquecer que a grande miscigenação ocorreu, principalmente e sobretudo, entre portugueses, africanos e indígenas, que nos proporcionou esse nosso povo café com leite, facilmente dourável pelo sol. Os europeus importados pelo poder ao longo do tempo, continuam isolados e se isolando em suas ilhas de fantasia, a quilômetros de suas origens, e de seus destinos. Sim, este último é um fator extremamente importante para compreender certos traços culturais do sul. Mas, de acordo com o tal mapa, o genocídio indígena parece ter funcionado. De centenas de nações que dominavam o território, hoje, apenas algumas nações no norte isolado e alguns poucos indivíduos e etnias confinados em pequenos espaços regionais sobrevivem.

Você pode ser branco, mas ter em sua árvore genealógica um indígena ou um preto, assim como você pode ser um preto e ter tido um branco ou um indígena em sua árvore, e não saber, ou mesmo não querer saber. E essa é uma grande questão. Isso faz lembrar a última conversa que tive com uma senhora, minha tia, que, conversando sobre minhas pesquisas e descobertas sobre as origens da família, pronunciou: “Meu avô era português, e se encantou por uma moreninha. Não sei por que esses portugueses gostam tanto dessa gente moreninha”. E, - é de pasmar! - ela falava de sua avó paterna. Se você é mestiço, certamente você compartilha de uma mistura de raças. De qualquer forma, nada disso reflete o que simboliza para você ter ou não ter misturas de raças, pois há outros fatores importantes que interferem na sua autoimagem, e na resposta a uma simples pergunta sobre qual a sua raça. E não se pode negar a interferência deste campo simbólico na história, e os interesses que foram mobilizados em sua produção. A história é feita por homens, e homens trabalham e produzem a história a partir de seus espíritos, que por sua vez funcionam nessas três dimensões: Real, Imaginário e Simbólico. E isso é o que nos diferencia na escala filogenética.

A realidade, porém, pode não estar, ainda, associada à imagem traduzida pelo tal mapa, tendo em vista o período conturbado, de negação, da pesquisa e a subjetividade vinculada às respostas, e muito menos sustentar os significados traduzidos por essa imagem. Outras pesquisas precisariam ser efetuadas nesse sentido. A consciência da mestiçagem da maioria esmagadora, ainda não pode ser traduzida como uma consciência de um tipo nacional. A confusão identitária, vinculada a um profundo desejo de autoafirmação e ocupação dos espaços públicos, e que permeiam as ações humanas no território nacional, hoje, favorecem as cisões e os (des)entendimentos sobre si. As vinculações entre o identitarismo e a ideologia neoliberal, atreladas ao “selfmade man”, é um casamento perigoso e deletério.

“Ah, eu nasci na terra do samba de fato, um país mulato chamado Brasil” (Afrolatinô, Nei Lopes). Sim, o Brasil é um país mulato, a mistura de raças está mesmo na maior parte do território e na cara do povo, mas, e o espírito?! Ele, de fato, assumiu essa identidade mestiça?! E os que não foram miscigenados, de fato ou espiritualmente?! Talvez os dados do mapa escondam alguma coisa, alguma subjetividade simbólica, mas certamente revelam muita coisa também, resultado da nossa colonização de pilhagem e apartheid estrutural.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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