O Brasil supostamente real está explicitado no mapa oriundo dos
resultados do censo de 2022, onde a miscigenação praticamente impera no
país?!
Aqueles que se declaram puramente indígenas estão totalmente
reduzidos a pequenos espaços do imenso território nacional, ao norte. Os
pretos, assim como aqueles que se declaram indígenas, estão ainda mais
restritos aos rincões da Roma Negra. E aqueles que se declaram brancos ocupam
parte da região sudeste e sul do país, a parte do território nacional que foi
praticamente povoada pela imigração europeia tardia, entre o final do século
XIX e boa parte do século XX, especialmente estimulada durante a primeira e
segunda Repúblicas, para embranquecimento da população, já que mão de obra
havia.
Mas, para muito além dessa imagem que se quer real, supostamente
explicitada no mapa, o que isso quererá dizer?!
Bem, o Brasil é um estranho país, onde negros se escondem, ou
são escondidos, por si ou outrem, e onde ser mestiço é menos pior do que ser
negro, onde cidades, como Curitiba, invisibilizam sua população negra, perseguem
aqueles que eventualmente ascendem na política, e Porto Alegre tem uma prática
enorme de cultos de matriz africana, mesmo sendo, segundo o mapa uma cidade
praticamente branca, e estes cultos são mais presentes naquele espaço
geográfico do que na cidade de Salvador, a nossa Roma Negra, mas esse dado
passa bem despercebido. Mas estes são fatos pouco conhecidos ou praticamente um
tabu nessas regiões. Muitos mestiços se veem brancos e muitos brancos, e isso é
facilmente observável naquela região sul do país, se sentem estrangeiros
residentes, se definindo pela nacionalidade estrangeira de seus antepassados
migrantes e longínquos. Mas essa é uma outra história.
Ser indígena no nosso país é reviver ou renovar constantemente a
invasão do território pelo império expansionista português; pelos senhores feudais
das capitanias hereditárias; pelos bandeirantes mercenários e criminosos
caçadores de índios; por fazendeiros latifundiários e criminosos; por governos
militares assassinos ou coniventes com a matança; por grileiros e caçadores de
tesouros tardios, garimpeiros modernos destruidores do meio ambiente. Uma outra
opção para este segmento foi e é a secular aculturação, o abandono de suas
tradições e a adequação ao sistema capitalista vigente na nação forjada pelo
colonialismo, e esse foi o papel exercido pelas congregações religiosas,
inicialmente os jesuítas, na aculturação dos filhos da terra, durante os
primeiros passos do Brasil colônia.
A princípio, olhando aquele mapa produzido pelo censo de 2022,
pode-se pensar que o projeto de branqueamento dos cidadãos brasileiros,
traduzido na explicitada miscigenação, com a importação dos migrantes europeus,
deu certo. Não branqueou, mas transformou o leite e o café em café com leite. Mas,
contudo, não se deve esquecer que a grande miscigenação ocorreu, principalmente
e sobretudo, entre portugueses, africanos e indígenas, que nos proporcionou esse
nosso povo café com leite, facilmente dourável pelo sol. Os europeus importados
pelo poder ao longo do tempo, continuam isolados e se isolando em suas ilhas de
fantasia, a quilômetros de suas origens, e de seus destinos. Sim, este último é
um fator extremamente importante para compreender certos traços culturais do
sul. Mas, de acordo com o tal mapa, o genocídio indígena parece ter funcionado.
De centenas de nações que dominavam o território, hoje, apenas algumas nações
no norte isolado e alguns poucos indivíduos e etnias confinados em pequenos
espaços regionais sobrevivem.
Você pode ser branco, mas ter em sua árvore genealógica um
indígena ou um preto, assim como você pode ser um preto e ter tido um branco ou
um indígena em sua árvore, e não saber, ou mesmo não querer saber. E essa é uma
grande questão. Isso faz lembrar a última conversa que tive com uma senhora,
minha tia, que, conversando sobre minhas pesquisas e descobertas sobre as
origens da família, pronunciou: “Meu avô era português, e se encantou por uma
moreninha. Não sei por que esses portugueses gostam tanto dessa gente
moreninha”. E, - é de pasmar! - ela falava de sua avó paterna. Se você é mestiço,
certamente você compartilha de uma mistura de raças. De qualquer forma, nada
disso reflete o que simboliza para você ter ou não ter misturas de raças, pois
há outros fatores importantes que interferem na sua autoimagem, e na resposta a
uma simples pergunta sobre qual a sua raça. E não se pode negar a interferência
deste campo simbólico na história, e os interesses que foram mobilizados em sua
produção. A história é feita por homens, e homens trabalham e produzem a
história a partir de seus espíritos, que por sua vez funcionam nessas três
dimensões: Real, Imaginário e Simbólico. E isso é o que nos diferencia na
escala filogenética.
A realidade, porém, pode não estar, ainda, associada à imagem
traduzida pelo tal mapa, tendo em vista o período conturbado, de negação, da
pesquisa e a subjetividade vinculada às respostas, e muito menos sustentar os
significados traduzidos por essa imagem. Outras pesquisas precisariam ser
efetuadas nesse sentido. A consciência da mestiçagem da maioria esmagadora,
ainda não pode ser traduzida como uma consciência de um tipo nacional. A
confusão identitária, vinculada a um profundo desejo de autoafirmação e
ocupação dos espaços públicos, e que permeiam as ações humanas no território
nacional, hoje, favorecem as cisões e os (des)entendimentos sobre si. As
vinculações entre o identitarismo e a ideologia neoliberal, atreladas ao
“selfmade man”, é um casamento perigoso e deletério.
“Ah,
eu nasci na terra do samba de fato, um país mulato chamado Brasil” (Afrolatinô,
Nei Lopes). Sim, o Brasil é um país mulato, a mistura de raças está mesmo na
maior parte do território e na cara do povo, mas, e o espírito?! Ele, de fato,
assumiu essa identidade mestiça?! E os que não foram miscigenados, de fato ou
espiritualmente?! Talvez os dados do mapa escondam alguma coisa, alguma
subjetividade simbólica, mas certamente revelam muita coisa também, resultado
da nossa colonização de pilhagem e apartheid estrutural.

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