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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Da BANALIDADE DO MAL entre nós


O conceito cunhado por Hannah Arendt durante o julgamento de Eichmann em Jerusalém é de uma importância ímpar a compreensão da história humana. E ele não é importante apenas porque foi cunhado por Arendt, ou porque surgiu do icônico julgamento de Eichmann. Ele é importante porque, fruto de um período tenebroso da civilização, quando o genocídio, o extermínio e maldade voltada para a própria humanidade se realizou plenamente, escancara a essência dessa mesma humanidade que a Cultura tenta camuflar como forma de sobrevivência da civilização. 

O Mal, a Maldade ou a Violência Predatória da criação de Deus, escapa pelas brechas do cotidiano, e escancara a face do inferno, aquele descrito por Dante, de uma humanidade que vive, e precisa viver, pela negação. O Mal está presente o tempo inteiro e a toda hora nas ações mais simples e despretensiosas do nosso dia a dia. É companheiro inseparável do poder, este, neste caso, entendido no sentido foucaultiano, de ser circulante no meio de nós, em todas as esferas da vida. Por isso, um ser pequeno e comum, e tendo participado de tamanha maldade, produziu em Arendt a visão da mediocridade, o que a fez posicionar o mal na banalidade da vida comum. Das igrejas às organizações sindicais, dos palácios aos campos de batalha, das áreas nobres e desejadas às periferias imundas e abandonadas, o mal viceja e se torna banal. 

Seres comuns e de todos os espectros psíquicos e sociais, com especial participação daqueles estruturalmente perversos, promovem a maldade, muitas vezes tornando-se instrumentos de ideologias produzidas por um poder maior, um outro poder, catalisador, e quase sempre sem se aperceber, embora ávidos da produção de gozo. Hoje, na produção histórica contextual, o mal está a serviço do expansionismo imperialista, e da ideologia capitalista neoliberal, nascida nos idos dos anos ’70 do século passado, sistema que vive um embate entre vida e morte, mas que projeta o homem autocentrado, egoísta, narcísico e que despreza definitivamente o conhecimento, o saber e a verdade. 

Afinal de contas, não é este desprezo que acompanhamos diariamente nas discussões e nas manobras dentro do pior parlamento que jamais existiu neste nosso país, o Brasil?! Não é este desprezo que potencializa as tragédias advindas de mudanças climáticas promovidas pelo poder econômico predatório?! Não é este desprezo que também se infiltra sorrateiramente em organizações sociais e sindicais?! Um dos maiores projetos à implantação e à manutenção de uma arquitetura capitalista neoliberal é a desconstrução da educação para o povo, sobretudo relacionado àquele mais além do conhecimento, ou seja, o saber e a crítica. 

Nos dias que correm, o saber e a crítica são tratados, sobretudo pela extrema-direita, mas também por outras vertentes políticas que simpatizam com o projeto neoliberal, como inimigos da humanidade. E por qual motivo? Porque o ignorante é útil ao projeto. Porque o bobo alegre é a coisa mais fofa que existe para os desígnios da extrema-direita e seu projeto de poder. Não há, por enquanto, nenhuma escapatória, e a desqualificação da educação e do discurso do educador serve ao projeto neoliberal de produção de mão de obra semiqualificada para o capital, para compor o exército de reserva na produção de mais valia e sobrevivência de um sistema criminoso, produtor de miséria e morte, forjado à nossa imagem e semelhança. 

Em algumas áreas, organizações ditas progressistas ou de esquerda na vida civil, a desqualificação serve a alguns outros propósitos, propósitos de manutenção do status quo de algum suposto poder, embora siga a mesma lógica da direita e extrema-direita. O modus operandi stalinista, a desqualificação pública, de impor e forçar um mea culpa por um suposto saber, emerge da desistência da luta por um mundo melhor para todos. A execração pública, a desqualificação do outro com o objetivo claro de colocá-lo “em seu lugar” é um ato político, porém perverso. Para desqualificar o discurso do outro não é necessário todo o potencial de maldade que existe dentro de todos nós, é preciso apenas vincular esse discurso a uma minoria tida como insignificante, que supostamente, e capciosamente pronunciado, possui algum suposto conhecimento, o que se crê não ser a realidade de uma grande maioria que assim deve permanecer, para os propósitos e o bem-estar de um pretenso poder político e social, mas que, em verdade, um poder histérico, Falo de Deus. 

Mas se, para dita maioria, se quer servir de massa de manobra para uns e outros, numa dança macabra de sadomasoquismo e gozo, que assim o seja…nada se há de fazer. Que, apesar desse gozo, mórbido, que é o definitivo gozo de deus, os ventos continuem a soprar a suposta leveza. E assim, quase sem se sentir, atinge-se o nirvana...e, indiscriminadamente, …já estamos todos mortos!


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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