No início era ou estava o verbo!
Quem és?!
EU SOU!
No grego, a palavra para verbo é logos, que também significa "palavra", mas muito mais, pois logos se refere à linguagem; ao pensamento ou razão; à norma ou regra, ao ser ou realidade íntima de alguma coisa, logo ao saber ou conhecimento. Conhecimento/Palavra ou Palavra/Conhecimento nos remetem à revolução cognitiva que nos trouxe até aqui.
"Por Sua palavra, Deus criou o mundo e tudo que existe (Hebreus 11:3)." Assim, a palavra de Deus representa seu poder e sua autoridade. O Verbo, então, é Deus, agindo no mundo, ou nele mesmo, e, de acordo com o livro de Gênesis, limitando o poder do homem, que, desobediente, precisou ser severamente punido.
Gostaria de
começar este texto dizendo que Baruch de Spinoza foi um gênio, matematizou o
pensamento ético assim como Lacan matematizou os discursos na Psicanálise, e é,
de longe, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Poder-se-ia dizer que
este homem, que partiu muito cedo em sua época, usando a matemática para
sustentar seu pensamento, foi um grande cientista, sendo a própria ciência a
prática da filosofia. Não há ciência sem filosofia, assim como não há filosofia
que não nos leve à prática da ciência. E essa parece ser a lógica de sua obra
tão instigante. O uso da ética filosófica para a prática da razão.
Mas antes de
navegar pelo cerne lógico da questão da ética em Spinoza, ou seja, Deus e o
comportamento humano, ou ainda, o comportamento humano na construção da lógica
divina, vamos tentar entender, primeiro, esse conceito da ética, que diz
respeito à estrutura do comportamento humano na civilização. Para
Platão a ética consistia na busca pela felicidade por meio não
somente do comportamento de um único indivíduo, pois um indivíduo não pode ser
feliz em uma comunidade viciosa, mas também a coletividade deve alcançar tal
felicidade. Enquanto a ética é definida como a teoria, o conhecimento ou a
ciência do comportamento moral, que busca explicar, compreender, justificar e
criticar a moral ou as diversas morais de uma sociedade, a moral se refere aos
modos, que submetido à vontade, propicia maneiras pelas quais se vivencia a
ética. A ética é uma área da filosofia que busca problematizar as questões
relativas a costumes e moral de uma sociedade, sem recorrer ao senso comum. A
ética tenta estabelecer, de maneira moderada e com uma visão questionadora, o
que é o certo e o errado, estabelecendo uma linha, muitas vezes tênue, entre
bem e mal.
Como eu
gostaria de encontrar Spinoza e bater um longo papo, e perguntar: sobre afetos,
paixões, conatus, livre-arbítrio e desejo. Perguntar também se desdizer Deus
dizendo foi uma estratégia para escapar das chamas criminosas da igreja
católica, da absoluta soberba do judaísmo, ou da violência pulsional castradora
presente no Islã?! No texto O Futuro de uma Ilusão, Sigmund Freud, um
ateu convicto, um judeu sem Deus, como o nomeou Peter Gay, seu biógrafo, que,
ao longo de sua vida profissional como neurologista e psicanalista, se dedicou
a desvendar os mistérios do funcionamento psíquico, parece fazer uma crítica
radical e bastante coerente, dentro da lógica psicanalítica, ao Deus pensado
por Spinoza. Muito embora, no pensamento desse grande pensador, já encontramos
traços claros do futuro, e longínquo, pensamento psicanalítico, como a ideia
dos afetos e do desejo, e da construção da estrutura psíquica a partir do
outro. Também a dinâmica pulsional já se encontra presente em Spinoza, pois,
como nos diz ele, “quando imaginamos algo que comumente nos agrada por seu
sabor, desejamos desfrutá-lo, ou seja, comê-lo. Mas enquanto assim o
desfrutamos, o estômago torna-se cheio e o corpo fica diferentemente disposto.
Se, pois, com o corpo agora diferentemente disposto, por um lado, a imagem
desse alimento é, por sua presença, intensificada, e, consequentemente, é
também intensificado o esforço ou o desejo por comê-lo, por outro lado, a esse
esforço ou desejo, se oporá aquela nova disposição e, consequentemente, a presença
do alimento que apetecíamos se tornará odiosa. É a isso que chamamos de fastio
ou enfado.” (Spinoza, p.140), ou a relação escópica do empuxo de órgão frente
ao objeto de satisfação libidinal. Em suas definições sobre os afetos, Spinoza
declara que “o desejo é a própria essência do homem” (Spinoza, p. 140), e faz
uma clara observação sobre o que Freud muito tempo depois, entenderia por um
caos pulsional, quando declara que “compreendo, aqui, portanto, pelo nome de
desejo, todos os esforços, todos os impulsos, apetites e volições do homem, que
variam de acordo com o seu variável estado e que, não raramente, são a tal
ponto opostos entre si que o homem é arrastado para todos os lados e não sabe
para onde se dirigir. (Spinoza, p. 141).
Porém, o que
se pode, muitas vezes, não perceber, ou não, é que o discurso pode estimular e
proporcionar aquilo a que se propõe desconstruir, ou querer modificar no
cotidiano humano, o que pode também ser compreendido como um traço esquizo
perfeito, sendo a esquizofrenia a coexistência de duas realidades distintas,
uma cisão da realidade. Uma dubiedade
intrigante e, a meu ver, ao mesmo tempo instigante está presente na
conceituação de Deus em Spinoza. Mas talvez essa dubiedade faça parte da nossa
projeção de Deus. Freud, em seu O Futuro de uma Ilusão, parece fazer uma
crítica coerente ao Deus de Spinoza, quando declara que “no que tange aos
problemas da religião, o homem é culpado de uma série de uns cem números de
insinceridades e de vícios intelectuais. Os filósofos forçam o significado das
palavras até não conseguir conservar mais nada de seu sentido primitivo, dão o
nome de “Deus” a uma vaga abstração criada por eles e se apresentam diante do
mundo como deístas, vangloriando-se de haver descoberto um conceito muito mais
elevado e puro de Deus, mesmo que seu Deus não seja mais que uma sombra
inexistente e não a poderosa personalidade do dogma religioso.” (Freud, in O
Futuro de Uma Ilusão, numa tradução livre de um trecho do texto na edição
espanhola das Obras Completas, Ed Nueva Madrid). O que Freud quis dizer aqui é
que desdizer Deus colocando em seu lugar uma despersonalidade não ajuda em
absolutamente nada em uma possível evolução na civilização, e ainda destitui o
Totem, substituto do pai primevo, sem nada oferecer em troca. Freud, apesar de
reconhecer a inexistência de Deus, entende a importância da estrutura para a
formação psíquica do indivíduo e da civilização. Mas é evidente que esses
conceitos não estavam presentes no tempo cultural de Spinoza, e sua ideia
parece sempre desconstruir Deus afirmando sua existência.
Há uma
passagem no Velho Testamento, em que Deus responde a Moisés: “Eu Sou”, ou seja,
“aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente” (Spinoza,
p.13). A partir dessa inferência, em consonância com o texto do velho
testamento ou da torá, pode-se dizer que Deus seria absoluto, mas também
indescritível, um verbo, uma ideia sem forma para a qual os humanos,
necessitados de referência construíram uma forma e, por referência, “aqueles
que confundem a natureza divina com a natureza humana, facilmente atribuem a
deus afetos humanos, sobretudo à medida que também ignoram de que maneira os
afetos são produzidos na mente.” (Spinoza, p. 16). É assim que, Spinoza, de
forma absolutamente inteligente, utiliza as definições existentes de Deus para
simplesmente negar sua existência. E vai muito além, quando afirma que Deus é
absoluto porque Deus é a própria natureza, da qual tudo e todos fazem parte,
sendo Deus unicamente um verbo.
O
Deus-natureza de Spinoza é ao mesmo tempo absoluto e obsoleto, sendo este
obsoleto nada a destituição do Deus projetado, mas, que ao mesmo tempo, também
é conteúdo, conteúdo do não existir, do não ser, e, portanto, infinito,
onipotente, onipresente, onisciente. “E se continuamos assim, até o infinito,
conceberemos facilmente que a natureza inteira é um só indivíduo, cujas partes,
isto é, todos os corpos, variam de infinitas maneiras, sem qualquer mudança do
indivíduo inteiro.” (Spinoza, p. 65). Percebe-se que Spinoza utiliza o discurso
religioso e seus conceitos de Deus em benefício de sua despersonalização de
Deus. E afirma que “se os homens, entretanto, não têm, de Deus, um conhecimento
tão claro quanto o que tem das noções comuns, é porque ligam o nome de Deus às
imagens das coisas que eles estão acostumados a ver, o que dificilmente podem
evitar, por serem continuamente afetados pelos corpos exteriores.” (Spinoza, p.
87). Ora, aqui, talvez sem o saber, Spinoza reconhece a importância do
imaginário para a construção simbólica no homem.
Mas o
Imaginário se assenta sempre sobre um Real, e é nesse lugar que podemos
vislumbrar Deus, no Real impossível, o objeto pequeno a, ao redor do qual
circula a construção simbólica humana. A partir dessa ideia, “vemos, assim,
que, mais por preconceito do que por um verdadeiro conhecimento delas, os
homens adquiriram o hábito de chamar de perfeitas ou de imperfeitas as coisas
naturais. Com efeito, mostramos, (...), que a natureza não age em função de um
fim, pois o ente eterno e infinito que chamamos Deus ou natureza age pela mesma
necessidade pela qual existe. Mostramos, com efeito, que ele age pela mesma
necessidade da natureza pela qual existe (...). Portanto, a razão ou a causa
pela qual Deus ou a natureza age e aquela pela qual existe é uma só e a mesma.
Logo, assim como não existe em função de qualquer fim, ele também não age dessa
maneira. Em vez disso, assim como não tem qualquer fim em função do qual
existir, tampouco tem qualquer princípio ou fim em função do qual agir.”
(Spinoza, p. 156), e, portanto, se descortina assim a impossibilidade de Deus,
impossibilidade como projeção humana e impossibilidade enquanto ente
alcançável, e por isso é absoluto no infinito nada.
São as
necessidades humanas de proteção, sobretudo se remontarmos aos primórdios da
existência, quando ocupávamos as cavernas para nos proteger, e pouco
compreendíamos das forças da natureza, mas dávamos os primeiros passos na
Revolução Cognitiva que, passamos a imaginar “que o sol está tão próximo não
por ignorarmos a distância verdadeira, mas porque a mente concebe o tamanho do
sol apenas à medida que o corpo é por ele afetado.” (Spinoza, p.160). Esta
afirmação de Spinoza nos remete à ideia de que o mundo existe, da forma que
existe, a partir de nossas sensações e necessidades. É verdade, o mundo é
nomeado de acordo com nossa conveniência. Uma árvore não sabe que é uma árvore,
ela simplesmente é, assim como uma cadeira não sabe que é uma cadeira, ou para
que serve, elas apenas são, e se prestam àquilo que nos convém. Nós as
nomeamos, damos-lhes um sentido para existir, ou não, conforme as transformamos
em objetos desejados por nós, em função de nossas necessidades.
Mas a grande
questão, subjacente, presente em Spinoza é a construção humana de Deus, e uma
descrição do deus do antigo testamento, na obra Deus, um Delírio, de
Richard Dawkins, segundo a qual, ele “é talvez o personagem mais desagradável
da ficção: ciumento, e com orgulho; controlador, mesquinho, injusto e
intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor
misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento,
megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo.” (Dawkins, p. 55), parece confirmar o
nosso espelhamento em Deus, já que todas essas características sustentam a
verdade do maior predador que jamais existiu na natureza. Sim, nós mesmos. Nós, os humanos, projetamos
um deus à nossa imagem e semelhança. Todas as mazelas que permeiam a nossa
existência foram transferidas para esse Deus, e desfilam diuturnamente nos
noticiários de nosso dia a dia existencial. Apenas “aqueles que são acostumados
desde a infância ao jeitão dele podem ficar dessensibilizados com o terror que
sentem. Um naif dotado da perspectiva da inocência tem uma percepção mais
clara.” (Dawkins, p. 55). Mesmo o suposto Deus da bondade, da ligação
libidinal, da partilha e do desprendimento, pode ser uma projeção, ou não, já
que este Deus seria eminentemente humano, e destituiu o Deus dos Céus. Mas, um
ou outro, nos levam a pensar no campo pulsional, seja este dual, como queria
Freud, ou uno, sob o qual se constrói a dualidade, como sugeriu Lacan.
No tocante ao
mundo das religiões, uma instituição da Cultura na Civilização, “o grande e
indizível mal no cerne da nossa cultura é o monoteísmo. A partir de um texto
bárbaro da idade do Bronze, conhecido como Antigo Testamento, evoluíram três
religiões anti-humanas – o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de
deus-no-céu. São, literalmente, patriarcais – Deus o Pai Onipotente -, daí o
desprezo às mulheres por 2 mil anos nos países afligidos pelo deus-no-céu e
seus enviados masculinos terrestres. Gore Vidal.” (Dawkins, p. 63). Na verdade,
o monoteísmo não tem sua origem em Abraão, mas em origens bem mais antigas,
como no culto ao círculo solar de Akhenaton, que provocou uma verdadeira
Revolução no Egito Antigo, e posteriormente, com a morte de Akhenaton o
restabelecimento do domínio de Amon e sua corte politeísta. Coincidentemente,
foi, talvez, a partir de um príncipe egípcio, que surgiu a primeira Religião
monoteísta pós Akhenaton, e que surgiu com uma força de uma Lei titânica,
provavelmente pela morte violenta desse príncipe, repetindo o mito do pai
primevo, e estabelecendo as bases do judaísmo e sua descendência. Assim, “a
mais antiga das três religiões abraâmicas, e a clara ancestral das outras duas,
é o judaísmo: originalmente um culto tribal a um Deus único e desagradável, que
tinha uma obsessão mórbida por restrições sexuais, pelo cheiro de carne
queimada, por sua superioridade em relação aos deuses rivais e pelo
exclusivismo de sua tribo desértica escolhida.” (Dawkins, p. 63). E para esta
tribo, o suposto Deus de Israel apontou o caminho, definiu o espaço, ordenou a
morte dos ocupantes originários das terras, coisa que seus súditos seguem
fazendo até os dias atuais, e o exigiu que o glorificassem eternamente, até sua
suposta vinda dos céus, em suposto Juizo Final. Deus é, sem sombra de dúvidas,
o maior e mais eficiente mecanismo de defesa já criado pelos humanos. Se deus
preenche lacunas, e as lacunas impulsionam o homem desejante, deus é assim a
negação e o tamponamento do desejo.
Os humanos,
ocupando o lugar mais alto no pódio dos maiores predadores da natureza,
“parecem ter sido lindamente “projetados” para capturar suas presas, enquanto
as presas parecem tão lindamente “projetadas” quanto para escapar deles. De que
lado Deus está?” (Dawkins, p. 182). Teria criado Deus presa e predador apenas
para sua diversão?! Mas há uma outra questão, bem mais afeta à psicanálise que
a filosofia, e que diz respeito a certas práticas dentro do monoteísmo, e que
são as práticas autodestrutivas como forma de combate ao outro, e que não estão
circunscritas ao campo da religião. “Os homens-bomba fazem o que fazem porque
acreditam mesmo no que lhes ensinaram nas escolas religiosas: que o dever para
com Deus supera todas as outras prioridades, e que o martírio a serviço dele
será recompensado nos jardins do Paraíso. E eles aprenderam essa lição não
necessariamente com extremistas fanáticos, mas com instrutores religiosos
decentes, gentis, normais, que os colocaram em fileiras em suas madraçais (casa
de estudos islâmicos), abaixando e levantando ritmadamente a cabecinha enquanto
aprendiam cada palavra do livro sagrado, como papagaios malucos. A fé pode ser
perigosíssima, e implantá-la deliberadamente na cabeça de uma criança inocente
é gravemente errado.” (Dawkins, p. 395). Mas há questões de um mais além aqui,
que não diz respeito apenas ao aprendizado, mas ao impulso para a morte e a
autodestruição, tão presente, de diversas formas, na história humana ao longo
do tempo.
Mas a religião
não é só destruição, ela também liga e “oferece consolo e reconforto. Ela
estimula o sentimento de união. Ela satisfaz nosso desejo de entender por que
existimos. (Dawkins, p. 215), embora prescindindo de toda e qualquer
racionalidade. “Martinho Lutero sabia bem que a razão é a arquiinimiga da
religião. E frequentemente advertia sobre seus perigos. “A razão é o maior
inimigo que a fé possui; ela nunca aparece para contribuir com as coisas
espirituais, mas com frequência entra em confronto com a palavra divina,
tratando com desdém tudo que emana da palavra de Deus.” De novo: “Quem quiser
ser cristão deve arrancar os olhos da razão.” E de novo: “A razão deve ser
destruída em todos os cristãos.””
(Dawkins, p. 251). Durante séculos a religião católica cerceou o desejo
de saber, proibindo, perseguindo e até destruindo quem se atrevesse a
questionar seus dogmas, suas fantasias e seus delírios.
Para o
elemento humano, a questão da religião não é de ser o bem ou o mal, mas de
ajudar a lidar com insuportável realidade da finitude da vida, após uma suposta
expulsão do paraíso. Além disso, “Se você acha que, na ausência de Deus,
“cometeria roubos, estupros e assassinatos”, revela-se uma pessoa imoral, “e
faríamos bem em nos manter bem longe de você”. Se, por outro lado, você admite
que continuaria sendo uma boa pessoa mesmo quando não estiver sob a vigilância
divina, você destruiu fatalmente a alegação de que Deus é necessário para que
sejamos bons.” (Dawkins, p. 295-296), e você foi inundado pela razão. Mas
também “é preciso dizer, para ser justo, que grande parte da Bíblia não é
sistematicamente cruel, mas simplesmente estranha, como seria de esperar de uma
antologia caótica de documentos desconjuntados, escrita, revisada, traduzida,
distorcida e “melhorada” por centenas de autores anônimos, editores e
copiadores, que desconhecemos e que não se conheciam entre si, ao longo de nove
séculos.” (Dawkins, p. 305-306), e que nasceu dentro e como um poder de Estado,
nas três vertentes do monoteísmo, sendo o Catolicismo a mais emblemática nesse
sentido, e a mais bem sucedida experiência de uma religião que sobreviveu ao
fim do Estado que a criou, e que, tendo ela própria se tornado um supra Estado,
possui uma enorme abrangência global.
Mas a crítica
freudiana ao Deus de Spinoza é perfeitamente compreensível, porque o Deus de
Spinoza é um Deus do Não-lugar, um Deus que é sem realmente sê-lo. Embora, se
pensarmos no nó górdio lacaniano, o Deus de Spinoza estaria exatamente no
centro, no lugar do objeto pequeno a que é indizível, inalcançável, intocável,
impossível. Mas insisto em afirmar que foi uma forma extremamente inteligente
de dizer da não existência de Deus, peremptoriamente afirmando-o, o que
confirma e reconfirma a genialidade de Spinoza.
E para finalizar esta minha humilde avaliação, uma frase do livro de
Richard Dawkins se faz eclodir com a sutileza de uma erupção vulcânica, como a
obra de Spinoza: “O fato de um crente ser mais feliz que um cético não quer
dizer muito mais que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio.”
(Dawkins, p. 220).

