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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O FILME O ANTICRISTO, O IDENTITARISMO E O PREJUIZO AO INTELECTO

 

Realmente o identitarismo pode ser algo muito ruim, sobretudo quando começa a minar a inteligência daquele que é, de fato, inteligente.


Pode ser um deslize infeliz, mas o filme escolhido e sua análise, para iniciar o artigo de Márcia Tiburi, na Cult de maio, a meu ver, foi um desastre.


O filme em questão é O Anticristo, do magnífico Lars. Nele, uma mulher que já dava sinais de uma estrutura comprometida, após a morte de seu filho, na qual o filme sutilmente sugere sua conivência, busca se isolar em uma cabana e, lá, começa a ter alucinações. Seu marido, um psicólogo desavisado, quiçá um pouco displicente e negligente, tenta ajudá-la, embora ao cabo do tempo, torna-se alvo dos delírios persecutórios da esposa, sendo obrigado, à medida que a situação piora a cada momento, a eliminá-la para salvar a própria vida.


Durante um certo tempo fiquei tentando entender a relação do conteúdo do filme com seu título, o anticristo. Seria ele? Que mesmo sendo da área psi não se apercebeu dos problemas da esposa, e deixou que seus sintomas evoluíssem para aquele desfecho?! Seria ela? Que em busca de seu próprio prazer deixou seu filho cair da janela, e, por culpa, depois começou a ter alucinações persecutórias?! Mas o filme também sugere que já haviam alguns sinais anteriores que, como uma antecipação do sintoma, demonstravam a estrutura comprometida, a psicose paranoide.


Ainda, a cena que ilustra esse texto, e que de fato faz parte do filme, parece uma tentativa desesperada de recuperação do filho "perdido", do status fálico do existir, à sombra de uma árvore macabra repleta de mãos desesperadas, que nos remetem ao mito da criação e da subsequente castração. A castração para o saber, imposta por um suposto deus que supostamente tudo comanda e tudo vê.


Mas ainda assim, retorna a pergunta: onde está o anticristo?! Ele ou Ela?! Talvez nenhum dos dois. Talvez para entender o anticristo seja preciso entender o Cristo, ou, o que, no imaginário cristão, se convencionou associar ao personagem Cristo. Talvez retomar um pouco do conteúdo do livro O Assassinato de Cristo, de Wilhem Reich, onde ele discorre sobre o desamor ou o esforço por destruir  a vida viva na civilização. Podemos também, utilizar a dualidade pulsional da psicanálise freudiana, e associar definitivamente o anticristo à pulsão de morte. Pulsão que se impõe definitivamente a partir dos desencontros entre a negligência do profissional e a loucura da esposa.


A cena final é uma ode à pulsão de morte, numa alusão clara às fogueiras da inquisição, promovidas em nome do suposto Cristo para a glória do Anticristo. Nesse sentido, os personagens são apenas joguetes no tabuleiro de guerra entre o Cristo e o Anticristo, ou as pulsões de vida e a pulsão de morte. A ligação e o desligamento, o amor e a violência para além da loucura e da negligência, o descaso, para demonstrar a metapsicologia determina nossas ações e nos comanda para além de toda e qualquer racionalidade. 


Bem, a meu ver, a escolha do filme para ilustrar um texto ótimo sobre machismo e feminicídio foi extremamente equivocado, pois, apesar de um desses elementos estar presente no filme, não é disso que o filme trata. O filme é extremamente profundo e não foi tratado com o devido cuidado na relação com o tema.


E, a partir disso, só posso imaginar que a questão identitária, de grande importância para os processos de desenvolvimento humano e inclusão, mas que tem se perdido nas teias do pensamento neoliberal, está por trás desse desentendimento cruel.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política

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