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quinta-feira, 29 de agosto de 2024

O FILME A HORA DA ESTRELA – UMA ANÁLISE DO CONTEÚDO LISPECTORIANO

 

𝄞Alagoas, estrela radioosa...♪

O filme A Hora da Estrela, de 1985, baseado no último e único livro factual da obra de Clarice Lispector, nos traz uma crítica social contundente, que poderia servir muito bem para qualquer lugar sob o domínio econômico e castrador do capital, mas que retrata de forma absoluta a relação do povo com a cultura, a dominação do corpo e a impossibilidade da alma intelectual, na região onde nasci – Alagoas. 

Sim, A Hora da Estrela trata da dor existencial e do destino de uma alagoana pobre que migra para a cidade do Rio de Janeiro em busca de futuro, embora seu destino já estivesse traçado nas relações deletérias que a construíram na Terra dos Marechais. Quando Clarice publicou A Hora da Estrela, já estava doente e veio a falecer mais ou menos uns três meses após o seu lançamento. Clarice é Macabéa? Pode ser, não há obra sem seu autor e, consequentemente, numa simbiose perfeita, não há autor sem a sua obra. 

Clarice pode ser considerada um pouco alagoana, como Macabéa. Ela nasceu nos idos de 1920, na longínqua Ukrânia, de família judia, que precisou emigrar, e veio aportar no Brasil, devido a conflitos civis na sua região de origem. Sua primeira parada em território nacional foi em Alagoas, onde chegou aos dois anos de idade, e onde sua família foi recebida por parentes que já se encontravam naquela localidade. Ali a família permaneceu por três anos, onde seu pai trabalhou, fez novos registros civis para as filhas, com mudança do nome de Clarice, que antes se chamava Haya. Desentendimentos com os familiares fizeram a família emigrar de Maceió para o Recife, onde ela permaneceu até os seus 15 anos, quando emigrou mais uma vez com seu pai para o Rio de Janeiro, onde permaneceu até o fim de sua vida. 

Clarice é ou não Macabéa?! O nome Macabéa está relacionado aos judeus macabéus, que em um determinado período da história ocuparam Jerusalém. Teria Macabéa este nome por conta da origem judaica de Clarice?! Pouco importa, pois Clarice foi um presente de valor incomensurável para o Brasil, por sua inteligência e pelo conjunto de sua obra. Macabéa/Clarice ou Clarice/Macabéa mostrou de forma contundente e definitiva, embora com muita sutileza, os efeitos de uma cultura coronelística e perversa, que despreza a intelectualidade, afastando como Medusa seus intelectuais, que glorifica a folia vazia e administra os corpos de seu povo para a servidão abnegada e rasteira. 

Como um observador nato, - herança de meu pai poeta! - identifiquei imediatamente em Macabéa o povo bom e servil de minha terra, que a todos, com uma condição econômica um pouco melhor, chama de doutor. Porque este também é um traço da elite dominante, que entre seus pares, faz questão de colocar um Dr na frente do nome. Isso também traz a minha memória um episódio com meu avô paterno: Um dia fui pedir a bênção a ele, coisa que fazíamos naturalmente obrigados, e ele, cego depois de uma cirurgia de catarata malsucedida, me pergunta se eu era o doutor, provavelmente me confundido com meu irmão, que se formou em direito. Para ele só a medicina, o direito e a engenharia eram profissões dignas de reverência. Ele tem quatro netos médicos e dois advogados...os outros são apenas os outros. Eu respondi a ele que eu era o Sérgio, e ouvi: Ah, é o Sérgio! Não sei se consigo traduzir aqui todo o escárnio daquela fala... 

Tenho amigos, - grandes amigos, por sinal! - que até sofrem com os efeitos dessa cultura nefasta, dominadora e excludente, e que sempre disseram desejar emigrar, mas não o fizeram até hoje, e talvez jamais o façam. Mas por quê?! Talvez aqui possamos voltar a Macabéa, já que a origem e as necessidades que nela há, não estão presentes neles. Às vezes, ser alguém, mesmo por meio do massacre e da injúria, pode ser bom, coloca o injuriado e o massacrado em lugar de destaque, que, como já vimos, é de importância suprema na cultura alagoana. Ademais, além de nenhum deles passar fome, sobrevive-se da história do sobrenome. Essa é outra questão que me traz lembranças do meu núcleo familiar, lembro bem das conversas na casa de meus avós paternos. Eu não lembro de outro assunto que não girasse em torno das desagradáveis e entediantes histórias sobre propriedades e parentescos. Ah, havia um outro, mas menos frequente, embora contundente quando vinha à tona: o preconceito contra negros. 

Macabéa traduz muito bem o povão subserviente e servil que tão bem conheci nos antigos alagados do sul, nas fazendas, nas favelas e nas ruas de Maceió, junto da gente mais humilde. A alagoana subserviente, tolhida e castrada pelo sistema, sempre pedindo desculpas...até por existir, que tem uma enorme vontade de conhecer e saber, uma sonhadora com uma dor existencial profunda, Macabéa...𝄞a estrela radiosa𝄞...radiante em seu momento sublime... E que, por fim, encontra a morte pelas mãos do mesmo sistema negligente e perverso, representado por um poder econômico na forma de um "almofadinha" e de uma estrela, marca de uma máquina Mercedes, símbolo de um poder econômico e social que a doutrinou, impossibilitou, e finalmente a atropelou, desferindo o golpe definitivo em sua vida miserável.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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Um comentário:

  1. Excelente análise da obra maravilhosa de Clarice Lispector, um vislumbre da nossa sociedade, das dores existenciais, do capitalismo que mata, da tristeza, solidão, (des)esperaças...enfim, um retrato desta gente humilde e humilhada que a todo momento se desculpa por tudo...inclusive se desculpa por existir... Uma obra fantástica e necessária, atemporal...merece muito ser visita e revisitada. Leiam, releiam, assistam o filme e analisem a genialidade de Clarice!

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