A trama conta a história de um poeta e de sua esposa, que habitam uma casa que foi reconstruída depois de um incêndio. O clima de tranquilidade e sossego, semelhante, não por coincidência, ao paraíso, termina subitamente com a achegada de um convidado totalmente inesperado.
Símbolos e metáforas se sobrepõem na trama, e é preciso ficar muito atento, pois as questões propostas são jogadas no ar, e flutuam ao sabor do discernimento e conhecimento prévios, necessários ao entendimento das metáforas. O poeta é uma representação metafórica de Deus, e seu único interesse é criar.
A esposa, que representa a virgem Maria, mas também a Mãe natureza, está submetida a um poder patriarcal avassalador e sempre é ignorada em seus apelos racionais. A humanidade, obra maior do Deus poeta, erra num ciclo de criação e destruição sob a indiferença do poeta e o desespero daquela Mãe.
A ação humana sobre a Natureza é extremamente deletéria, pondo sempre em risco o paraíso, e está traduzido no fogo e destruição, numa clara alusão à crise climática sob a qual tentamos sobreviver nos dias atuais. O olhar egoísta do poeta, que só pensa em sua obra, e na bajulação de seus visitantes, traduz seu comportamento arrogante e egocêntrico, transformando a divindade que representa em um criatura quase humana.
No mais, é possível vislumbrar trechos do texto bíblico, desde a história de Adão e Eva, do fruto proibido e a expulsão do paraíso, passando por Caim e Abel e o dilúvio, até o nascimento e morte de Jesus Cristo, culminando com a ideia da redenção dos pecados de toda aquela gente, e, diante do desespero da Mãe, o demiurgo Deus ainda tenta convencê-la a perdoar os algozes de seu filho.
Trata-se de um filme que coloca o ser humano no centro dos
desequilíbrios ambientais e da natureza, representada pela Mãe revoltada, e
pela interferência de um Deus irresponsável, um demiurgo condescendente com as
atitudes de sua estúpida criação. Para melhor acompanhar o desenrolar da trama, é importante
ter, ao menos um pouco de conhecimento, mesmo que superficial, do texto
bíblico, do velho ao novo testamento, que norteia e é o eixo central de toda a
narrativa do início ao fim.
Um filme muito inteligente e ousado, na crítica da
humanidade, onde a pulsão de morte se produz e se manifesta em diversos
momentos da história. O ápice dessa manifestação se dá na relação entre Deus, a
humanidade e o menino Jesus, o que desencadeia uma reação violenta por parte da
Mãe Maria Natureza, concluindo um ciclo e sinalizando para o recomeço de um próximo, onde a mulher é apenas um objeto, sem voz e explorada até o limite.
Esse eterno retorno ao caos sugere que a história da humanidade é feita de ciclos perversos que, recorrentemente, chegam sempre a um termo, numa continua vivência de construção e destruição. Um breve olhar na história da humanidade, com o contínuo surgimento e queda de civilizações, com os eventos cíclicos de guerras e violências dirigidas à humanidade e ao meio ambiente, confirmam o flerte permanente desta com a extinção. O movimento continuado entre vida e morte, como num bailado histórico perfeito, constituem a nossa essência, e o retorno ao inanimado, a máxima realização de gozo em nossa relação com Deus.
Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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