A Previdência Social do Brasil já é uma Instituição secular, a partir de 2024. Mas, apesar de sua importância e longevidade, agoniza diante de novos ataques de desconstituição disfarçados de modernidade.
E agoniza junto com aqueles que a fazem, seus servidores que, completamente iludidos por desejos forjados pela ideologia neoliberal capitalista, sobretudo aqueles narcísicos de inflação de autoimagem, ou aqueles bem egoístas de “comida pouca, meu pirão primeiro”, além do profundo desprezo pelo outro da diferença, caminham a passos largos para um território abissal, do qual será difícil a emersão.
A religião, nos dias que correm, está na pauta, seja enquanto sua transformação em mercadoria, fato observável nas igrejas neopentecostais, seja enquanto mecanismo de destruição étnica, com os recentes ataques genocidas do fundamentalismo judaico aos palestinos, seja enquanto mecanismo de inclusão, fruto do papado de Francisco na igreja católica, por muitos combatido. Também, clama-se em nome do divino o apaziguamento dos espíritos mais belicosos, mas vamos um pouco mais para trás, para um tempo onde reinava o paganismo e seus mitos, a religião na antiga Grécia. Vamos pedir suporte a esta religião mais antiga, vamos nos valer da sua mitologia, que sempre foi, em todas as culturas, uma forma de suporte do real da realidade. O canto da sereia é um mito daquela cultura pagã grega que, embora possa, hoje, ser associado ao canto das baleias, e talvez fosse de fato isso, o que realmente se escutava naqueles tempos, ajudou a construir o mito. Mas o canto das sereias, na mitologia grega, trata de algo que é extremamente atraente e sedutor na superfície, mas que, ao fim e ao cabo, é enganoso, perigoso ou destrutivo. Presente na Odisseia de Ulisses, o canto das sereias era um acontecimento que, segundo o mito, levava muitos marinheiros a um fim trágico, envolvidos por aquele som mavioso e sedutor. Facilmente os navios de perdiam e eram levados a pique, fazendo sucumbir toda a marujada.
Na Epopeia, Ulisses, porém, em seu retorno de Tróia, quis experimentar essa escuta para entender o poder daquele canto sem colocar, evidentemente, sua vida em risco. Pediu que os marinheiros o amarrassem ao mastro do navio, sem proteções nos ouvidos, coisa que todos usavam, e quase enlouqueceu ao ouvir e se deparar com tamanha beleza sonora. Ulisses escapou, por estar amarrado, mas comprovou o poder sem medidas daquele canto.
Trazendo o mito para nossa realidade, podemos associar o canto da sereia às saborosas ofertas do poder, hoje, e que atingem em cheio os desejos de poder econômico e social, e as muitas frustrações dos servidores da nossa Instituição, acenado com ilusões de uma capacidade econômica irreal, afastando-os do entendimento de classe, e que não se sustenta ao longo do tempo. Os objetivos não declarados, pois sempre os há, são os mais nefastos e hediondos para o servidor e a própria Instituição: desconstrução, transferência de capital público para a esfera privada e, finalmente, o abandono do servidor à própria sorte, num mato sem cachorro, ou numa selva capitalista. Afinal de contas, o servidor é levado a se crer o senhor de si, quase um autônomo, - ou por que não dizer um Deus?! - e deverá se virar no mundo da livre concorrência, coisa que já é levado a fazer internamente, mesmo sem o sentir.
É preciso que o servidor acorde urgentemente, reaja ao encantamento, arrebente a mesa, arrebente seus grilhões invisíveis, antes que seja muito tarde, antes que o canto da sereia o arraste
definitivamente para o abismo, juntamente com a Instituição e a população que
dela necessita e depende para sobreviver.
Um predador cerca a presa porque é de sua natureza, e assim é o sistema
sob o qual existimos, ele nos cerca, nos encanta, nos manipula...e não esqueçamos…assim como o sistema no qual navegamos, as sereias da mitologia eram, na verdade, terríveis demônios, devoradores de homens, com uma voz celestial, de encantar os anjos.
Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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