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terça-feira, 30 de julho de 2024

Da BANALIDADE DO MAL entre nós II

 


Em um dado momento no tempo, de um dia, um ano e um século carregado de pós-modernidade, reuniram-se pessoas e seres “enigmáticos” para discutir pontos divergentes e oportunidades de melhoria para um suposto grupo coralista. Deste momento participaram diversos atores do mundo da música.

Nesse momento, tratou-se de coisas importantes para vida da música entre nós. Tratou-se então da possibilidade de aulas de canto para quem quisesse aprimorar sua performance, numa perspectiva desenvolvimentista clara, e para aqueles que apresentassem mais dificuldades, evidentemente definidos pelo saber de um mestre; tratou-se da possibilidade de apresentações em diversos e possíveis eventos, o que implicaria em uma maior observância de questões relativas à responsabilidade, tais como pontualidade, assiduidade, seriedade, e isso parece o óbvio. Outros assuntos, menos importantes para esta análise também foram tratados, como a possibilidade de aulas de instrum,ento musical para quem tivesse esse interesse; Também a possibilidade de respeito ao estatuto vigente, sobre a eleição de dav coordenação do grupo, o que também implicaria na possibilidade de conclusão de um novo Estatuto, cuja construção havia sido iniciada há meses.

A proposição desses elemntos de discussão foi longamente tratada, anteriormente, para, segundo uma das participantes: “alinhamento de discurso”, o que pressupõe, certamente, um embate político entre grupos. Mas será?! Por conta disso, é de causar espanto declarações, durante o encontro, sobre divergências internas dentro da Instituição promotora, além de um pedido de desculpas para que os membros do grupo musical, ali presentes, não pensassem que se queria, com as propostas apresentadas, ser o “dono do Coral”. Um discurso muito estranho e esquisito, tendo em vista a insistência no alinhamento de discursos anterior ao encontro, e declarações anteriores sobre quem, de fato, promove aquele grupo musical.

Os assuntos tratados nesse encontro foram atravessados por duas questões principais: o descompromisso/dificuldades de alguns participantes e a criação de um “subgrupo suposto saber” dentro daquele grupo musical, criando claramente um “apartheid” absurdo na estrutura do mesmo, o que vai totalmente contra a ideia desenvolvimentista anteriormente proposta, e reforçando uma ode ao descompromisso para alguns que, claramente, servem a propósitos obscuros, sejam políticos ou de gozo mórbido, com clara vinculação a uma estrutura perversa, e à pulsão de morte, em seu estado quase puro.

Sim, eu, que ora produzo este texto e esta avaliação, naquele encontro satânico, fiquei boa parte do tempo calado, observando e ouvindo todas as manobras para não se chegar ao cerne das questões, ou seja, a lugar algum em relação às questões principais e relevantes, uma espécie de “detournement du sujet”, até quando me foi cobrada uma fala. Ora, uma fala de quem tenta ver além da manobra, do senso comum, do escárnio da morte...do outro, evidentemente. Mas, infelizmente, eu não poderia navegar ali de braços dados com o Real, o Imaginário e o Simbólico, então usei o reforço da proposta educacional e tentei desmontar uma armadilha criada no seio daquele momento. Eu comecei dizendo que minha sugestão, que estava na pauta da discussão, era a criação de um grupo para aprendizado de canto e técnicas vocais, onde aqueles que sentissem maiores dificuldades pudessem melhorar suas performances, treinando fora do horário de ensaio daquele grupo cantante, evidentemente. Devo dizer que minha fala foi tumultuada por uma falação paralela inimaginável, num total e absoluto desrespeito à proposta e a mim.

Questionei então... de onde surgiu esse discurso de que se queria que aqueles cantantes amadores fossem profissionais do canto? pois em momento algum isso foi falado por mim, ou por quem quer que seja, embora tenha, de fato, sido dito que foram profissionais que avaliaram mal a performance do grupo. Uma fala extremamente infeliz de avaliação de uma apresentação de Dia das Mães, onde foi usado o termo totalmente fora de contexto. Então, alguém respondeu que isso surgiu por minha culpa, pelas críticas que foram feitas por mim (forma e conteúdo) sobre a tal apresentação de dia das mães, e que, apesar de quatro pronunciamentos desfavoráveis, inclusive o do mestre, apenas o meu pronunciamento parece ter gerado certa “revolta” por, supostamente, ter sido mais contundente e pretensioso (isso dito nas entrelinhas). E assim, eu virei um bode...are, satanás! Vade retro!

Oriundo da área de educação, inclusive devo dizer aqui que a psicanálise pode ser considerada como tal, pois o que produz a clínica nada mais é que um processo de aprendizagem, aprendizagem de si, e aprendizagem das relações com o meio. Acredito que nesse processo, e que se refere à própria relação humana, há momentos de elogiar e de criticar, evidentemente em um processo dialógico necessário, para citar o mestre Paulo Freire. Não acredito absolutamente na divisão criada, e essa é mais uma que lembramos aqui, sabe-se lá por qual espírito de porco, entre “críticas construtivas e críticas destrutivas”. Críticas são críticas, são sempre válidas, sejam elas da forma que forem, a não ser que sejam ataques, mas, e isso é o mais importante, críticas demandam reflexão e não melindres. Só não reflete sobre críticas quem tem alguma dificuldade psíquica de encarar o espelho, de se ver cara-a-cara. E nesse aspecto o casamento entre “o estilo “laissez-faire” e a ilusão da mentira”, do cego que se acerca do mito e vai, é perfeito.

Então, como essa pessoa oriunda da área de educação, tendo como norte a educação libertadora, em momento algum, e aqui abro espaço para pedir desculpas a quem “desavisadamente” se sentiu ofendido com minhas ações e falas, jamais busquei denegrir ou diminuir quem quer que seja, e sempre tive como norte o desenvolvimento humano, e o estímulo à manutenção da vida, em qualquer idade, o que significa manter aceso o desejo de saber. Esse é o cerne de minha formação profissional.

Mas há indivíduos que não pensam e não agem assim, que são movidos por suas próprias questões psicológicas. Que precisam manter alguns zumbis, seres semimortos como aqueles zumbis da seita Vodu, do Tahiti, para seu próprio gozo mórbido. Esse é o casamento perfeito entre o, supostamente, não querer aprender, não querer se desenvolver e esperar a morte, e o propiciar o gozo mórbido para uma estrutura perversa. Nesse ponto, e isso está claro para mim, me vejo isolado, já que voz dissonante e sem apoio de ninguém, - pelo menos ninguém que se pronuncie, que ouse! -, um ponto fora da curva, tacitamente convidado, diversas vezes, a me adaptar ou me adaptar...quem sabe até sair, …talvez. Nesse sentido, tenho a declarar que jamais me adaptarei à morte, antes dela mesma acontecer...e se acercar inexoravelmente de mim...sempre preferirei sair.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2024 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

segunda-feira, 29 de julho de 2024

O ESCROTO BANQUETE DO PRECONCEITO E DA IGNORÂNCIA

 

Por ocasião da abertura das Olimpíadas de Paris 2024, mais uma polêmica envolvendo a comunidade LGBTQIAP+ e etc. está em voga. Parece que não se dá mesmo sossego àqueles ou àquelas que querem fazer de suas vidas o que bem entenderem, que querem usar seus corpos da forma que mais lhes aprouver, que querem sentir em seus cus, suas bucetas, suas rolas e suas bocas as sensações que a vida lhes ensinou a descobrir. Sim, porque é uma descoberta, que passa pelo desenvolvimento da sexualidade e da libido e que, no final das contas, torna a vida humana tão diversa, atrativa e divertida. Mas há as comunidades que só produzem repressão, martírio, suicídio e morte. A dita Santa Ceia já foi reproduzida em outros contextos e com outros personagens, inclusive personagens de desenho animado, e jamais provocou indignação alguma...por que será?!

A questão é que, em ambas as obras, e em ambos os contextos, essa comunidade lgbtqiap+, e etc., está, na atualidade, contemplada pelo significado simbólico das obras, pois tem protagonizado ao longo dos últimos anos, mesmo aos trancos e barrancos, uma passagem para um possível mundo melhor de aceitação e inclusão. Mas o que não se quer dizer, e não se diz, de fato, é que a questão principal está oculta sob um véu de narrativas que, usando de preconceito para combater supostas injúrias, não diz o que realmente importa: que é o profundo preconceito à comunidade lgbtqiap+ que está, mais uma vez na baila do dia. Não importa se é o Festim de Dioniso ou a chamada Santa Ceia, o Festim lgvbtqiap+ tem o mesmíssimo sentido simbólico, qual seja o de passagem, de libertação, de comemoração. Não é a falta de conhecimento acerca da obra O Festim dos Deuses que determina o ignorante, o que determina o ignorante, é o preconceito e a incapacidade de interpretar a vida. 

Pois bem, tanto o Festim dos Deuses, um Banquete de Dioniso/Bacchu, a depender se se olha com um olhar grego ou romano, que celebra um casamento divino no Olimpo, como a Santa Ceia de Da Vinci, que retrata, segundo a tradição, o momento que antecede o assassinato de Cristo, caberiam nesta celebração LGBTQIAP+, já que em ambas as situações se comemora algum tipo de passagem com alegria. Afinal de contas o que, segundo a Bíblia, Jesus comemorava com seus discípulos era a Páscoa, um evento judaico de passagem de uma vida cativa para a liberdade. Todo o peso da morte e da culpa só foi acrescido a este evento muito depois, na construção da religião católica. Pode-se dizer que a própria morte do Cristo e sua consequente e suposta ressureição transferiram o sentido da Páscoa para os católicos, como passagem de um estado martirizante, penoso, para um estado glorioso, de gozo absoluto. A associação do significado de sua própria morte à imolação do cordeiro à deus em comemoração a esse rito de passagem é clara nas construções posteriores do catolicismo, mas no sentido de engendrar um peso maior à própria morte para mobilizar a culpa, onde podemos fazer uma associação clara com Totem e Tabu, quando um pai cuidante é assassinado e, por ser cuidante, possibilita, pela culpa, a força da Lei.

O banquete que se serve nas redes e na internet é o do ódio, do ódio à diferença, ao LGBTQIAP+ e etc. E o que este ódio revela é a incomensurável vontade de eliminar indivíduos que ousam ser da cena humana. É isto que está posto para além dessa discussão vazia sobre cristianismo/catolicismo e paganismo. O que vemos desfilar diante de nossos olhos, para muito mais além do preconceito, e da ignorância geral, é a mentira, ou a ocultação da verdade. O que desfila diante dos céus do mundo é a mentira da aceitação, travestida de uma desculpa, que, na verdade, carrega mais um preconceito, o de achar que quem não conhece a obra O Festim dos Deuses é burro, inculto. Ora, - parafraseando uma suposta fala do Cristo! - que atire a primeira pedra aquele que conhece todas as obras de arte de todos os tempos, por nome e autor! Na verdade, seriam muito mais honestos, para consigo e para com o mundo, se encampassem uma campanha para que se reabrissem todas as Instituições Totais, onde seriam encarcerados e exterminados, como já o foram outrora (?!) esses inconvenientes desviantes, diferentes, que ousam saber e se expressar com arte. É bem mais fácil enfrentar e, quem sabe, tentar educar o inimigo quando ele é, do que quando ele se oculta.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Da BANALIDADE DO MAL entre nós


O conceito cunhado por Hannah Arendt durante o julgamento de Eichmann em Jerusalém é de uma importância ímpar a compreensão da história humana. E ele não é importante apenas porque foi cunhado por Arendt, ou porque surgiu do icônico julgamento de Eichmann. Ele é importante porque, fruto de um período tenebroso da civilização, quando o genocídio, o extermínio e maldade voltada para a própria humanidade se realizou plenamente, escancara a essência dessa mesma humanidade que a Cultura tenta camuflar como forma de sobrevivência da civilização. 

O Mal, a Maldade ou a Violência Predatória da criação de Deus, escapa pelas brechas do cotidiano, e escancara a face do inferno, aquele descrito por Dante, de uma humanidade que vive, e precisa viver, pela negação. O Mal está presente o tempo inteiro e a toda hora nas ações mais simples e despretensiosas do nosso dia a dia. É companheiro inseparável do poder, este, neste caso, entendido no sentido foucaultiano, de ser circulante no meio de nós, em todas as esferas da vida. Por isso, um ser pequeno e comum, e tendo participado de tamanha maldade, produziu em Arendt a visão da mediocridade, o que a fez posicionar o mal na banalidade da vida comum. Das igrejas às organizações sindicais, dos palácios aos campos de batalha, das áreas nobres e desejadas às periferias imundas e abandonadas, o mal viceja e se torna banal. 

Seres comuns e de todos os espectros psíquicos e sociais, com especial participação daqueles estruturalmente perversos, promovem a maldade, muitas vezes tornando-se instrumentos de ideologias produzidas por um poder maior, um outro poder, catalisador, e quase sempre sem se aperceber, embora ávidos da produção de gozo. Hoje, na produção histórica contextual, o mal está a serviço do expansionismo imperialista, e da ideologia capitalista neoliberal, nascida nos idos dos anos ’70 do século passado, sistema que vive um embate entre vida e morte, mas que projeta o homem autocentrado, egoísta, narcísico e que despreza definitivamente o conhecimento, o saber e a verdade. 

Afinal de contas, não é este desprezo que acompanhamos diariamente nas discussões e nas manobras dentro do pior parlamento que jamais existiu neste nosso país, o Brasil?! Não é este desprezo que potencializa as tragédias advindas de mudanças climáticas promovidas pelo poder econômico predatório?! Não é este desprezo que também se infiltra sorrateiramente em organizações sociais e sindicais?! Um dos maiores projetos à implantação e à manutenção de uma arquitetura capitalista neoliberal é a desconstrução da educação para o povo, sobretudo relacionado àquele mais além do conhecimento, ou seja, o saber e a crítica. 

Nos dias que correm, o saber e a crítica são tratados, sobretudo pela extrema-direita, mas também por outras vertentes políticas que simpatizam com o projeto neoliberal, como inimigos da humanidade. E por qual motivo? Porque o ignorante é útil ao projeto. Porque o bobo alegre é a coisa mais fofa que existe para os desígnios da extrema-direita e seu projeto de poder. Não há, por enquanto, nenhuma escapatória, e a desqualificação da educação e do discurso do educador serve ao projeto neoliberal de produção de mão de obra semiqualificada para o capital, para compor o exército de reserva na produção de mais valia e sobrevivência de um sistema criminoso, produtor de miséria e morte, forjado à nossa imagem e semelhança. 

Em algumas áreas, organizações ditas progressistas ou de esquerda na vida civil, a desqualificação serve a alguns outros propósitos, propósitos de manutenção do status quo de algum suposto poder, embora siga a mesma lógica da direita e extrema-direita. O modus operandi stalinista, a desqualificação pública, de impor e forçar um mea culpa por um suposto saber, emerge da desistência da luta por um mundo melhor para todos. A execração pública, a desqualificação do outro com o objetivo claro de colocá-lo “em seu lugar” é um ato político, porém perverso. Para desqualificar o discurso do outro não é necessário todo o potencial de maldade que existe dentro de todos nós, é preciso apenas vincular esse discurso a uma minoria tida como insignificante, que supostamente, e capciosamente pronunciado, possui algum suposto conhecimento, o que se crê não ser a realidade de uma grande maioria que assim deve permanecer, para os propósitos e o bem-estar de um pretenso poder político e social, mas que, em verdade, um poder histérico, Falo de Deus. 

Mas se, para dita maioria, se quer servir de massa de manobra para uns e outros, numa dança macabra de sadomasoquismo e gozo, que assim o seja…nada se há de fazer. Que, apesar desse gozo, mórbido, que é o definitivo gozo de deus, os ventos continuem a soprar a suposta leveza. E assim, quase sem se sentir, atinge-se o nirvana...e, indiscriminadamente, …já estamos todos mortos!


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
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Brasil, navegando pelo REAL, IMAGINÁRIO e SIMBÓLICO

 

O Brasil supostamente real está explicitado no mapa oriundo dos resultados do censo de 2022, onde a miscigenação praticamente impera no país?! 

Aqueles que se declaram puramente indígenas estão totalmente reduzidos a pequenos espaços do imenso território nacional, ao norte. Os pretos, assim como aqueles que se declaram indígenas, estão ainda mais restritos aos rincões da Roma Negra. E aqueles que se declaram brancos ocupam parte da região sudeste e sul do país, a parte do território nacional que foi praticamente povoada pela imigração europeia tardia, entre o final do século XIX e boa parte do século XX, especialmente estimulada durante a primeira e segunda Repúblicas, para embranquecimento da população, já que mão de obra havia.

Mas, para muito além dessa imagem que se quer real, supostamente explicitada no mapa, o que isso quererá dizer?! 

Bem, o Brasil é um estranho país, onde negros se escondem, ou são escondidos, por si ou outrem, e onde ser mestiço é menos pior do que ser negro, onde cidades, como Curitiba, invisibilizam sua população negra, perseguem aqueles que eventualmente ascendem na política, e Porto Alegre tem uma prática enorme de cultos de matriz africana, mesmo sendo, segundo o mapa uma cidade praticamente branca, e estes cultos são mais presentes naquele espaço geográfico do que na cidade de Salvador, a nossa Roma Negra, mas esse dado passa bem despercebido. Mas estes são fatos pouco conhecidos ou praticamente um tabu nessas regiões. Muitos mestiços se veem brancos e muitos brancos, e isso é facilmente observável naquela região sul do país, se sentem estrangeiros residentes, se definindo pela nacionalidade estrangeira de seus antepassados migrantes e longínquos. Mas essa é uma outra história.

Ser indígena no nosso país é reviver ou renovar constantemente a invasão do território pelo império expansionista português; pelos senhores feudais das capitanias hereditárias; pelos bandeirantes mercenários e criminosos caçadores de índios; por fazendeiros latifundiários e criminosos; por governos militares assassinos ou coniventes com a matança; por grileiros e caçadores de tesouros tardios, garimpeiros modernos destruidores do meio ambiente. Uma outra opção para este segmento foi e é a secular aculturação, o abandono de suas tradições e a adequação ao sistema capitalista vigente na nação forjada pelo colonialismo, e esse foi o papel exercido pelas congregações religiosas, inicialmente os jesuítas, na aculturação dos filhos da terra, durante os primeiros passos do Brasil colônia.

A princípio, olhando aquele mapa produzido pelo censo de 2022, pode-se pensar que o projeto de branqueamento dos cidadãos brasileiros, traduzido na explicitada miscigenação, com a importação dos migrantes europeus, deu certo. Não branqueou, mas transformou o leite e o café em café com leite. Mas, contudo, não se deve esquecer que a grande miscigenação ocorreu, principalmente e sobretudo, entre portugueses, africanos e indígenas, que nos proporcionou esse nosso povo café com leite, facilmente dourável pelo sol. Os europeus importados pelo poder ao longo do tempo, continuam isolados e se isolando em suas ilhas de fantasia, a quilômetros de suas origens, e de seus destinos. Sim, este último é um fator extremamente importante para compreender certos traços culturais do sul. Mas, de acordo com o tal mapa, o genocídio indígena parece ter funcionado. De centenas de nações que dominavam o território, hoje, apenas algumas nações no norte isolado e alguns poucos indivíduos e etnias confinados em pequenos espaços regionais sobrevivem.

Você pode ser branco, mas ter em sua árvore genealógica um indígena ou um preto, assim como você pode ser um preto e ter tido um branco ou um indígena em sua árvore, e não saber, ou mesmo não querer saber. E essa é uma grande questão. Isso faz lembrar a última conversa que tive com uma senhora, minha tia, que, conversando sobre minhas pesquisas e descobertas sobre as origens da família, pronunciou: “Meu avô era português, e se encantou por uma moreninha. Não sei por que esses portugueses gostam tanto dessa gente moreninha”. E, - é de pasmar! - ela falava de sua avó paterna. Se você é mestiço, certamente você compartilha de uma mistura de raças. De qualquer forma, nada disso reflete o que simboliza para você ter ou não ter misturas de raças, pois há outros fatores importantes que interferem na sua autoimagem, e na resposta a uma simples pergunta sobre qual a sua raça. E não se pode negar a interferência deste campo simbólico na história, e os interesses que foram mobilizados em sua produção. A história é feita por homens, e homens trabalham e produzem a história a partir de seus espíritos, que por sua vez funcionam nessas três dimensões: Real, Imaginário e Simbólico. E isso é o que nos diferencia na escala filogenética.

A realidade, porém, pode não estar, ainda, associada à imagem traduzida pelo tal mapa, tendo em vista o período conturbado, de negação, da pesquisa e a subjetividade vinculada às respostas, e muito menos sustentar os significados traduzidos por essa imagem. Outras pesquisas precisariam ser efetuadas nesse sentido. A consciência da mestiçagem da maioria esmagadora, ainda não pode ser traduzida como uma consciência de um tipo nacional. A confusão identitária, vinculada a um profundo desejo de autoafirmação e ocupação dos espaços públicos, e que permeiam as ações humanas no território nacional, hoje, favorecem as cisões e os (des)entendimentos sobre si. As vinculações entre o identitarismo e a ideologia neoliberal, atreladas ao “selfmade man”, é um casamento perigoso e deletério.

“Ah, eu nasci na terra do samba de fato, um país mulato chamado Brasil” (Afrolatinô, Nei Lopes). Sim, o Brasil é um país mulato, a mistura de raças está mesmo na maior parte do território e na cara do povo, mas, e o espírito?! Ele, de fato, assumiu essa identidade mestiça?! E os que não foram miscigenados, de fato ou espiritualmente?! Talvez os dados do mapa escondam alguma coisa, alguma subjetividade simbólica, mas certamente revelam muita coisa também, resultado da nossa colonização de pilhagem e apartheid estrutural.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
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domingo, 22 de maio de 2022

O VIVARTISMO, OU O LEVANTE PERMANENTE DOS OPRIMIDOS DAS ARTES ALAGOANAS


É inadvertido ver o vivartismo, enquanto movimento, como um fracasso. Mesmo o Grupo Vivarte (1984-85), que lhe empresta o nome, e que, como qualquer movimento, teve um começo, um meio e um fim, jamais poderá ser considerado um fracasso. O Grupo Vivarte aconteceu, assim como as Mostras Alternativas  das "Cruzadas Plásticas", e/ou qualquer outro evento que busque romper a couraça do conservadorismo alagoano, porque o vivartismo viceja nas rachaduras do poder opressor. Nessa análise comparativa com a Semana de Arte Moderna de 1922, esquece-se os contextos sócio-histórico e econômico daquela e, principalmente, esquece-se do mais além, relativo a todo e qualquer movimento na civilização e cultura humanas.

E por falar em mais além, não se pode esquecer um dos eventos mais icônicos do movimento vivartista que foi o lançamento da Cruzada Plástica (catálogo amarelo) que ocupou toda a edificação do belíssimo Teatro Deodoro, no centro de Maceió. Naquele evento, ao qual estive presente, pôde-se comprovar a grandeza da organização e da produção do evento, e a sua importância para a “pacata” e taciturna capital das Alagoas. Um misto de espanto e êxtase tomou conta de todos os espectadores e espectadoras, e com certeza estou projetando minha própria visão, acostumada com as águas mornas e insossas da cultura local.

A Semana de 1922, surgida na pauliceia desvairada, onde havia e continua havendo uma grande circulação de capitais, onde os envolvidos naquele movimento pertenciam à pequena burguesia, e cujo poder local se esforçava para se antenar com o mundo exterior. Não é um dado irrelevante o fato de que determinado participante da semana de 22 não pode participar presencialmente da semana de 22 porque, na época, estava em Paris. Então, são fatos que corroboram, em certa medida, a amplitude e a abrangência da semana de 22 no Brasil.

O vivartismo, por sua vez, alagoano-caeté, e por ser caeté já nasceu assassinado, é um movimento que está para muito além da questão das artes plásticas. Pelo menos, essa é a percepção que tive na época, e que tenho ainda hoje. Eu diria até que o “fracasso” do vivartismo  é exatamente a sua vitória, porque enquanto movimento contestador de um conservadorismo radical, ele não poderia ter melhor destino, ou seja, a sua tentativa de apagamento no fio dos anos, e foram diversas tentativas, denuncia esse conservadorismo. Eu não tenho a menor dúvida, ou mesmo o menor pudor, em considerar o conservadorismo alagoano como algo tão radical, a ponto de transformar um movimento contestador, na estética de um fracasso plástico. O vivartismo é, portanto, uma denúncia radical de um conservadorismo radical que viceja naquela terra paradisíaca chamada Alagoas.

Num momento tão crucial de nosso país é interessante se pensar, não só o Vivartismo, mas todo e qualquer movimento que denuncie a opressão e o totalitarismo. Neste momento, relembramos os 200 anos de uma independência que jamais o foi de fato, ou que não nos tirou absolutamente da dependência do grande capital internacional. Tentativas houve, mas foram todas extirpadas pelo poder conservador de uma elite emocionalmente dependente do mundo exterior, e que mantem a ocupação predatória que fundou o país há 522 anos. É, portanto, uma independência bastante relativa, apesar desses 200 anos. A semana de 22, enquanto movimento contestador, que balançou toda a cultura nacional, e também está para muito além da questão das artes plásticas e da literatura, completa 100 anos, e assim como o vivartismo o foi e o é, até os dias atuais, movimento contestatório do conservadorismo.

No Brasil, hoje, vive-se um momento crucial de enfrentamento a esse conservadorismo, ou mais que isso, enfrentamento de forças neofascistas que trabalham para o embotamento da cultura, das artes, da ciência, da intelectualidade, e de qualquer pensamento libertário. E esses três eventos, que são três movimentos culturais na busca pela liberdade convergem hoje, e é de grande importância se falar e se pensar e repensar todos eles, como bandeira e como forma de enfrentamento desse conservadorismo que é destruidor de liberdade, e de qualquer movimento que aponte para a igualdade e a fraternidade, fazendo um link com os ideais burgueses trazidos pela Revolução Francesa, e que por sinal também jamais foram alcançados pela cultura humana.

O vivartismo é importante, não apenas pela sua busca de renovação nas artes plásticas, mas pelo seu enfrentamento ao conservadorismo radical que um dia dizimou os Caetés. Ele é, muito antes do chamado Grupo Vivarte, e ele será sempre, enquanto houver possibilidades de rasgos na imensa couraça produzida e mantida pela velha senhora para conservar seu status quo e sua dominação sobre os filhos da terra que, por ventura, ousarem contestá-la. Não esqueçamos que os primeiros filhos dessa velha senhora foram, todos, eliminados a mando de sua madrasta, Maria I. E que assim, inaugurou-se uma espécie de genocídio estatal, que nos remete ao mito de Chronos, que engolia seus filhos ao nascer, temendo que estes lhe tomassem o poder.

Mas, como não é possível entender qualquer ação no presente sem buscar na história suas raízes, e como já citamos o genocídio Caeté, vamos dar outro salto para trás, um salto bem grande no tempo, até os fatos que propiciaram a transformação dos alagados do sul da capitania de Pernambuco no atual Estado de Alagoas. O fato que antecedeu a emancipação do Estado de Alagoas foi um movimento revoltoso e contestatório, surgido na então Capitania de Pernambuco, contra as altas taxas de impostos cobradas pela coroa portuguesa. Pois bem, foram os latifundiários dos alagados do sul, atual localização do Estado de Alagoas, que, ao se posicionarem ao lado da coroa portuguesa, em detrimento da contestação dos revoltosos da Capitania, receberam como prêmio a sua independência e a sua emancipação daquela capitania. E assim nasceu, de direito, a partir de uma traição ao povo, a velha senhora Alagoas, cheirando a delicioso melado, ou a nauseante vinhoto no seu íntimo, ou a sargaço e sal, a depender da perspectiva com que se a mire.

Em se tratando de conservadorismo e mão de ferro da oligarquia alagoana, também não é possível esquecer que dois marechais do exército, braço armado do Estado brasileiro, oriundos da Velha Senhora, inauguraram, com um golpe de Estado militar, a nossa República, e que a partir de então, esse braço armado tem, há pelo menos 133 anos, ora assumido o protagonismo de nossa “democracia”, ora tutelado a mesma. Mão de ferro alagoana que se fez presente no sul do país, quando para “mostrar quem manda”, Floriano Peixoto renomeou a Vila de Nossa Senhora do Desterro em Florianópolis, após abafar uma revolta local. Mas a resposta ao ditador veio muito tempo depois de forma artística e floral, quando se começou a chamar extraoficialmente a “sua” cidade de Floripa. Tenho absoluta certeza de que Floriano, o chamado marechal de ferro, não aprovaria esse apelido para si.

O texto em questão nos traz bastante curiosidades, algumas inéditas para mim, sobre este alagoano que não é apenas um contestador, nem mesmo apenas um anatomista, mas um corajoso e atento observador da fisiologia do conservadorismo local, conservadorismo esse que se renova a cada dia para que as coisas permaneçam sempre as mesmas. Conservadorismo radical, onde as mudanças, por mais relevantes que possam ser, continuem sendo fracassadas, e onde o mesmo poder econômico opressor seja, mesmo que não seja mais. Ou pior ainda, que seus representantes sejam sem jamais ter sido.

Imagem: Foto de uma representação pictórica Grupo Vivarte (1984-85) reunido, produzida em 1985-86 (?), por Maria Amélia Viera, líder do grupo. O crédito desta foto é de Celso Brandão. A técnica do quadro é mista: acrílica s/papel e colagem.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

PENSANDO DIREITOS HUMANOS




A partir do 1º Ciclo de Cinema e Direitos Humanos 
 
O filme Negação, do diretor Mick Jackson, de 2016, o primeiro do Ciclo, e que versa sobre liberdade de expressão, aprofunda a discussão sobre a liberdade do indivíduo expressar suas opiniões, e traz uma reflexão importante sobre a sustentação da verdade, fundamentada ou não em provas. Poderíamos então nos perguntar, a partir da proposta do filme, o que seria, de fato, a verdade, sem uma prova que a sustente?! Uma verdade sem sustentação probatória escapa inexoravelmente ao campo da verdade, passando a vigorar no campo da fé.

A trama gira em torno de um processo aberto por um suposto historiador, que, de forma leviana, sem provas e movido por sua paixão pelo nacional socialismo alemão, nega a existência do holocausto, contra uma jornalista que o denuncia em seu livro. À medida em que se desenrola a trama, percebe-se a atualidade dos fatos levantados e a relação com os eventos vividos no Brasil e no mundo, na atualidade globalizada.

No Brasil dos últimos tempos, vivemos em um mundo anacrônico e desconectado da relaidade tangível, com a instauração de processos kafkianos de viés político patrocinados pela Justiça, e tentativas de encobrimento dos crimes e dos criminosos que vicejaram durante o período da ditadura militar entre '64 e '85.

Na esteira dessa profunda negação da verdade, presenciamos o nascer de processos sociais que buscam relativizar as desumanidades, praticadas ao longo de nossa história, passada e recente, promovidas contra grupos étnicos específicos de concidadãos, e uma perseguição implacável a indivíduos com orientação sexual diversa da norma em nosso meio. Neste país, definitivamente contaminado por um fundamentalismo pentecostal, sustentado por um pensamento conservador de ultra direita, vivemos uma situação de negação absoluta da intelectualidade, do pensamento crítico, das luzes, e da verdade empiricamente fundamentada.

No momento em que vivemos um processo generalizado de disseminação de fake news, com profunda interferência nos processos democráticos, e tentativas de revisão de diversos fatos históricos, com o objetivo de encobrir graves crimes contra a humanidade, o filme parece bastante atual, e de grande relevância para o pensar dos rumos que tomaremos daqui para frente em nossa conturbada civilização.


O segundo filme apresentado no 1º Ciclo de Cinema e Direitos Humanos, As Sufragistas, de 2015, da diretora Sarah Gavron, trata do movimento de mulheres na Inglaterra nos momentos iniciais do século XX, pelo direito ao voto.

No desenrolar da trama, que gira em torno do gradativo envolvimento da personagem Maud, é possível perceber a condição da mulher naquela época, sem direitos, sem voz e completamente subserviente ao homem, seja em casa, onde exerce uma segunda jornada de trabalho e não tem direito legal sobre os filhos, ou no trabalho, com salários menores que os dos homens, jornada bem maior e muito mais exaustiva e assédio de todos os tipos.
O acesso ao direito do voto, como claramente propõe a personagem principal em uma de suas falas, é a possibilidade de, pelo voto, mudar a Lei, favorecendo a busca de igualdade de direitos entre os gêneros, em uma sociedade naturalmente machista e excludente. Aliás, uma situação que, apesar de alguns avanços dos direitos humanos, permanece inalterada em algumas sociedades dos dias atuais. E mesmo onde há avanços, há uma constante disputa e convivência morna com o machismo e o patriarcado.

Algo que fica evidente no filme é que, apesar da luta empedernida das mulheres pelo direito ao voto, a cultura machista da época, e a desonestidade que alimenta a política, são um entrave ao sucesso de suas reivindicações. Apenas quando há um suicídio diante do mundo, em um evento onde participa o próprio rei, as coisas começam a mudar e, gradativamente, a luta se espalha por outras nações, com consequente vitória das mulheres.

Nos dias atuais, quando há um avanço de forças conservadoras em todo o Globo, com a vitória da extrema direita em alguns países, inclusive no Brasil, essa é um discussão necessária e extremamente importante. No Brasil a extrema direita ascendeu ao poder, pelo voto, com um discurso violento, racista, homofóbico e misógino. Acende-se assim um grande alerta da importância da discussão de temas como este, que balizam em todo o sempre a questão da democracia e do exercício da cidadania.



O terceiro e último filme apresentado no 1º Ciclo de Cinema e Direitos Humanos, Milk, do diretor Gus Van San, trata dos problema enfrentados pelas pessoas LGBTs, e a busca por Direitos que garantam a sua existência como pessoa e cidadãos. Ele narra a trajetória do ativista Milk, que ascende em suas ações pelos direitos da comunidade LGBT, tornando-se o primeiro homossexual assumido eleito para um cargo público na California. Milk é assassinado por sua defesa dos direitos LGBT.

O filme mostra o nascimento de um espaço de expressão que, pouco a pouco, entra em choque com forças retrógradas, numa formação de reação contra a liberdade de expressão e o direito à existência de um determinado segmento social. É exatamente um filme para pensar o direito de ser em uma sociedade, plural em sua essência, mas que insiste em esconder essa pluralidade.

A homossexualidade é uma característica humana, muitas vezes também encontrada nos animais não pensantes, e que pode ser observada na civilização, em formas de expressão diversas, ao longo da história da humanidade.

O processo repressivo observado e combatido na modernidade, tem suas raízes no advento da igreja católica, apostólica e romana, e na idade média. Parece que o paganismo, até por conta da pluralidade de deuses que ostenta em seu Panthéon, era perfeitamente tolerante com a pluralidade de expressões do desejo humano. O monoteísmo transformou essa visão plural, típica da visão politeista, em uma visão monocular que vê o mundo e sua pluralidade natural de forma míope, algo estranho a ser combatido.

A idade das luzes trouxe uma abertura, pela via da ciência, para uma nova visão, em contraponto ao obscurantismo da igreja católica e da idade média. A partir do século XIX, e ao longo do século XX, as luzes buscaram clarear e entender a alma humana, e muitas lutas foram travadas pela afirmação de direitos de diversos segmentos, destituídos, e muitas vezes alijados, de seus direitos civis e de cidadania.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

PENSANDO DIREITOS HUMANOS


A PARTIR DO 3º CICLO DE CINEMA E DIREITOS HUMANOS
 
A película Utopia e Barbárie, de Sílvio Tendler, de 2009, apesar de um pouco cansativa, pela quantidade de informação condensada na obra, traça um enorme e profundo panorama, dentro do que é possível no contexto de um filme, da luta entre forças antagônicas, que permearam a história da humanidade desde sempre. O filme nos traz, por meio de relatos de artistas, protagonistas dos diveros eventos e cineastas, recortes cinematográficos e observações do próprio diretor sobre a disseminação da barbárie e das chamadas utopias que a ela se contrapõem.

Eventos como a segunda guerra mundial e os crimes de Hitler; a revolução russa e os crimes de Stálin; a revolução cultural na China e o seu desmascaramento, expondo os crimes de Mao; a guerra no Vietnam e a resistência ao imperialismo norteamericano; a guerra do Japão contra a Coreia e a sua consequente divisão em dois mundos; os golpes na América Latina (Argentina, Brasil, Chile e Uruguay) e a carnificina dos regimes totalitários; as revoluções em Cuba, pela força, e no Chile, pelo voto, e as ofensivas brutais do capital com vistas à sua destruição; a resistência utópica dos eventos de maio de '68, na busca pela liberadade e libertação dos costumes; os conflitos no Oriente Médio e o genocídio do povo palestino; a redemocratização na América do Sul, trazendo de volta a esperança em dias melhores; a desconstrução do bloco soviético e o demonte de um sistema opressivo no qual se converteu a revolução de '17, e, finalmente, o avanço livre do capital sobre as nações são alguns eventos que deixam em aberto uma reflexão para além das relações políticas e econômicas na humanidade.

Imediatamente, a partir da exposição dos conflitos e lutas políticas travadas na civilização durante o século XX, e no período que compreende a segunda guerra mundial e a primeira década do século XXI, o espectador é transportado para uma obra clássica da psicanálise, qual seja: O Mal Estar na Civilização, de Sigmund Freud. Durante o filme, tem-se a sensação de estar relendo aquele texto em outro contexto ou corte histórico, tendo em vista o desaparecimento de Freud no início da segunda guerra, em 1939.

A abertura do debate, com a pergunta da professora Rosane Kaminski sobre possíveis formas de resolução do impasse entre utopia e barbárie, nos leva de volta ao texto freudiano acima citado e a um outro texto que lhe é complementar, qual seja: Além do Princípio do Prazer. Ora, ambos os textos nos dizem de uma luta perene na civilização entre essas forças que compoem a dualidade pulsional humana, segundo o pensamento freudiano. E o próprio filme, que se encerra com reticências nos diz dessa perenidade.

E essa perenidade, essa continuidade da luta travada entre a vida e a morte, o bem e o mal, ou utopia e barbárie, está inscrita no momento histórico atual, tanto no Brasil como em todo o mundo. Por toda parte há uma ascensão expressiva do fenômeno fascista, exigindo uma mobilização das chamadas utopias, que urgem se reinventar e se reorganizar, para se contrapor a ele e preservar a continuidade da civilização.

É preciso preparar o estômago para vislumbrar a macabra obra humana, há cenas fortes da obra nazifascista, sem perder de vista que estamos falando do maior predador que jamais existiu, a obra mais destrutiva jamais criada pela natureza, ou por deus, como queiram. São os ciclos de luta intestina da nossa civilização, que se repetem em uma disputa violenta, por vezes até poética, de amor e ódio que, a meu ver, estão representadas nas reticências com que Sílvio Tendler encerra a sua obra.
 
No segundo encontro do 3º Ciclo de Cinema e Direitos Humanos nos foi apresentada a película Ação entre Amigos, do diretor Beto Brant, de 1998, que, ao final, provocou um silêncio sepulcral em toda a audiência. O filme que traz a história de três amigos que nos anos de chumbo (final dos anos sessenta, década de setenta e início dos oitenta) participaram da resistência à ditadura militar, nos coloca uma questão que vai muito além do resgate histórico produzido pela Comissão da Verdade durante os governos petistas, e que é uma questão crucial para o entendimento dos dias atuais no Brasil.

A ação entre os amigos se dá após um dos quatro companheiros descobrir que o torturador e assassino do regime, que os havia torturado e assassinado a companheira de um deles, permanecia vivo, apesar da divulgação de sua morte em um acidente aéreo. A ação de acerto de contas, de vingança mesmo, se torna uma tragédia que não apenas ceifa a vida do velho torturador, mas também a de dois componentes do grupo, a prisão de um deles e o aumento da tortura psicológica do último que, provavelmente, também seria preso por participação no evento.

Além de trazer um ralo panorama sobre aqueles eventos trágicos que fizeram parte de um período sombrio da história nacional, por meio da história de vida daqueles amigos que se apresenta alternadamente entre os dias atuais e flashbacks de memória daquele período por eles vividos, o filme nos traz, de maneira sutil, os efeitos deletérios da anistia ampla e irrestrita acordada com as elites no momento da "redemocratização" do país. A Ação se converte assim em uma resposta ao que ficou aberto, inconcluso, não resolvido, ou seja, a não criminalização e punição objetiva aos crimes e criminosos da ditadura militar.

O debate que se seguiu, com o professor doutor Rodrigo Czajka, do DECISO/UFPR, trouxe muitas perguntas sobre o momento dramático vivido no Brasil atual, com a ascensão do fascismo e o apoio de boa parte da população à repressão, à eliminação do diferente, e ao autoritarismo. O Brasil atual é um campo fértil para a ascensão de um regime totalitário, de viés civil ou militar, haja vista as condições plantadas pela direita a partir dos eventos de 2013, e do golpe de 2016, com o objetivo de implantação de seu projeto político-econômico neoliberal.

Hoje, no Brasil, o programa de governo ou projeto de nação mais bem cotado nas pesquisas para ascender ao poder é um não-programa ou um não-projeto, sustentado nas entrelinhas na continuidade do projeto econômico golpista, e objetivamente apenas em discurso de ódio aos negros, aos índios, às mulheres, aos homossexuais, aos pobres e à diferença. Ora, a não punição aos crimes e criminosos de um regime ditatorial sangrento, como o regime e a ditadura militar vivenciado pelo Brasil entre '64 e '85, relativisa a sua ação criminosa, escancarando as portas para o seu retorno, tutelado ou não pela força militar, mas certamente tutelado pela população deseducada.

Recentemente, o consórcio criminoso firmado entre as bancadas da Bala, do Biblia e do Boi, recebeu elogios de um antigo diretor da organização racista e criminosa Ku Klux Klan, mas também alertas de provável rompimento com a Alemanha e, consequentemente, a União Europeia. Para aqueles que apostam no “novo”, não deixa de ser uma novidade a União de uma ultra direita fascista, com tempero tupiniquim, com o um projeto econômico ultra neoliberal. Aqueles que sobreviverem poderão avaliar o resultado de uma aventura tão perigosa...
 
O terceiro encontro do 3º Ciclo de Cinema e Direitos Humanos, que trouxe o documentário Memória para Uso Diário, com direção de Beth Formaggini, foi um grito e um apelo ao bom senso. O documentário traz uma série de depoimentos de pessoas que vivenciaram os horrores da ditadura militar no Brasil, e a busca por desaparecidos e reparação dos crimes perpetrados por aquele regime sanguinário, que assombrou e continua assombrando o Brasil até os dias atuais. O filme mescla depoimentos sobre os crimes cometidos pela ditadura e crimes cometidos pela polícia do estado democrático, guardiã do status quo e do poderio econômico, deixando claro que a prática de extermínio do oponente, ou do Outro, é uma prática que se perpetuou nos sistemas de repressão do estado, mesmo durante a chamada Nova República.

O debate nos trouxe fatos estarrecedores sobre o período do regime militar e da ditadura, provocado pelo doutor Olympio de Sá Sotto Maior Neto, do MPPR que provocou a audiência para um debate acalorado, carregado de afetos e apelos ao bom senso, tendo em vista o momento ímpar de nossa história política, às vésperas de uma eleição que pode colocar um nazifascista na presidência da República. Um dado extremamente estarrecedor, trazido durante o debate, foi a prática genocida, perpetrada no período ditadura militar, contra a nação índigena Xetá, para roubo de terra e favorecimento de grupo econômico. Boa parte da nação Xetá foi dizimada. Os índios eram levados em caminhões e desapareciam, aqueles que não aceitavam ser levados eram fuzilados e, perversamente, aos que ficaram para trás, foi fornecido alimento invenenado. E isso só tem um nome: genocídio! Além dos depoimentos sobre os centros de tortura no Paraná, dos quais o mais notório se encontrava em Foz do Iguaçu, soubesse também que pequenos fazendeiros também foram presos e torturados naquele período. Ou seja, a ditadura não apenas matou seus oponentes políticos, torturou e matou também aqueles que, de uma forma ou de outra, atrapalhavam os planos financeiros e econômicos de uma elite atrasada e selvagem.

O período de transição da ditadura militar para o regime democrático foi coroado com acordos obscuros de proteção aos criminosos daquele regime e de favorecimento das elites econômicas e corruptas que compuseram com o regime de exceção. A constituição de '88, que trouxe alguns avanços no campo social, jamais foi, de fato, respeitada pelos governos que se seguiram, como parte do acordo firmado para o fim da ditadura, que permaneceu ativa em suas formas repressivas, ligadas ao aparelho de estado. Quando ascendeu ao poder um governo de esquerda no país, que para tanto migrou para o centro, e tentou implementar o mínimo do que era previsto no texto constitucional, as elites se sublevaram, promovendo o golpe parlamentar de 2016, e trazendo de volta a sombra da ditadura militar, na figura do candidato de ultra direita que se apresenta como favorito nas eleições de 2018.

Sobre o fim abstrato do regime ditatorial que vigorou oficialmente entre '64 e '85, não posso deixar de lembrar que após essa data corte, durante um movimento grevista geral, por melhores condições de trabalho, salário e atendimento à população, passamos por uma situação que não fica em nada a dever aos momentos de repressão do período oficial da ditadura militar. Juntamente com alguns colegas, - não sei precisar exatamente quantos éramos! - em um piquete na porta da garagem central de ônibus, fomos surpreendidos pelas forças de repressão que nos torturaram psicologicamente e nos mantiveram sumidos durante um certo tempo, enquanto discutiam o que iriam fazer conosco. Fomos presos por volta de 11 horas da noite e chagamos ao nosso destino por volta de 04 horas da manhã, de acordo com o horário do relógio de parede do local onde ficamos detidos. Nesse meio tempo, rodamos em camburões por estradas de terra, dentro do mato, sem ter a mínima noção de onde estávamos. A técnica de tortura psicológica era a seguinte: a uma certa altura o camburão parava no meio do mato e éramos retirados aos solavancos, ao que pensávamos: é nosso fim! Mas, na verdade, apenas éramos dirigidos a outro camburão, que continuava a louca corrida. Lembro que tive que acalmar um colega, que começou a ter falta de ar, e coloquei sua cabeça próximo às frestas do carro, pedindo que ele respirasse com calma que tudo acabaria bem. Quando finalmente chegamos ao destino, estávamos tão atordoados que não lembro até hoje onde foi que descemos. Não fomos registrados nem fichados, mas apenas encaminhados a celas individuais e imundas, após subir uma escada e colocados em celas que circundavam um átrio. Alí ficamos, sem lençóis, sem comida, sem água. Deitávamos e acordávamos para gritar pelos companheiros, com o objetivo de saber se todos permaneciam ali. Lembro-me perfeitamente da cela com cama de cimento armado, ligada à parede e do vaso quebrado e sujo, e de ratos enormes que circulavam de quando em vez, atravessando a cela. Assim ficamos por um longo período! Só fomos registrados quando, não sei como, nos descobriram e um advogado do Partido dos Trabalhadores foi nos resgatar daquele sequestro.

Uma colega de trabalho, cujo marido era delegado e participou da operação, contou-me logo depois que, enquanto estávamos presos, três delegados discutiam e divergiam sobre o que fazer conosco. Havia em pauta uma ideia de eliminação, uma de espancamento e outra de apenas registro de ocorrência, por “não estarmos mais sob a ditadura militar”. Um dos delegados era um notoriamente conhecido psicopata que, segundo um colega de faculdade que com ele trabalhava me relatou, pouco tempo depois, era uma pessoa que ficava nervoso diariamente e dizia que isso se dava porque precisava matar uma pessoa por dia para se acalmar. Algum tempo depois esse cidadão sofreu uma atentado, e morreu por ferimentos de 77 balas de fusil. Esse cidadão, no momento da prisão, levantou-me com apenas um braço apenas, pela alça do macacão que eu usava e disse para mim: isso lá é roupa de homem! E, em seguida, me jogou no camburão.

É caros amigos, o risco que corremos hoje é incomensurável! Além de perder o arremedo de democracia que nos foi permitido alcançar, e que aos poucos já vimos perdendo desde 2016, com a possível eleição de um nazifascista oriundo do exército, corremos o risco de perder definitivamente nossos direitos, inclusive o direito sagrado à própria vida...

E como, sabiamente, já anunciou o professor Vladimir Safatle, os tanques já começam a se posicionar...e as manobras de bastidores do exército pululam por toda parte, só não vê quem, infelizmente, tem menos de dois neurônios, ou realmente não quer ver...

 
No último encontro do 3º Ciclo de Cinema e Direitos Humanos, assistimos o filme Iracema: Uma transa amazônica, com direção de Jorge Bodanzki e Orlando Senna. O filme, rodado durante a década de setenta, ganhou vários prêmios internacionais e só foi liberado pela censura em 1981, por ter sido entendido como uma publicidade negativa do Brasil pela Ditadura Militar. Há um jogo interessante na trama entre a realidade cruel daqueles anos (miséria, violência, desmatamento, comércio ilegal de madeira, trabalho escravo, prostituição juvenil, alienação popular tutelada pela religião e pelo exército, invasão estrangeira) e o discurso neoliberal que começava a se fazer presente naquela época.

Pode-se dizer que os personagens centrais da trama, apesar de supostamente ocuparem campos opostos na história, fazem parte do mesmo ufanismo vigente naqueles tempos. Ambos, cada um a seu modo, foram cooptados por discursos falsos de possibilidades e sucesso. Iracema, uma adolescente que sai do mato para se encantar e desencantar com a vida “civilizada”, e Tião Brasil Grande, caminhoneiro que tenta sobreviver acreditando na máxima neoliberal, que tomava corpo naquela época, de que esforço pessoal, e apenas, isso, era a chave para o sucesso. A película traz imagens da construção da Transamazônica, uma das obras faraônicas do período da ditadura militar, alardeada à época como o caminho para o progresso da região, em meio às mazelas, reais até os dias atuais, da miséria, da desigualdade e da repressão.

A história de Iracema, uma bela mestiça da terra, é a metáfora perfeita da pátria, hoje mais que nunca, em tempos de exposição explícita de suas víceras, tão des-amada, tão des-idolatrada, desnudada em sua sina servil. Iracema era bonita e se encantava com os brilhos que a seduziam. Prostituiu-se, e por aí tentou achar uma saída para sua existência. Pegou uma carona e pensou ter, finalmente, encontrado seu rumo para o amor e uma vida melhor. Enganou-se e foi abandonada. Largada na vida, foi novamente enganada, foi jogada na estrada, foi acusada e espancada, e foi provavelmente estuprada pela repressão. Alguém tentou lhe estender a mão, mas ela acreditava no seu algoz. Acreditava que não poderia fazer nada além daquilo que já fazia, porque era burra.

Enfim, Iracema não acreditava mais em si mesma. Assim, ela foi decaindo cada vez mais, perdeu um dente, ganhou cicatrizes e nela não se via mais um fio de dignidade. Reencontrou aquele que lhe havia jogado na estrada pela primeira vez, que a despeito da própria miséria ainda acreditava no sucesso pessoal, no esforço que constrói o futuro do pobre, e que lhe incutiu na cabeça a ideia de sua burrice. Reconheceram-se e ela quis mais uma vez seguir com ele, que a desdenhou. Ela lhe pediu dinheiro que ele negou, e seguiu em frente, com seu esforço na busca de um sucesso que jamais chegará. Iracema, na beira da estrada, o xingou muitas vezes...e riu, riu de simesma, do caminhoneiro e do Brasil.

Sim, Iracema é uma metáfora mais que perfeita de uma terra e de uma gente maltratada, humilhada, enganada, controlada e violentada tantas e tantas vezes, e que não acredita em si mesma, mas que vai se virando pela vida. Toda essa gente vai seguindo como pode, recorrendo sempre ao algoz, e rindo, rindo muito de si mesma...e elegendo Projetos que dão continuidade à desconstrução do Estado, da Seguridade Social, da Educação Pública, que rejeita a intelectualidade, acrescido de Violência contra as chamadas minorias, os Movimentos Sociais e os Trabalhadores.

Triste Brasil!


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
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