Muito
se ouve falar desse desejo legítimo, de boa parte do proletariado estatal em
função de galgar degraus na hierarquia proletária do Estado. - Sim, é sempre
legítimo querer crescer e ter uma carreira valorizada! -, mas pouco se sabe, ou
se fala, ou se compreende a Estrutura dos tipos de Estado. Tentarei ser o mais
sucinto possível nesse meu raciocínio. Até porque a misologia, uma espécie de
fobia à ciência e à intelectualidade, é a tônica do nosso momento.
Mas
algumas questões insistem em se fazer ouvir, como uma espécie de retorno do
recalcado, mesmo que não sejam, ao menos por alguns, absolutamente ouvidas.
Aqueles que gritam por uma carreira de Estado sabem o que, de fato, é uma
carreira de Estado? Ou melhor ainda, e isso seria uma base importante para a
compreensão do que seria a dita carreira de estado, sabe-se, de fato, o que é
Estado? Ou de qual Estado estamos falando? Um ponto de extrema importância,
para início de conversa é saber que Estado e Governo não são a mesma coisa. O
Estado é relativamente perene, e o Governo é habitualmente temporário. O
Governo é aquela estrutura temporária que gere o Estado, a economia e a vida
dos cidadãos.
Pois
bem, para entendermos a diferença no Estado, vamos fazer uma analogia com a
língua, para tentar um melhor entendimento do que seria Estado. Na língua
existe sempre uma língua “standard”, ou padrão, que é a base para todas as
linguagens dentro de um mesmo universo linguístico, ou seja: as línguas faladas
pelas diversas tribos dentro de um universo linguístico básico que aqui chamei
de “standard”. Com o Estado, como forma de organização social de condução da
civilização não é diferente. Há o estado com suas estruturas básicas que
promovem e controlam o funcionamento da sociedade, e os diversos tipos de
estado que são acréscimos àquela estrutura e que respondem às necessidades no
tempo.
Para
ficar claro, vamos utilizar como exemplo do acima exposto o Estado Liberal,
surgido a partir dos movimentos do século XVIII e XIX, e o chamado Estado de
Bem-Estar Social, surgido nos idos do Século XX, sendo este último um acréscimo
dentro do Estado Liberal, como na analogia com a língua acima. Ora, o Estado de
Bem-Estar Social, ou das Políticas Públicas, foi um arranjo do Capital para
fazer face a um outro tipo de Estado surgido no início do século XX, qual seja
o Estado “Comunista”, ou mais especificamente o Estado forjado pelo bloco das
Repúblicas Socialistas Soviéticas. Este tipo de Estado, surgido após a quebra
da bolsa de Nova Yorque em 1929, e a consequente depressão, trouxe algumas
ideias para minimizar os efeitos nefastos do Estado Liberal sobre a massa
excluída e trabalhadora que vivia à margem da sociedade, apartada de todo e
qualquer benefício que o poder do dinheiro proporcionava aos donos dos meios de
produção, por isso convencionou-se chamá-lo de Estado de Bem-Estar Social, ou
“Welfare State”, na sua nomenclatura em inglês. O bem-estar social idealizado,
principalmente por Keynes, se traduz nas políticas públicas, no seguro social,
na seguridade social (Saúde, Assistência e Vigilância), na educação pública,
nas Leis de proteção ao trabalho e ao trabalhador. Enfim, o Estado de Bem-Estar
é um plus, ou uma outra linguagem, dentro da estrutura do Estado Standard.
Pensar
uma carreira “típica de Estado”, puramente, é pensar numa carreira dentro do
Estado como uma estrutura standard, ou seja, é pensar numa carreira sem a qual
o Estado Standard não poderia funcionar. É claro que se pode pensar em uma
carreira típica do Estado de Bem-Estar, mas aí não estaremos mais falando de
uma carreira típica de Estado, mas numa carreira típica de um tipo de Estado,
ou de um arranjo dentro do Estado. Digo arranjo pois o bem-estar social
foi uma tentativa de encantamento do povo, contra a possibilidade de
distribuição de renda e bens prometidos pelo bloco soviético. Não se deve
absolutamente acreditar na humanidade de um sistema racionalmente predatório
como o sistema capitalista. Aliás, o próprio humanismo é um encantamento, mas
esta seria uma outra discussão.
Bem,
não podemos deixar de falar de mais um tipo de Estado, que vem galgando espaço,
e causando muitos estragos para os menos favorecidos, desde a década de 70 do
século passado, o Estado Neoliberal. Como o próprio nome indica, o Estado
Neoliberal tenta um retorno ao Estado Liberal, ou seja, ao Estado onde manda
quem pode e obedece quem quer sobreviver sem nenhum direito. E não é nenhuma
coincidência que seu avanço tenha estreita ligação com a derrocada do bloco
soviético. A partir de tal derrocada, o Bem-Estar Social perdeu o sentido para
a economia burguesa, e sua função tornou-se obsoleta para o sistema
capitalista, hoje hegemônico em relação à economia do planeta.
Essa gestação do monstro institucional teve início há bastante tempo, mais precisamente nos idos dos anos ‘90 do século passado, quando a administração pública, no governo de FHC, trouxe para dentro da administração pública conceitos e práticas da administração privada. A ideia, segundo Bresser-Pereira, à época, era trazer o gerenciamento privado para a administração pública a fim de evitar a privatização, tendo em vista que o neoliberalismo tentava a todo custo desconstruir o Estado de Bem-Estar Social naquele tempo, e que persiste até os dias atuais. Mas é óbvio que isso não daria certo, tendo em vista as naturezas e finalidades distintas das duas administrações. E o que se aprofundou na administração pública foi a cisão esquizofrênica que já existia entre meio e finalidade na Instituição. A captação externa de indivíduos antenados com a modernidade tecnológica, porém sem nenhum vínculo efetivo, ético e intelectual, com a finalidade sociopolítica da mesma, acrescentou a este erro administrativo o tempero que faltava para chegarmos onde chegamos. Nessa esteira de desatinos, muitos de nós enganaram, e se enganaram ao serem enganados, alimentando o terreno para gerir esse Frankenstein com o qual nos deparamos hoje. Muitos foram arregimentados e ludibriados pelo glamour do espetáculo, que insiste em se repetir como farsa de uma mudança renovada. O tempo líquido das relações humanas, a aporofobia e o narcisismo, que animam o espetáculo da atualidade, completam a “Guernica” institucional, da qual nos custa vislumbrar uma saída.
Voltando
à questão da “carreira típica de estado, e não a carreira típica do estado”. É
muito pouco provável que qualquer governo que faça a gestão do capital,
sobretudo em um momento de desmonte dessa linguagem do Bem-Estar, ou mesmo que
queira conservá-la, transforme uma carreira que é típica de uma linguagem
dentro do estado standard, ou de um tipo de Estado, em carreira típica de Estado.
Mas que bom seria se fosse possível, pois estaria transformando uma linguagem
em uma estrutura standard permanente. Mas, infelizmente, isso não passa de uma
ilusão, que entenderíamos o sentido se procurássemos compreender a estrutura
predatória do sistema, e as estruturas típicas do Estado. Mas, infelizmente, nesse
ponto, parece que a misologia entra em ação. Como disse Freud em Psicologia das
Massas e Análise do Eu, a massa segue um líder em busca de ilusões. A massa é
acéfala e, portanto, é completamente estúpida.
E
há um movimento forte de arrebatamento para esta ilusão, e disso sobrevêm mais
uma questão importante: a quem interessa criar tais ilusões? É pura falta de
entendimento ou má fé? Talvez nem uma coisa nem outra, talvez seja apenas uma
disputa por espaços de poder, utilizando-se da ingenuidade de alguns e,
obviamente, do narcisismo exacerbado e da falta absoluta de consciência de
classe. Talvez também acreditem na ilusão, por pura misologia. Aliás, falta de
consciência que propaga a exclusão do outro, e propicia a miopia diante da
letra legal. Mas, é um jogo muito arriscado, pois não se consegue iludir alguém
o tempo todo e para sempre. E o preço a se pagar por construir ilusões pode ser
muito alto para todas e todos.
Mas
o que nos faz iludidos? Essa questão pode ser respondida de forma simples, mas ela
é bastante complexa, pois envolve a nossa construção mental, que não é nova,
que tem a nossa idade, e tem a idade do tempo. Mas o iludido vê na figura dos
líderes, centrados nos campos da mente, o pai morto substituído, o pai que pode
ser mau mas acolhe. Um pai morto que permanece vivo, e que, em um dado momento,
pode implodir a si, aos demais, e a seita que criou. Mas pode-se tentar
simplificar com uma metáfora do espelho. Nele nós nos olhamos, mas nem sempre
nos enxergamos, produzimo-nos, como na foto que ilustra esse texto, para ser o
que não somos, e que jamais poderemos ser…principalmente enquanto vivermos de
ilusões, fundadas no desejo de um outro qualquer e na misologia.
Assim,
antes de se lutar por uma “carreira típica de estado”, da qual sequer se compreende
bem a etimologia; pela exclusão de nossos pares e semelhantes, num claro
alinhamento ao sistema predatório e excludente; pelo emburrecimento da massa,
afastada da compreensão da carta magna do país, deve-se lutar pela manutenção e
aprimoramento do Estado de bem-estar, que, em última análise, é o que pode
salvar a todas e todos diante de um sistema definitivamente predatório em sua
essência.
Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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