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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O FILME O ANTICRISTO, O IDENTITARISMO E O PREJUIZO AO INTELECTO

 

Realmente o identitarismo pode ser algo muito ruim, sobretudo quando começa a minar a inteligência daquele que é, de fato, inteligente.


Pode ser um deslize infeliz, mas o filme escolhido e sua análise, para iniciar o artigo de Márcia Tiburi, na Cult de maio, a meu ver, foi um desastre.


O filme em questão é O Anticristo, do magnífico Lars. Nele, uma mulher que já dava sinais de uma estrutura comprometida, após a morte de seu filho, na qual o filme sutilmente sugere sua conivência, busca se isolar em uma cabana e, lá, começa a ter alucinações. Seu marido, um psicólogo desavisado, quiçá um pouco displicente e negligente, tenta ajudá-la, embora ao cabo do tempo, torna-se alvo dos delírios persecutórios da esposa, sendo obrigado, à medida que a situação piora a cada momento, a eliminá-la para salvar a própria vida.


Durante um certo tempo fiquei tentando entender a relação do conteúdo do filme com seu título, o anticristo. Seria ele? Que mesmo sendo da área psi não se apercebeu dos problemas da esposa, e deixou que seus sintomas evoluíssem para aquele desfecho?! Seria ela? Que em busca de seu próprio prazer deixou seu filho cair da janela, e, por culpa, depois começou a ter alucinações persecutórias?! Mas o filme também sugere que já haviam alguns sinais anteriores que, como uma antecipação do sintoma, demonstravam a estrutura comprometida, a psicose paranoide.


Ainda, a cena que ilustra esse texto, e que de fato faz parte do filme, parece uma tentativa desesperada de recuperação do filho "perdido", do status fálico do existir, à sombra de uma árvore macabra repleta de mãos desesperadas, que nos remetem ao mito da criação e da subsequente castração. A castração para o saber, imposta por um suposto deus que supostamente tudo comanda e tudo vê.


Mas ainda assim, retorna a pergunta: onde está o anticristo?! Ele ou Ela?! Talvez nenhum dos dois. Talvez para entender o anticristo seja preciso entender o Cristo, ou, o que, no imaginário cristão, se convencionou associar ao personagem Cristo. Talvez retomar um pouco do conteúdo do livro O Assassinato de Cristo, de Wilhem Reich, onde ele discorre sobre o desamor ou o esforço por destruir  a vida viva na civilização. Podemos também, utilizar a dualidade pulsional da psicanálise freudiana, e associar definitivamente o anticristo à pulsão de morte. Pulsão que se impõe definitivamente a partir dos desencontros entre a negligência do profissional e a loucura da esposa.


A cena final é uma ode à pulsão de morte, numa alusão clara às fogueiras da inquisição, promovidas em nome do suposto Cristo para a glória do Anticristo. Nesse sentido, os personagens são apenas joguetes no tabuleiro de guerra entre o Cristo e o Anticristo, ou as pulsões de vida e a pulsão de morte. A ligação e o desligamento, o amor e a violência para além da loucura e da negligência, o descaso, para demonstrar a metapsicologia determina nossas ações e nos comanda para além de toda e qualquer racionalidade. 


Bem, a meu ver, a escolha do filme para ilustrar um texto ótimo sobre machismo e feminicídio foi extremamente equivocado, pois, apesar de um desses elementos estar presente no filme, não é disso que o filme trata. O filme é extremamente profundo e não foi tratado com o devido cuidado na relação com o tema.


E, a partir disso, só posso imaginar que a questão identitária, de grande importância para os processos de desenvolvimento humano e inclusão, mas que tem se perdido nas teias do pensamento neoliberal, está por trás desse desentendimento cruel.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política

Copyright © 2024 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

ESTADO, “CARREIRA DE ESTADO” E A GESTAÇÃO DO MAL NA ADM PÚBLICA

 

Muito se ouve falar desse desejo legítimo, de boa parte do proletariado estatal em função de galgar degraus na hierarquia proletária do Estado. - Sim, é sempre legítimo querer crescer e ter uma carreira valorizada! -, mas pouco se sabe, ou se fala, ou se compreende a Estrutura dos tipos de Estado. Tentarei ser o mais sucinto possível nesse meu raciocínio. Até porque a misologia, uma espécie de fobia à ciência e à intelectualidade, é a tônica do nosso momento. 

Mas algumas questões insistem em se fazer ouvir, como uma espécie de retorno do recalcado, mesmo que não sejam, ao menos por alguns, absolutamente ouvidas. Aqueles que gritam por uma carreira de Estado sabem o que, de fato, é uma carreira de Estado? Ou melhor ainda, e isso seria uma base importante para a compreensão do que seria a dita carreira de estado, sabe-se, de fato, o que é Estado? Ou de qual Estado estamos falando? Um ponto de extrema importância, para início de conversa é saber que Estado e Governo não são a mesma coisa. O Estado é relativamente perene, e o Governo é habitualmente temporário. O Governo é aquela estrutura temporária que gere o Estado, a economia e a vida dos cidadãos. 

Pois bem, para entendermos a diferença no Estado, vamos fazer uma analogia com a língua, para tentar um melhor entendimento do que seria Estado. Na língua existe sempre uma língua “standard”, ou padrão, que é a base para todas as linguagens dentro de um mesmo universo linguístico, ou seja: as línguas faladas pelas diversas tribos dentro de um universo linguístico básico que aqui chamei de “standard”. Com o Estado, como forma de organização social de condução da civilização não é diferente. Há o estado com suas estruturas básicas que promovem e controlam o funcionamento da sociedade, e os diversos tipos de estado que são acréscimos àquela estrutura e que respondem às necessidades no tempo. 

Para ficar claro, vamos utilizar como exemplo do acima exposto o Estado Liberal, surgido a partir dos movimentos do século XVIII e XIX, e o chamado Estado de Bem-Estar Social, surgido nos idos do Século XX, sendo este último um acréscimo dentro do Estado Liberal, como na analogia com a língua acima. Ora, o Estado de Bem-Estar Social, ou das Políticas Públicas, foi um arranjo do Capital para fazer face a um outro tipo de Estado surgido no início do século XX, qual seja o Estado “Comunista”, ou mais especificamente o Estado forjado pelo bloco das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Este tipo de Estado, surgido após a quebra da bolsa de Nova Yorque em 1929, e a consequente depressão, trouxe algumas ideias para minimizar os efeitos nefastos do Estado Liberal sobre a massa excluída e trabalhadora que vivia à margem da sociedade, apartada de todo e qualquer benefício que o poder do dinheiro proporcionava aos donos dos meios de produção, por isso convencionou-se chamá-lo de Estado de Bem-Estar Social, ou “Welfare State”, na sua nomenclatura em inglês. O bem-estar social idealizado, principalmente por Keynes, se traduz nas políticas públicas, no seguro social, na seguridade social (Saúde, Assistência e Vigilância), na educação pública, nas Leis de proteção ao trabalho e ao trabalhador. Enfim, o Estado de Bem-Estar é um plus, ou uma outra linguagem, dentro da estrutura do Estado Standard. 

Pensar uma carreira “típica de Estado”, puramente, é pensar numa carreira dentro do Estado como uma estrutura standard, ou seja, é pensar numa carreira sem a qual o Estado Standard não poderia funcionar. É claro que se pode pensar em uma carreira típica do Estado de Bem-Estar, mas aí não estaremos mais falando de uma carreira típica de Estado, mas numa carreira típica de um tipo de Estado, ou de um arranjo dentro do Estado. Digo arranjo pois o bem-estar social foi uma tentativa de encantamento do povo, contra a possibilidade de distribuição de renda e bens prometidos pelo bloco soviético. Não se deve absolutamente acreditar na humanidade de um sistema racionalmente predatório como o sistema capitalista. Aliás, o próprio humanismo é um encantamento, mas esta seria uma outra discussão. 

Bem, não podemos deixar de falar de mais um tipo de Estado, que vem galgando espaço, e causando muitos estragos para os menos favorecidos, desde a década de 70 do século passado, o Estado Neoliberal. Como o próprio nome indica, o Estado Neoliberal tenta um retorno ao Estado Liberal, ou seja, ao Estado onde manda quem pode e obedece quem quer sobreviver sem nenhum direito. E não é nenhuma coincidência que seu avanço tenha estreita ligação com a derrocada do bloco soviético. A partir de tal derrocada, o Bem-Estar Social perdeu o sentido para a economia burguesa, e sua função tornou-se obsoleta para o sistema capitalista, hoje hegemônico em relação à economia do planeta.

Essa gestação do monstro institucional teve início há bastante tempo, mais precisamente nos idos dos anos ‘90 do século passado, quando a administração pública, no governo de FHC, trouxe para dentro da administração pública conceitos e práticas da administração privada. A ideia, segundo Bresser-Pereira, à época, era trazer o gerenciamento privado para a administração pública a fim de evitar a privatização, tendo em vista que o neoliberalismo tentava a todo custo desconstruir o Estado de Bem-Estar Social naquele tempo, e que persiste até os dias atuais. Mas é óbvio que isso não daria certo, tendo em vista as naturezas e finalidades distintas das duas administrações. E o que se aprofundou na administração pública foi a cisão esquizofrênica que já existia entre meio e finalidade na Instituição. A captação externa de indivíduos antenados com a modernidade tecnológica, porém sem nenhum vínculo efetivo, ético e intelectual, com a finalidade sociopolítica da mesma, acrescentou a este erro administrativo o tempero que faltava para chegarmos onde chegamos. Nessa esteira de desatinos, muitos de nós enganaram, e se enganaram ao serem enganados, alimentando o terreno para gerir esse Frankenstein com o qual nos deparamos hoje. Muitos foram arregimentados e ludibriados pelo glamour do espetáculo, que insiste em se repetir como farsa de uma mudança renovada. O tempo líquido das relações humanas, a aporofobia e o narcisismo, que animam o espetáculo da atualidade, completam a “Guernica” institucional, da qual nos custa vislumbrar uma saída.

Voltando à questão da “carreira típica de estado, e não a carreira típica do estado”. É muito pouco provável que qualquer governo que faça a gestão do capital, sobretudo em um momento de desmonte dessa linguagem do Bem-Estar, ou mesmo que queira conservá-la, transforme uma carreira que é típica de uma linguagem dentro do estado standard, ou de um tipo de Estado, em carreira típica de Estado. Mas que bom seria se fosse possível, pois estaria transformando uma linguagem em uma estrutura standard permanente. Mas, infelizmente, isso não passa de uma ilusão, que entenderíamos o sentido se procurássemos compreender a estrutura predatória do sistema, e as estruturas típicas do Estado. Mas, infelizmente, nesse ponto, parece que a misologia entra em ação. Como disse Freud em Psicologia das Massas e Análise do Eu, a massa segue um líder em busca de ilusões. A massa é acéfala e, portanto, é completamente estúpida.

E há um movimento forte de arrebatamento para esta ilusão, e disso sobrevêm mais uma questão importante: a quem interessa criar tais ilusões? É pura falta de entendimento ou má fé? Talvez nem uma coisa nem outra, talvez seja apenas uma disputa por espaços de poder, utilizando-se da ingenuidade de alguns e, obviamente, do narcisismo exacerbado e da falta absoluta de consciência de classe. Talvez também acreditem na ilusão, por pura misologia. Aliás, falta de consciência que propaga a exclusão do outro, e propicia a miopia diante da letra legal. Mas, é um jogo muito arriscado, pois não se consegue iludir alguém o tempo todo e para sempre. E o preço a se pagar por construir ilusões pode ser muito alto para todas e todos. 

Mas o que nos faz iludidos? Essa questão pode ser respondida de forma simples, mas ela é bastante complexa, pois envolve a nossa construção mental, que não é nova, que tem a nossa idade, e tem a idade do tempo. Mas o iludido vê na figura dos líderes, centrados nos campos da mente, o pai morto substituído, o pai que pode ser mau mas acolhe. Um pai morto que permanece vivo, e que, em um dado momento, pode implodir a si, aos demais, e a seita que criou. Mas pode-se tentar simplificar com uma metáfora do espelho. Nele nós nos olhamos, mas nem sempre nos enxergamos, produzimo-nos, como na foto que ilustra esse texto, para ser o que não somos, e que jamais poderemos ser…principalmente enquanto vivermos de ilusões, fundadas no desejo de um outro qualquer e na misologia. 

Assim, antes de se lutar por uma “carreira típica de estado”, da qual sequer se compreende bem a etimologia; pela exclusão de nossos pares e semelhantes, num claro alinhamento ao sistema predatório e excludente; pelo emburrecimento da massa, afastada da compreensão da carta magna do país, deve-se lutar pela manutenção e aprimoramento do Estado de bem-estar, que, em última análise, é o que pode salvar a todas e todos diante de um sistema definitivamente predatório em sua essência.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2024 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

terça-feira, 30 de julho de 2024

Da BANALIDADE DO MAL entre nós II

 


Em um dado momento no tempo, de um dia, um ano e um século carregado de pós-modernidade, reuniram-se pessoas e seres “enigmáticos” para discutir pontos divergentes e oportunidades de melhoria para um suposto grupo coralista. Deste momento participaram diversos atores do mundo da música.

Nesse momento, tratou-se de coisas importantes para vida da música entre nós. Tratou-se então da possibilidade de aulas de canto para quem quisesse aprimorar sua performance, numa perspectiva desenvolvimentista clara, e para aqueles que apresentassem mais dificuldades, evidentemente definidos pelo saber de um mestre; tratou-se da possibilidade de apresentações em diversos e possíveis eventos, o que implicaria em uma maior observância de questões relativas à responsabilidade, tais como pontualidade, assiduidade, seriedade, e isso parece o óbvio. Outros assuntos, menos importantes para esta análise também foram tratados, como a possibilidade de aulas de instrum,ento musical para quem tivesse esse interesse; Também a possibilidade de respeito ao estatuto vigente, sobre a eleição de dav coordenação do grupo, o que também implicaria na possibilidade de conclusão de um novo Estatuto, cuja construção havia sido iniciada há meses.

A proposição desses elemntos de discussão foi longamente tratada, anteriormente, para, segundo uma das participantes: “alinhamento de discurso”, o que pressupõe, certamente, um embate político entre grupos. Mas será?! Por conta disso, é de causar espanto declarações, durante o encontro, sobre divergências internas dentro da Instituição promotora, além de um pedido de desculpas para que os membros do grupo musical, ali presentes, não pensassem que se queria, com as propostas apresentadas, ser o “dono do Coral”. Um discurso muito estranho e esquisito, tendo em vista a insistência no alinhamento de discursos anterior ao encontro, e declarações anteriores sobre quem, de fato, promove aquele grupo musical.

Os assuntos tratados nesse encontro foram atravessados por duas questões principais: o descompromisso/dificuldades de alguns participantes e a criação de um “subgrupo suposto saber” dentro daquele grupo musical, criando claramente um “apartheid” absurdo na estrutura do mesmo, o que vai totalmente contra a ideia desenvolvimentista anteriormente proposta, e reforçando uma ode ao descompromisso para alguns que, claramente, servem a propósitos obscuros, sejam políticos ou de gozo mórbido, com clara vinculação a uma estrutura perversa, e à pulsão de morte, em seu estado quase puro.

Sim, eu, que ora produzo este texto e esta avaliação, naquele encontro satânico, fiquei boa parte do tempo calado, observando e ouvindo todas as manobras para não se chegar ao cerne das questões, ou seja, a lugar algum em relação às questões principais e relevantes, uma espécie de “detournement du sujet”, até quando me foi cobrada uma fala. Ora, uma fala de quem tenta ver além da manobra, do senso comum, do escárnio da morte...do outro, evidentemente. Mas, infelizmente, eu não poderia navegar ali de braços dados com o Real, o Imaginário e o Simbólico, então usei o reforço da proposta educacional e tentei desmontar uma armadilha criada no seio daquele momento. Eu comecei dizendo que minha sugestão, que estava na pauta da discussão, era a criação de um grupo para aprendizado de canto e técnicas vocais, onde aqueles que sentissem maiores dificuldades pudessem melhorar suas performances, treinando fora do horário de ensaio daquele grupo cantante, evidentemente. Devo dizer que minha fala foi tumultuada por uma falação paralela inimaginável, num total e absoluto desrespeito à proposta e a mim.

Questionei então... de onde surgiu esse discurso de que se queria que aqueles cantantes amadores fossem profissionais do canto? pois em momento algum isso foi falado por mim, ou por quem quer que seja, embora tenha, de fato, sido dito que foram profissionais que avaliaram mal a performance do grupo. Uma fala extremamente infeliz de avaliação de uma apresentação de Dia das Mães, onde foi usado o termo totalmente fora de contexto. Então, alguém respondeu que isso surgiu por minha culpa, pelas críticas que foram feitas por mim (forma e conteúdo) sobre a tal apresentação de dia das mães, e que, apesar de quatro pronunciamentos desfavoráveis, inclusive o do mestre, apenas o meu pronunciamento parece ter gerado certa “revolta” por, supostamente, ter sido mais contundente e pretensioso (isso dito nas entrelinhas). E assim, eu virei um bode...are, satanás! Vade retro!

Oriundo da área de educação, inclusive devo dizer aqui que a psicanálise pode ser considerada como tal, pois o que produz a clínica nada mais é que um processo de aprendizagem, aprendizagem de si, e aprendizagem das relações com o meio. Acredito que nesse processo, e que se refere à própria relação humana, há momentos de elogiar e de criticar, evidentemente em um processo dialógico necessário, para citar o mestre Paulo Freire. Não acredito absolutamente na divisão criada, e essa é mais uma que lembramos aqui, sabe-se lá por qual espírito de porco, entre “críticas construtivas e críticas destrutivas”. Críticas são críticas, são sempre válidas, sejam elas da forma que forem, a não ser que sejam ataques, mas, e isso é o mais importante, críticas demandam reflexão e não melindres. Só não reflete sobre críticas quem tem alguma dificuldade psíquica de encarar o espelho, de se ver cara-a-cara. E nesse aspecto o casamento entre “o estilo “laissez-faire” e a ilusão da mentira”, do cego que se acerca do mito e vai, é perfeito.

Então, como essa pessoa oriunda da área de educação, tendo como norte a educação libertadora, em momento algum, e aqui abro espaço para pedir desculpas a quem “desavisadamente” se sentiu ofendido com minhas ações e falas, jamais busquei denegrir ou diminuir quem quer que seja, e sempre tive como norte o desenvolvimento humano, e o estímulo à manutenção da vida, em qualquer idade, o que significa manter aceso o desejo de saber. Esse é o cerne de minha formação profissional.

Mas há indivíduos que não pensam e não agem assim, que são movidos por suas próprias questões psicológicas. Que precisam manter alguns zumbis, seres semimortos como aqueles zumbis da seita Vodu, do Tahiti, para seu próprio gozo mórbido. Esse é o casamento perfeito entre o, supostamente, não querer aprender, não querer se desenvolver e esperar a morte, e o propiciar o gozo mórbido para uma estrutura perversa. Nesse ponto, e isso está claro para mim, me vejo isolado, já que voz dissonante e sem apoio de ninguém, - pelo menos ninguém que se pronuncie, que ouse! -, um ponto fora da curva, tacitamente convidado, diversas vezes, a me adaptar ou me adaptar...quem sabe até sair, …talvez. Nesse sentido, tenho a declarar que jamais me adaptarei à morte, antes dela mesma acontecer...e se acercar inexoravelmente de mim...sempre preferirei sair.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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segunda-feira, 29 de julho de 2024

O ESCROTO BANQUETE DO PRECONCEITO E DA IGNORÂNCIA

 

Por ocasião da abertura das Olimpíadas de Paris 2024, mais uma polêmica envolvendo a comunidade LGBTQIAP+ e etc. está em voga. Parece que não se dá mesmo sossego àqueles ou àquelas que querem fazer de suas vidas o que bem entenderem, que querem usar seus corpos da forma que mais lhes aprouver, que querem sentir em seus cus, suas bucetas, suas rolas e suas bocas as sensações que a vida lhes ensinou a descobrir. Sim, porque é uma descoberta, que passa pelo desenvolvimento da sexualidade e da libido e que, no final das contas, torna a vida humana tão diversa, atrativa e divertida. Mas há as comunidades que só produzem repressão, martírio, suicídio e morte. A dita Santa Ceia já foi reproduzida em outros contextos e com outros personagens, inclusive personagens de desenho animado, e jamais provocou indignação alguma...por que será?!

A questão é que, em ambas as obras, e em ambos os contextos, essa comunidade lgbtqiap+, e etc., está, na atualidade, contemplada pelo significado simbólico das obras, pois tem protagonizado ao longo dos últimos anos, mesmo aos trancos e barrancos, uma passagem para um possível mundo melhor de aceitação e inclusão. Mas o que não se quer dizer, e não se diz, de fato, é que a questão principal está oculta sob um véu de narrativas que, usando de preconceito para combater supostas injúrias, não diz o que realmente importa: que é o profundo preconceito à comunidade lgbtqiap+ que está, mais uma vez na baila do dia. Não importa se é o Festim de Dioniso ou a chamada Santa Ceia, o Festim lgvbtqiap+ tem o mesmíssimo sentido simbólico, qual seja o de passagem, de libertação, de comemoração. Não é a falta de conhecimento acerca da obra O Festim dos Deuses que determina o ignorante, o que determina o ignorante, é o preconceito e a incapacidade de interpretar a vida. 

Pois bem, tanto o Festim dos Deuses, um Banquete de Dioniso/Bacchu, a depender se se olha com um olhar grego ou romano, que celebra um casamento divino no Olimpo, como a Santa Ceia de Da Vinci, que retrata, segundo a tradição, o momento que antecede o assassinato de Cristo, caberiam nesta celebração LGBTQIAP+, já que em ambas as situações se comemora algum tipo de passagem com alegria. Afinal de contas o que, segundo a Bíblia, Jesus comemorava com seus discípulos era a Páscoa, um evento judaico de passagem de uma vida cativa para a liberdade. Todo o peso da morte e da culpa só foi acrescido a este evento muito depois, na construção da religião católica. Pode-se dizer que a própria morte do Cristo e sua consequente e suposta ressureição transferiram o sentido da Páscoa para os católicos, como passagem de um estado martirizante, penoso, para um estado glorioso, de gozo absoluto. A associação do significado de sua própria morte à imolação do cordeiro à deus em comemoração a esse rito de passagem é clara nas construções posteriores do catolicismo, mas no sentido de engendrar um peso maior à própria morte para mobilizar a culpa, onde podemos fazer uma associação clara com Totem e Tabu, quando um pai cuidante é assassinado e, por ser cuidante, possibilita, pela culpa, a força da Lei.

O banquete que se serve nas redes e na internet é o do ódio, do ódio à diferença, ao LGBTQIAP+ e etc. E o que este ódio revela é a incomensurável vontade de eliminar indivíduos que ousam ser da cena humana. É isto que está posto para além dessa discussão vazia sobre cristianismo/catolicismo e paganismo. O que vemos desfilar diante de nossos olhos, para muito mais além do preconceito, e da ignorância geral, é a mentira, ou a ocultação da verdade. O que desfila diante dos céus do mundo é a mentira da aceitação, travestida de uma desculpa, que, na verdade, carrega mais um preconceito, o de achar que quem não conhece a obra O Festim dos Deuses é burro, inculto. Ora, - parafraseando uma suposta fala do Cristo! - que atire a primeira pedra aquele que conhece todas as obras de arte de todos os tempos, por nome e autor! Na verdade, seriam muito mais honestos, para consigo e para com o mundo, se encampassem uma campanha para que se reabrissem todas as Instituições Totais, onde seriam encarcerados e exterminados, como já o foram outrora (?!) esses inconvenientes desviantes, diferentes, que ousam saber e se expressar com arte. É bem mais fácil enfrentar e, quem sabe, tentar educar o inimigo quando ele é, do que quando ele se oculta.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Da BANALIDADE DO MAL entre nós


O conceito cunhado por Hannah Arendt durante o julgamento de Eichmann em Jerusalém é de uma importância ímpar a compreensão da história humana. E ele não é importante apenas porque foi cunhado por Arendt, ou porque surgiu do icônico julgamento de Eichmann. Ele é importante porque, fruto de um período tenebroso da civilização, quando o genocídio, o extermínio e maldade voltada para a própria humanidade se realizou plenamente, escancara a essência dessa mesma humanidade que a Cultura tenta camuflar como forma de sobrevivência da civilização. 

O Mal, a Maldade ou a Violência Predatória da criação de Deus, escapa pelas brechas do cotidiano, e escancara a face do inferno, aquele descrito por Dante, de uma humanidade que vive, e precisa viver, pela negação. O Mal está presente o tempo inteiro e a toda hora nas ações mais simples e despretensiosas do nosso dia a dia. É companheiro inseparável do poder, este, neste caso, entendido no sentido foucaultiano, de ser circulante no meio de nós, em todas as esferas da vida. Por isso, um ser pequeno e comum, e tendo participado de tamanha maldade, produziu em Arendt a visão da mediocridade, o que a fez posicionar o mal na banalidade da vida comum. Das igrejas às organizações sindicais, dos palácios aos campos de batalha, das áreas nobres e desejadas às periferias imundas e abandonadas, o mal viceja e se torna banal. 

Seres comuns e de todos os espectros psíquicos e sociais, com especial participação daqueles estruturalmente perversos, promovem a maldade, muitas vezes tornando-se instrumentos de ideologias produzidas por um poder maior, um outro poder, catalisador, e quase sempre sem se aperceber, embora ávidos da produção de gozo. Hoje, na produção histórica contextual, o mal está a serviço do expansionismo imperialista, e da ideologia capitalista neoliberal, nascida nos idos dos anos ’70 do século passado, sistema que vive um embate entre vida e morte, mas que projeta o homem autocentrado, egoísta, narcísico e que despreza definitivamente o conhecimento, o saber e a verdade. 

Afinal de contas, não é este desprezo que acompanhamos diariamente nas discussões e nas manobras dentro do pior parlamento que jamais existiu neste nosso país, o Brasil?! Não é este desprezo que potencializa as tragédias advindas de mudanças climáticas promovidas pelo poder econômico predatório?! Não é este desprezo que também se infiltra sorrateiramente em organizações sociais e sindicais?! Um dos maiores projetos à implantação e à manutenção de uma arquitetura capitalista neoliberal é a desconstrução da educação para o povo, sobretudo relacionado àquele mais além do conhecimento, ou seja, o saber e a crítica. 

Nos dias que correm, o saber e a crítica são tratados, sobretudo pela extrema-direita, mas também por outras vertentes políticas que simpatizam com o projeto neoliberal, como inimigos da humanidade. E por qual motivo? Porque o ignorante é útil ao projeto. Porque o bobo alegre é a coisa mais fofa que existe para os desígnios da extrema-direita e seu projeto de poder. Não há, por enquanto, nenhuma escapatória, e a desqualificação da educação e do discurso do educador serve ao projeto neoliberal de produção de mão de obra semiqualificada para o capital, para compor o exército de reserva na produção de mais valia e sobrevivência de um sistema criminoso, produtor de miséria e morte, forjado à nossa imagem e semelhança. 

Em algumas áreas, organizações ditas progressistas ou de esquerda na vida civil, a desqualificação serve a alguns outros propósitos, propósitos de manutenção do status quo de algum suposto poder, embora siga a mesma lógica da direita e extrema-direita. O modus operandi stalinista, a desqualificação pública, de impor e forçar um mea culpa por um suposto saber, emerge da desistência da luta por um mundo melhor para todos. A execração pública, a desqualificação do outro com o objetivo claro de colocá-lo “em seu lugar” é um ato político, porém perverso. Para desqualificar o discurso do outro não é necessário todo o potencial de maldade que existe dentro de todos nós, é preciso apenas vincular esse discurso a uma minoria tida como insignificante, que supostamente, e capciosamente pronunciado, possui algum suposto conhecimento, o que se crê não ser a realidade de uma grande maioria que assim deve permanecer, para os propósitos e o bem-estar de um pretenso poder político e social, mas que, em verdade, um poder histérico, Falo de Deus. 

Mas se, para dita maioria, se quer servir de massa de manobra para uns e outros, numa dança macabra de sadomasoquismo e gozo, que assim o seja…nada se há de fazer. Que, apesar desse gozo, mórbido, que é o definitivo gozo de deus, os ventos continuem a soprar a suposta leveza. E assim, quase sem se sentir, atinge-se o nirvana...e, indiscriminadamente, …já estamos todos mortos!


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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Brasil, navegando pelo REAL, IMAGINÁRIO e SIMBÓLICO

 

O Brasil supostamente real está explicitado no mapa oriundo dos resultados do censo de 2022, onde a miscigenação praticamente impera no país?! 

Aqueles que se declaram puramente indígenas estão totalmente reduzidos a pequenos espaços do imenso território nacional, ao norte. Os pretos, assim como aqueles que se declaram indígenas, estão ainda mais restritos aos rincões da Roma Negra. E aqueles que se declaram brancos ocupam parte da região sudeste e sul do país, a parte do território nacional que foi praticamente povoada pela imigração europeia tardia, entre o final do século XIX e boa parte do século XX, especialmente estimulada durante a primeira e segunda Repúblicas, para embranquecimento da população, já que mão de obra havia.

Mas, para muito além dessa imagem que se quer real, supostamente explicitada no mapa, o que isso quererá dizer?! 

Bem, o Brasil é um estranho país, onde negros se escondem, ou são escondidos, por si ou outrem, e onde ser mestiço é menos pior do que ser negro, onde cidades, como Curitiba, invisibilizam sua população negra, perseguem aqueles que eventualmente ascendem na política, e Porto Alegre tem uma prática enorme de cultos de matriz africana, mesmo sendo, segundo o mapa uma cidade praticamente branca, e estes cultos são mais presentes naquele espaço geográfico do que na cidade de Salvador, a nossa Roma Negra, mas esse dado passa bem despercebido. Mas estes são fatos pouco conhecidos ou praticamente um tabu nessas regiões. Muitos mestiços se veem brancos e muitos brancos, e isso é facilmente observável naquela região sul do país, se sentem estrangeiros residentes, se definindo pela nacionalidade estrangeira de seus antepassados migrantes e longínquos. Mas essa é uma outra história.

Ser indígena no nosso país é reviver ou renovar constantemente a invasão do território pelo império expansionista português; pelos senhores feudais das capitanias hereditárias; pelos bandeirantes mercenários e criminosos caçadores de índios; por fazendeiros latifundiários e criminosos; por governos militares assassinos ou coniventes com a matança; por grileiros e caçadores de tesouros tardios, garimpeiros modernos destruidores do meio ambiente. Uma outra opção para este segmento foi e é a secular aculturação, o abandono de suas tradições e a adequação ao sistema capitalista vigente na nação forjada pelo colonialismo, e esse foi o papel exercido pelas congregações religiosas, inicialmente os jesuítas, na aculturação dos filhos da terra, durante os primeiros passos do Brasil colônia.

A princípio, olhando aquele mapa produzido pelo censo de 2022, pode-se pensar que o projeto de branqueamento dos cidadãos brasileiros, traduzido na explicitada miscigenação, com a importação dos migrantes europeus, deu certo. Não branqueou, mas transformou o leite e o café em café com leite. Mas, contudo, não se deve esquecer que a grande miscigenação ocorreu, principalmente e sobretudo, entre portugueses, africanos e indígenas, que nos proporcionou esse nosso povo café com leite, facilmente dourável pelo sol. Os europeus importados pelo poder ao longo do tempo, continuam isolados e se isolando em suas ilhas de fantasia, a quilômetros de suas origens, e de seus destinos. Sim, este último é um fator extremamente importante para compreender certos traços culturais do sul. Mas, de acordo com o tal mapa, o genocídio indígena parece ter funcionado. De centenas de nações que dominavam o território, hoje, apenas algumas nações no norte isolado e alguns poucos indivíduos e etnias confinados em pequenos espaços regionais sobrevivem.

Você pode ser branco, mas ter em sua árvore genealógica um indígena ou um preto, assim como você pode ser um preto e ter tido um branco ou um indígena em sua árvore, e não saber, ou mesmo não querer saber. E essa é uma grande questão. Isso faz lembrar a última conversa que tive com uma senhora, minha tia, que, conversando sobre minhas pesquisas e descobertas sobre as origens da família, pronunciou: “Meu avô era português, e se encantou por uma moreninha. Não sei por que esses portugueses gostam tanto dessa gente moreninha”. E, - é de pasmar! - ela falava de sua avó paterna. Se você é mestiço, certamente você compartilha de uma mistura de raças. De qualquer forma, nada disso reflete o que simboliza para você ter ou não ter misturas de raças, pois há outros fatores importantes que interferem na sua autoimagem, e na resposta a uma simples pergunta sobre qual a sua raça. E não se pode negar a interferência deste campo simbólico na história, e os interesses que foram mobilizados em sua produção. A história é feita por homens, e homens trabalham e produzem a história a partir de seus espíritos, que por sua vez funcionam nessas três dimensões: Real, Imaginário e Simbólico. E isso é o que nos diferencia na escala filogenética.

A realidade, porém, pode não estar, ainda, associada à imagem traduzida pelo tal mapa, tendo em vista o período conturbado, de negação, da pesquisa e a subjetividade vinculada às respostas, e muito menos sustentar os significados traduzidos por essa imagem. Outras pesquisas precisariam ser efetuadas nesse sentido. A consciência da mestiçagem da maioria esmagadora, ainda não pode ser traduzida como uma consciência de um tipo nacional. A confusão identitária, vinculada a um profundo desejo de autoafirmação e ocupação dos espaços públicos, e que permeiam as ações humanas no território nacional, hoje, favorecem as cisões e os (des)entendimentos sobre si. As vinculações entre o identitarismo e a ideologia neoliberal, atreladas ao “selfmade man”, é um casamento perigoso e deletério.

“Ah, eu nasci na terra do samba de fato, um país mulato chamado Brasil” (Afrolatinô, Nei Lopes). Sim, o Brasil é um país mulato, a mistura de raças está mesmo na maior parte do território e na cara do povo, mas, e o espírito?! Ele, de fato, assumiu essa identidade mestiça?! E os que não foram miscigenados, de fato ou espiritualmente?! Talvez os dados do mapa escondam alguma coisa, alguma subjetividade simbólica, mas certamente revelam muita coisa também, resultado da nossa colonização de pilhagem e apartheid estrutural.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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domingo, 22 de maio de 2022

O VIVARTISMO, OU O LEVANTE PERMANENTE DOS OPRIMIDOS DAS ARTES ALAGOANAS


É inadvertido ver o vivartismo, enquanto movimento, como um fracasso. Mesmo o Grupo Vivarte (1984-85), que lhe empresta o nome, e que, como qualquer movimento, teve um começo, um meio e um fim, jamais poderá ser considerado um fracasso. O Grupo Vivarte aconteceu, assim como as Mostras Alternativas  das "Cruzadas Plásticas", e/ou qualquer outro evento que busque romper a couraça do conservadorismo alagoano, porque o vivartismo viceja nas rachaduras do poder opressor. Nessa análise comparativa com a Semana de Arte Moderna de 1922, esquece-se os contextos sócio-histórico e econômico daquela e, principalmente, esquece-se do mais além, relativo a todo e qualquer movimento na civilização e cultura humanas.

E por falar em mais além, não se pode esquecer um dos eventos mais icônicos do movimento vivartista que foi o lançamento da Cruzada Plástica (catálogo amarelo) que ocupou toda a edificação do belíssimo Teatro Deodoro, no centro de Maceió. Naquele evento, ao qual estive presente, pôde-se comprovar a grandeza da organização e da produção do evento, e a sua importância para a “pacata” e taciturna capital das Alagoas. Um misto de espanto e êxtase tomou conta de todos os espectadores e espectadoras, e com certeza estou projetando minha própria visão, acostumada com as águas mornas e insossas da cultura local.

A Semana de 1922, surgida na pauliceia desvairada, onde havia e continua havendo uma grande circulação de capitais, onde os envolvidos naquele movimento pertenciam à pequena burguesia, e cujo poder local se esforçava para se antenar com o mundo exterior. Não é um dado irrelevante o fato de que determinado participante da semana de 22 não pode participar presencialmente da semana de 22 porque, na época, estava em Paris. Então, são fatos que corroboram, em certa medida, a amplitude e a abrangência da semana de 22 no Brasil.

O vivartismo, por sua vez, alagoano-caeté, e por ser caeté já nasceu assassinado, é um movimento que está para muito além da questão das artes plásticas. Pelo menos, essa é a percepção que tive na época, e que tenho ainda hoje. Eu diria até que o “fracasso” do vivartismo  é exatamente a sua vitória, porque enquanto movimento contestador de um conservadorismo radical, ele não poderia ter melhor destino, ou seja, a sua tentativa de apagamento no fio dos anos, e foram diversas tentativas, denuncia esse conservadorismo. Eu não tenho a menor dúvida, ou mesmo o menor pudor, em considerar o conservadorismo alagoano como algo tão radical, a ponto de transformar um movimento contestador, na estética de um fracasso plástico. O vivartismo é, portanto, uma denúncia radical de um conservadorismo radical que viceja naquela terra paradisíaca chamada Alagoas.

Num momento tão crucial de nosso país é interessante se pensar, não só o Vivartismo, mas todo e qualquer movimento que denuncie a opressão e o totalitarismo. Neste momento, relembramos os 200 anos de uma independência que jamais o foi de fato, ou que não nos tirou absolutamente da dependência do grande capital internacional. Tentativas houve, mas foram todas extirpadas pelo poder conservador de uma elite emocionalmente dependente do mundo exterior, e que mantem a ocupação predatória que fundou o país há 522 anos. É, portanto, uma independência bastante relativa, apesar desses 200 anos. A semana de 22, enquanto movimento contestador, que balançou toda a cultura nacional, e também está para muito além da questão das artes plásticas e da literatura, completa 100 anos, e assim como o vivartismo o foi e o é, até os dias atuais, movimento contestatório do conservadorismo.

No Brasil, hoje, vive-se um momento crucial de enfrentamento a esse conservadorismo, ou mais que isso, enfrentamento de forças neofascistas que trabalham para o embotamento da cultura, das artes, da ciência, da intelectualidade, e de qualquer pensamento libertário. E esses três eventos, que são três movimentos culturais na busca pela liberdade convergem hoje, e é de grande importância se falar e se pensar e repensar todos eles, como bandeira e como forma de enfrentamento desse conservadorismo que é destruidor de liberdade, e de qualquer movimento que aponte para a igualdade e a fraternidade, fazendo um link com os ideais burgueses trazidos pela Revolução Francesa, e que por sinal também jamais foram alcançados pela cultura humana.

O vivartismo é importante, não apenas pela sua busca de renovação nas artes plásticas, mas pelo seu enfrentamento ao conservadorismo radical que um dia dizimou os Caetés. Ele é, muito antes do chamado Grupo Vivarte, e ele será sempre, enquanto houver possibilidades de rasgos na imensa couraça produzida e mantida pela velha senhora para conservar seu status quo e sua dominação sobre os filhos da terra que, por ventura, ousarem contestá-la. Não esqueçamos que os primeiros filhos dessa velha senhora foram, todos, eliminados a mando de sua madrasta, Maria I. E que assim, inaugurou-se uma espécie de genocídio estatal, que nos remete ao mito de Chronos, que engolia seus filhos ao nascer, temendo que estes lhe tomassem o poder.

Mas, como não é possível entender qualquer ação no presente sem buscar na história suas raízes, e como já citamos o genocídio Caeté, vamos dar outro salto para trás, um salto bem grande no tempo, até os fatos que propiciaram a transformação dos alagados do sul da capitania de Pernambuco no atual Estado de Alagoas. O fato que antecedeu a emancipação do Estado de Alagoas foi um movimento revoltoso e contestatório, surgido na então Capitania de Pernambuco, contra as altas taxas de impostos cobradas pela coroa portuguesa. Pois bem, foram os latifundiários dos alagados do sul, atual localização do Estado de Alagoas, que, ao se posicionarem ao lado da coroa portuguesa, em detrimento da contestação dos revoltosos da Capitania, receberam como prêmio a sua independência e a sua emancipação daquela capitania. E assim nasceu, de direito, a partir de uma traição ao povo, a velha senhora Alagoas, cheirando a delicioso melado, ou a nauseante vinhoto no seu íntimo, ou a sargaço e sal, a depender da perspectiva com que se a mire.

Em se tratando de conservadorismo e mão de ferro da oligarquia alagoana, também não é possível esquecer que dois marechais do exército, braço armado do Estado brasileiro, oriundos da Velha Senhora, inauguraram, com um golpe de Estado militar, a nossa República, e que a partir de então, esse braço armado tem, há pelo menos 133 anos, ora assumido o protagonismo de nossa “democracia”, ora tutelado a mesma. Mão de ferro alagoana que se fez presente no sul do país, quando para “mostrar quem manda”, Floriano Peixoto renomeou a Vila de Nossa Senhora do Desterro em Florianópolis, após abafar uma revolta local. Mas a resposta ao ditador veio muito tempo depois de forma artística e floral, quando se começou a chamar extraoficialmente a “sua” cidade de Floripa. Tenho absoluta certeza de que Floriano, o chamado marechal de ferro, não aprovaria esse apelido para si.

O texto em questão nos traz bastante curiosidades, algumas inéditas para mim, sobre este alagoano que não é apenas um contestador, nem mesmo apenas um anatomista, mas um corajoso e atento observador da fisiologia do conservadorismo local, conservadorismo esse que se renova a cada dia para que as coisas permaneçam sempre as mesmas. Conservadorismo radical, onde as mudanças, por mais relevantes que possam ser, continuem sendo fracassadas, e onde o mesmo poder econômico opressor seja, mesmo que não seja mais. Ou pior ainda, que seus representantes sejam sem jamais ter sido.

Imagem: Foto de uma representação pictórica Grupo Vivarte (1984-85) reunido, produzida em 1985-86 (?), por Maria Amélia Viera, líder do grupo. O crédito desta foto é de Celso Brandão. A técnica do quadro é mista: acrílica s/papel e colagem.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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