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segunda-feira, 17 de março de 2025

A MEDIDA DO OUTRO PELA PRÓPRIA MEDIDA E A RUPTURA DA FRATERNIDADE...OU APENAS UM DESABAFO!

 

É da lógica da dinâmica psíquica projetar no outro aquilo que ainda não está completamente apaziguado em si. Em um certo sentido,  isso poderia atravessar o social como o benefício da dúvida e, consequentemente, da possibilidade de crescimento. Infelizmente, apesar de parecer benéfico numa certa medida, é, também, exatamente assim que surgem as discórdias e a violência entre os pares.

 

Mas em tempos tão conturbados, de recrudescimento da violência sistêmica, de cancelamento do futuro possível, e de manipulação para a construção de um novo humano desumanizado, é estarrecedor, até mesmo frustrante e constrangedor, vivenciar, na prática, o ódio e a estupidez que se apresenta entre esses pares. Os servidores da Previdência Social, seguindo a lógica manipulada pelo sistema, estão divididos e babando ódio uns pelos outros. De um lado aqueles que vivenciaram as lutas contra a opressão do sistema na segunda metade do século XX e também no início do XXI, e que, mesmo em uma fase da vida em que deveriam estar mais tranquilos, continuam a lutar pelo bem comum, do outro lado aqueles que não vivenciaram estas lutas, mas que foram infinitamente forjados e influenciados pela ideologia neoliberal que, entre outras características, tenta reimplantar a Lei da selva, anti civilizatória, do homem como lobo do homem, e que, para tanto, fortaleceu o individualismo e a personalidade narcísica, além de uma ode à estupidez e uma aversão absoluta ao conhecimento e à educação. Concomitante a isso, o avanço tecnológico mortifica o animal humano, escravizando-o, isolando-o cada vez mais do outro da relação, condição necessária para Ser, e projetando um futuro sombrio, onde o corpo, desde a revolução cognitiva, já perverso em relação à natureza, simplesmente passa a não ter mais importância alguma, sendo este o ápice da perversão em relação ao natural da natureza e à própria vida.

 

Mas, voltemos ao cancelamento da relação entre os pares, se ainda é possível assim nomea-los, dentro da Previdência Social brasileira. O Sindicato da categoria, composto em sua grande maioria por aqueles servidores mais experientes nas lutas contra a opressão do poder sistêmico, tem tentado, além de continuar sempre o embate direto com o poder patronal, chamar esses servidores, ditos novos, - talvez novos zumbis! -, para o aprimoramento da discussão política, sem sucesso algum. Parece que estes cidadãos foram, de fato, encantados pelo canto da sereia, além de dominados completamente pela manipulação neoliberal de transformação dos indivíduos em zumbis do capital, estimulados a se acreditarem seres mais preparados do que aqueles que estão na batalha desde há muito. Esses pobres coitados não percebem onde os estão colocando, talvez por desconhecerem o conceito de Uberização, vinculado à ideologia neoliberal. Infelizmente, essa divisão só levará a todos à ruína, onde os próprios trabalhadores da Previdência preparam, com suas atitudes egocêntricas e divisionistas, o ataque final e definitivo do poder sistêmico ao que ainda resta de uma política construída para salvaguardar a existência de todos diante da voracidade do capitalismo, sem cotraponto, no terceiro milênio.

 

É interessante, e ao mesmo tempo muito triste, que conceitos como Modernidade Líquida e Banalidade do Mal, além de pensamentos como os de Deleuze, sobre a super potencialização do poder na era digital, e de Ecco, sobre o fato da imbecilidade ser alçada ao podium a partir da internet, possam ser extremamente bem identificados nesse processo. Quando um ser completamente imbecilizado sugere que lutadores, lugar que o imbecil não consegue, e, provavelmente, jamais conseguiria ocupar, não precisariam lutar, ou que, se o fazem, não precisariam comer..., facilmente identifica-se a liquidez das relações, a profunda maldade, a mão do poder super opressor da modernidade sobre este indivíduo, e a total imbecilização do sujeito da compreensão, se sobra nessa personalidade algum resquício de uma estrutura capaz de compreensão.

 

ùltimamente, o tesão está indo pelo ralo, e como já dizia um autor falecido "sem tesão, não há solução", e a paciência para o embate com certas portas está se esgotando. Tendo passado tantos anos estudando e batalhando por uma Instituição melhor, por uma qualidade de vida funcional melhor para todas e todos, sem nenhuma perspectiva pessoal, tendo em vista ter praticamente abandonado o sonho da docência na Universidade para continuar ensinando e analisando na Instituição, ter que saber da fala de uma porta dessas, - que deve se acreditar uma sapiência!, que num processo em que, como sabido, tudo está interligado, a nossa luta é desnecessária porque uma coisa não tem nada a ver com a outra, pois "o orçamento já foi aprovado e uma hora sai", sendo desnecessária qualquer tipo de luta, é o fim da pícada! É um desconhecimento total e absoluto do processo político, sobretudo do processo político brasileiro, após a experiência protofascista que vivenciamos no período de '16 a '22. Penso que o maior problema dessa gente estúpida não é um processo de enlouquecimento, mas burrice pura e simplesmente, estupidez servil e subserviente. Talvez a dita porta ache que o cu nada tem a ver com a boca, apesar de ambos fazerem parte do mesmo sistema digestivo. E pois bem, no meio dessa luta fratricida, já se vislumbra o grande vencedor, que só descobrirá quem, no meio dessa turba, ainda tenha um pouquinho de discernimento neste mar de merda infra cognitivo, pelo qual somos obrigados, todas e todos, a navegar.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política

Copyright © 2025 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

O CANTO DA SEREIA E A AGONIA DE UMA INSTITUIÇÃO SECULAR

 


A Previdência Social do Brasil já é uma Instituição secular, a partir de 2024. Mas, apesar de sua importância e longevidade, agoniza diante de novos ataques de desconstituição disfarçados de modernidade. 

E agoniza junto com aqueles que a fazem, seus servidores que, completamente iludidos por desejos forjados pela ideologia neoliberal capitalista, sobretudo aqueles narcísicos de inflação de autoimagem, ou aqueles bem egoístas de “comida pouca, meu pirão primeiro”, além do profundo desprezo pelo outro da diferença, caminham a passos largos para um território abissal, do qual será difícil a emersão. 

A religião, nos dias que correm, está na pauta, seja enquanto sua transformação em mercadoria, fato observável nas igrejas neopentecostais, seja enquanto mecanismo de destruição étnica, com os recentes ataques genocidas do fundamentalismo judaico aos palestinos, seja enquanto mecanismo de inclusão, fruto do papado de Francisco na igreja católica, por muitos combatido. Também, clama-se em nome do divino o apaziguamento dos espíritos mais belicosos, mas vamos um pouco mais para trás, para um tempo onde reinava o paganismo e seus mitos, a religião na antiga Grécia. Vamos pedir suporte a esta religião mais antiga, vamos nos valer da sua mitologia, que sempre foi, em todas as culturas, uma forma de suporte do real da realidade. O canto da sereia é um mito daquela cultura pagã grega que, embora possa, hoje, ser associado ao canto das baleias, e talvez fosse de fato isso, o que realmente se escutava naqueles tempos, ajudou a construir o mito. Mas o canto das sereias, na mitologia grega, trata de algo que é extremamente atraente e sedutor na superfície, mas que, ao fim e ao cabo, é enganoso, perigoso ou destrutivo. Presente na Odisseia de Ulisses, o canto das sereias era um acontecimento que, segundo o mito, levava muitos marinheiros a um fim trágico, envolvidos por aquele som mavioso e sedutor. Facilmente os navios de perdiam e eram levados a pique, fazendo sucumbir toda a marujada.

Na Epopeia, Ulisses, porém, em seu retorno de Tróia, quis experimentar essa escuta para entender o poder daquele canto sem colocar, evidentemente, sua vida em risco. Pediu que os marinheiros o amarrassem ao mastro do navio, sem proteções nos ouvidos, coisa que todos usavam, e quase enlouqueceu ao ouvir e se deparar com tamanha beleza sonora. Ulisses escapou, por estar amarrado, mas comprovou o poder sem medidas daquele canto. 

Trazendo o mito para nossa realidade, podemos associar o canto da sereia às saborosas ofertas do poder, hoje, e que atingem em cheio os desejos de poder econômico e social, e as muitas frustrações dos servidores da nossa Instituição, acenado com ilusões de uma capacidade econômica irreal, afastando-os do entendimento de classe, e que não se sustenta ao longo do tempo. Os objetivos não declarados, pois sempre os há, são os mais nefastos e hediondos para o servidor e a própria Instituição: desconstrução, transferência de capital público para a esfera privada e, finalmente, o abandono do servidor à própria sorte, num mato sem cachorro, ou numa selva capitalista. Afinal de contas, o servidor é levado a se crer o senhor de si, quase um autônomo, - ou por que não dizer um Deus?! - e deverá se virar no mundo da livre concorrência, coisa que já é levado a fazer internamente, mesmo sem o sentir. 

É preciso que o servidor acorde urgentemente, reaja ao encantamento, arrebente a mesa, arrebente seus grilhões invisíveis, antes que seja muito tarde, antes que o canto da sereia o arraste definitivamente para o abismo, juntamente com a Instituição e a população que dela necessita e depende para sobreviver.

Um predador cerca a presa porque é de sua natureza, e assim é o sistema sob o qual existimos, ele nos cerca, nos encanta, nos manipula...e não esqueçamos…assim como o sistema no qual navegamos, as sereias da mitologia eram, na verdade, terríveis demônios, devoradores de homens, com uma voz celestial, de encantar os anjos.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7

Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política

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O AVANÇO DA EXTREMA DIREITA NO MUNDO, OU, O QUE QUER A EXTREMA DIREITA

 O que não se percebe, ou não, para não sabotar a presunção da dúvida, é que o avanço da extrema direita em todas as partes dos espaços humanos do planeta é, na verdade, a busca pelo afrouxamento, na civilização, de processos civilizatórios necessários à existência da própria civilização. Tais processos relegam ao nível do inconsciente características predatórias primárias que, sem os quais, livres de qualquer recalque, como em período anterior à aquisição da consciência, anterior mesmo à revolução cognitiva, fazem-nos mergulhar na horda primitiva. Ao nos afastar continuamente, ao longo do tempo, do natural da natureza, de forma lenta e complexa, esses processos propiciaram nosso mergulho na civilização.

 

Como muito bem frisou, na abertura do seminário sobre o processo de desconstrução do regime jurídico único dos servidores federais do Brasil, e promovido pela Frente Parlamentar Mista do Serviço Público, no dia 11/03/2025, o deputado Reimont Luiz Otoni Santa Bárbara, do PT do Rio de Janeiro, tudo está interligado. Nesse sentido, também não dá para pensar nos ataques neoliberais da extrema direita sem pensar nos mecanismos estruturais produzidos pela característica predatória humana, que sustentam o sistema econômico sob o qual sobrevivemos, e que, fazendo seu contrário, sustentam a possibilidade ou não de manutenção da civilização.

 

Para salvaguardar o existir é preciso reforçar os mecanismos que dão suporte à civilização humana, que controla e subjuga a predação, valorizando e encorpando todas as formas de união entre os seres da compreensão, propiciando as ações comuns de existência, enfim de mecanismos de valorização e de suporte à vida. Para tanto é preciso combater todos os mecanismos de desligamento da vida e da possibilidade do existir.

 

Vivenciamos, hoje, nos dias que vão, um momento trágico de nossa existência no planeta, em que se recrudescem mundo afora os ataques ao meio ambiente, ao outro de uma maneira geral, ao conhecimento e ao saber, e à vida como um todo. Todos os mecanismos criados pela civilização, de compreensão e/ou manutenção da vida, são atacados em função de uma pseudoliberdade, divulgada à torta e à direita, que simplesmente não existe. No meio social, a liberdade é a medida da existência do outro. A liberdade absoluta, que prega o neoliberalismo, só é possível na morte, sendo a liberdade possível, inexoravelmente atrelada à manutenção da civilização. 


O neoliberalismo, com seu canto de sereia, que acena para aquele humano “desavisado” com as impossibilidades libertárias do existir, não apenas tenta aprimorar o processo predatório do homem pelo homem, mas de forma subjacente prepara o terreno para um “gran finale” da humanidade, assim como sonham certas doutrinas religiosas de extrema direita com o Armagedom, e não apenas sonham, preparam o terreno para que ele se realize. Ou seja, tudo que se nega via extrema direita é a própria vida, ilusoriamente atrelado este fim ao outro, o outro que incomoda, o outro que se crê menor, mas que, negando essa relação e o ambiente natural, busca-se levar toda a civilização a um termo, e ao retorno do humano ao inanimado, extinguindo a vida para o gozo supremo de Deus. 


O discurso político é sempre um discurso encobridor, que, como o discurso do mestre, traz complexidade ao jogo predatório do Capital, dificultando a claridade, para além desse discurso, do desejo de morte de si, que, antes, sugere o desejo de morte do outro. Na política, cabe a cada um de nós escolher, nesse jogo de cena que constitui a civilização, sermos agentes de vida, se trabalhamos pelo coletivo e pela coletivização dos meios de produção, ou sermos agentes de morte, se trabalhamos em prol do egoísmo e do individualismo, numa ode a Narciso, que, - não esqueçamos!, também se afoga pelo encantamento com sua imagem, e do consequente fim da existência.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política

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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

O GOLPE DE 2016 E O GOLPISMO NO BRASIL



Falar sobre o golpe de 2016 requer um esforço hercúleo no sentido de fazer entender, sobretudo ao senso comum, manipulado pelos meios de comunicação de massa, que, apesar da ausência de tanques nas ruas, da ausência de assassinato de mandatários e da ausência da quebra do rito processual, sofremos sim um golpe de estado, cujo ator principal foi o parlamento brasileiro, capitaneado por alguns atores políticos corruptos e corruptores que não mediram esforços para apear do governo uma presidente eleita democraticamente e sem crime de responsabilidade.

Duas falas públicas de atores do golpe são suficientes para sustentar a veracidade deste fato. Uma delas, do próprio golpista que usurpou o poder, o senhor Michel Temer, quando, em visita à ONU, logo após o processo do golpe, declarou que Dilma Roussef só sofreu o impeachment porque não aceitou o projeto ultraneoliberal Ponte para o Futuro, que a partir de então foi implementado no país. A outra fala importante, e que nos dá a dimensão exata do processo desenvolvido e implementado nos bastidores para destituir a mandatária, foi o do corruptor Marcelo Odebrecht, que declarou ter liberado 40 milhões de reais para o senhor Eduardo Cunha, que presidia a Câmara de Deputados à época, e que capitaneou o golpe naquela casa, para comprar os votos necessários à consumação da ação golpista.

Outro fator importante de análise é o fator de sustentação do processo de impeachment, as chamadas pedaladas fiscais, que nada mais são que ajustes gerenciais para fechamento de contas, e que não poderiam jamais se configurar enquanto crime de responsabilidade, e que também não tinham relação direta com a presidência da república. O Golpe teve ainda uma importante e decisiva participação dos meios de comunicação de massa, que mobilizaram os inúmeros preconceitos de classe, de raça, de sexualidade, que subexistem na cultura brasileira, sob o berço explêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, ocultos pela ideia falaciosa da nação tropical da festa, da paz e do amor fraterno.

E para além dos fatos acima citados, e que certamente dão substância à narrativa do Golpe, há a questão política que define o Golpe como "uma ruptura da ordem constitucional legítima, visando a tomada do poder por um determinado grupo político". O Golpe, na verdade, se constitui como um processo político que se iniciou já nos primeiros passos do primeiro Governo de Dilma Rousseff, ao dar início à desconstituição do projeto político da centro-esquerda, substituindo-o por outro, de um outro grupo, profundamente sedimentado na ruptura da conciliação de classe efetivada por aquele governo, e que se aprofunda até os dias atuais. Para entendermos a questão da ruptura da conciliação efetivada nos dois primeiros governos de centro-esquerda, é preciso entender a mudança nos eixos da política de governo iniciada no terceiro mandato da centro-esquerda no país. Na política proposta nos dois primeiros governos há três eixos importantes, a saber: 1. Um amplo esforço de investimento público para o crescimento econômico, 2. Distribuição de renda que, além dos auxílios que promoveram a inserção de uma enorme massa na economia, produziu aumentos reais no salário mínimo e nos salários, e 3. O fornecimento significativo de crédito para a população. A partir do terceiro mandato houve uma mudança considerável nesta política, com 1. Corte significativo do investimento público, 2. Redução da taxa de juros e 3. Acatamento absoluto das exigências do mercado, com um processo de desoneração fiscal que passou da casa dos 50 para a casa dos 250 bilhões. Essa nova direção, paulatinamente foi desconfigurando a chamada conciliação de classes, e o governo começou a perder seu apoio e sua sustentação, o que escancarou a porta para o golpismo de direita. Na verdade, substituiu-se um jogo de ganha-ganha por um outro que se revelou de perde-perde, embora mantendo-se alguns benefícios sociais.

O golpe desnudou a nação brasileira, fez cair a máscara da fraternidade, e fez eclodir o ódio que vicejava por todo o sempre como fogo de munturo, sob a grande hipocrisia nacional. A colonização de pilhagem e os trezentos anos de escravidão negra no país explicam, em parte, o que hoje desfila despudoradamente em manifestações públicas da classe média brasileira, desde a pequena classe média à alta, e nas redes sociais, onde se diz o que de fato se quer dizer, já que não se diz para ninguém, embora se diga para todos. Umberto Eco, pouco antes de falecer, chegou a dizer que a internet deu voz aos imbecis, eu diria que ela não só deu voz aos imbecis, mas também propiciou a expressão profunda de traços não muito bonitos e palatáveis da alma humana, antes reprimidos pela presença do Outro no diálogo face a face.

Os golpes que acontecem no Brasil, e desde a sua Independência, passando pela República, mesmo o Estado Novo, pelo Suicídio de Getúlio Vargas, pela Renúncia de Jânio Quadros, pela tomada do poder pelos militares e a deposição de Jango, e finalmente pela deposição de Dilma Roussef, são movimentos das classes dominantes que, sempre que se sentem ameaçadas, agem para a manutenção de seu status quo, e para manter a relho e a reza para as classes menos favorecidas. Durante todos esses processos, o povo foi alijado da ação defensiva, com a retórica do não derramamento de sangue pelos golpeados. Essa retórica está materializada no discurso de Pedro II, no suicídio de Getúlio, no discurso de Jango e, mais recentemente, na renúncia de Lula à desobediência civil.

O golpe de 2016 segue a lógica do recrudescimento das relações do poder opressor, embora bem mais sutil, mas eficaz no que diz respeito ao uso do discurso da legalidade, mesmo burlando completamente a Lei. À parte a diferença em relação às demonstrações de força e intimidação, largamente utilizados no golpe de '64, com tanques nas ruas e deslocamento de militares, além da presença de porta-aviões norteamericanos no Rio de Janeiro, fato comprovado pelo sociólogo e professor Rodrigo Czajka, em pesquisas recentes em território americano, há similaridades gritantes entre os dois eventos.

Periodicamente o sistema entra em crise e busca no confisco dos benefícios sociais a sua salvaguarda. A partir de 2008, o sistema mergulhou em uma crise estrutural sem precedentes. Alguns analistas chegam a afirmar que a crise de 2008 foi maior que a de 1929. À parte seu funcionamento crítico e não planejado, com suas crises periódicas de autoajuste, o sistema capitalista é um produtor de enormes desigualdades. No Brasil apenas 3% de sua população são de empregadores/capitalistas, no mundo esse número não passa de 5%. 2/3 da população brasileira é de assalariados que recebem até 2 salários mínimos, ou 25% da população. A globalização econômica e o avanço neoliberal destruiu a burguesia nacional existente, herdeira do surto desenvolvimentista a partir da era JK, e anterior ao Golpe de '64. Hoje, não há burguesia nacional suficientemente forte para defender o país e construir um projeto de capitalismo nacional. O Golpe de 2016 acabou de liquidar com o sonho desenvolvimentista mais recente e consequentemente com o que restava de burguesia nacional no Brasil.

Das capitanias hereditárias, com sua constituição duvidosa e com objetivos meramente extrativistas, brotou uma elite mercenária que jamais olhou para a terra colonizada como pátria e que, nas acomodações do tempo, tratou de produzir lacaios para ocupar os espaços de poder a seu serviço, de forma permanente e hereditária, na estrutura do estado. A composição político familiar presente nas instituições do estado, que se repete de há muito, não deixa dúvidas quanto à perpetuação de certos núcleos familiares que se reproduzem nos círculos de poder. 2/3 da Câmara e 3/4 do Senado é composto por famílias que se perpetuam naqueles espaços. Dados estes fornecidos pelo professor da sociologia Ricardo de Oliveira. O atraso dessas famílias e suas ramificações na esfera política é tão grande que não conseguem sequer suportar a própria democracia burguesa, e um mergulho mais recente na cultura do país nos dá a dimensão dessa dificuldade, tanto na constituição de uma elite nacionalista, como para o desenvolvimento da nação. A elite nacional, e consequentemente a classe média nela espelhada, é tão subdesenvolvida que sequer suportam a universalização da educação, e a própria democracia burguesa.

O embate entre classes antagônicas sempre esteve presente nas disputas políticas, embora, segundo o economista e professor Claus Germer, no golpe de '64 tivemos um embate entre burguesia urbana ascendente, nascida do surto desenvolvimentista a partir de JK, unida aos trabalhadores por uma certa convergência de interesses, versus burguesia rural decadente, por conta da ascensão da burguesia urbana, unida aos interesses oportunistas norteamericanos no país. No golpe de 2016, e pelo avanço do projeto neoliberal no mundo, a globalização e a ausência de um contraponto ao sistema capitalista, vemos um embate entre a massa proletária e uma burguesia internacionalizada, e por isso aliada mais uma vez de interesses estrangeiros no país, notadamente dos Estados Unidos da América do Norte.

Os últimos governos de centro-esquerda no país ousaram enfrentar o domínio americano na região, o que, evidentemente, não agradou a Washington. A tentativa de unificação da América Latina, pelo fortalecimento do Mercosul, com a participação de governos de centro-esquerda surgidos nas últimas décadas, os investimentos estratégicos na infraestrutura de países do bloco, além da criação do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que hoje somam 11 países) e seu banco, com o claro objetivo de fazer face à hegemonia da moeda norteamericana, além da descoberta do pré-sal no Brasil, foram fatores decisivos para o posicionamento de Washington contrário à ascensão da socialdemocracia brasileira. Na América Latina, onde Washington não conseguiu produzir uma mudança de rumo pela via da democracia burguesa, como na Argentina e no Chile, patrocinou e instrumentalizou um golpe de estado, a exemplo do Paraguay, Honduras e, mais recentemente, Brasil. Seguem na resistência Uruguay, Bolívia e Venezuela, com um governo controverso e mais à esquerda que os dois primeiros.

No Brasil, a partir do golpe de 2016, produziu-se o maior ataque de todos os tempos aos direitos dos trabalhadores, direitos estes conquistados a partir da década de '30 do século passado, e a desconstrução do frágil, e que se encontrava em processo de desenvolvimento, estado de bem-estar social nacional. O desmantelamento da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), a Lei das terceirizações irrestritas; a reforma do ensino, que tem o objetivo claro de restringir o pensamento crítico e produzir mão de obra barata e não especializada na classe trabalhadora; o congelamento do gastos públicos por vinte anos, com o claro objetivo de sufocar a administração pública, forçando seu desmantelamento, como já acontece com as Universidades e outros setores; as privatizações no setor público, inclusive em áreas estratégicas; e o desmantelamento da seguridade social, com o desmonte da Previdência Pública, cujo órgão estratégico foi o primeiro a ser ceifado, com o corte de 95% (noventa e cinco por cento) da verba para a Assistência Social, e o recente acordo com a FEBRAPLAN (Fedração Brasileira de Planos de Saúde), com o objetivo claro de extinção do SUS, e transferência da verba pública para a iniciativa privada, dão a dimensão exata da arquitetura da destruição projetada e promovida pelo golpe de estado de 2016 em nosso país.

O objetivo dessa arquitetura é claríssimo, demantelar o estado de bem-estar social brasileiro, e em seu lugar instituir o estado mínimo neoliberal, conforme preconiza o acima referido Projeto Ponte para o Futuro, e é constrangedor que cidadãos brasileiros natos estejam envolvidos nesse processo. Um processo que, além de destruir o bem-estar social, nos coloca de joelhos diante do capital internacional, entregando nossas riquezas e empresas construídas ao longo dos anos com o suor do povo brasileiro. Como se isso já não fosse estarrecedor, o golpe flertou cada dia mais com o totalitarismo e a intolerância, haja vista as ações ilegais que produziu, a desmoralização das Instituições e dos Poderes da República, a desmoralização das forças armadas, e a dessiminação do ódio e da violência no seio da sociedade brasileira, que já produziu agressões, tentivas de homicídio, além de suicídio, assassinatos e prisões ilegais patrocinadas pelo próprio Estado.

Apesar dos avanços contidos no PNDH-3, de 2010, com seus seis eixos integrados para a questão da segurança pública, na prática, não houve melhora na questão da violência no país. Ao contrário, houve uma aumento considerável nos números da violência, conforme dados disponíveis para pesquisa e repassados pelo historiador Clovis Gruner, da UFPR: violência no Brasil / dados de 2016: 61,6 mil assassinatos / 4,6 mil mortes em ações policiais / 437 mil PMs mortos em serviço. Destes números 92% são homens, 82% têm entre 12 e 29 anos e 76% são negros, portanto traduzindo esta realidade é possível afirmar que as vítimas de violência em sua quase totalidade são de homens jovens, negros e pobres, o que evidencia a situação de embate social, que se desenrola entre a população pobre e o aparato miliciano do estado burguês, o que evidencia a existência de uma guerra civil permanente no Brasil de há muito, que apenas não é declarada como tal. O tráfico de drogas se apresenta como uma cortina de fumaça neste conflito de classes, tendo em vista que ele está relacionado a todos os segmentos da sociedade, tanto em termos de consumo como em termos de comercialização. Uma interessante declaração do traficante Fernandinho Beira-Mar dá a dimensão deste fato: "No tráfico, negro e favelado não chega ao topo, mas onde lhe é permitido chegar.". As recentes notícias de envolvimento de parlamentares com o tráfico, e o flagrante do "helicoca", só confirmam o real alcance do braço armado da polícia burguesa. Entre 1992 e 2017 houve um aumento de 400% na população carcerária do Brasil, que hoje ocupa, apenas abaixo dos Estados Unidos e da China o terceiro lugar em população carcerária.

A mais recente intervenção militar no Rio de Janeiro não cumpriu absolutamente nenhum papel no combate à violência, sendo antes uma jogada política, por meio de apropriação simbólica e institucional de um governo sem nenhuma sustenção democrática no poder. Ademais, tal ação, que desvia completamente a finalidade das forças armadas, pode favorecer certos grupos criminosos, em detrimento de seus rivais, que comandam o crime organizado nas favelas dos grandes centros urbanos do país. Sabe-se que as favelas do Rio de Janeiro são redutos do CV, muito menos perigoso que o PCC, que atua na capital paulista, e cujo advogado foi alçado a Ministro do Supremo pelo governo golpista e intervencionista.

Já a partir de 1530, e não apenas a partir da ditadura militar de 1964, iniciou-se a formação de uma polícia política, com Martim Afonso, na defesa das capitanias hereditárias que se instalavam no território. Em 1809, funda-se no Rio de Janeiro, a Guarda Real da Polícia, com o objetivo de proteção da familía real portuguesa chegada no Brasil, fugindo das guerras napoleônicas, um ano antes. Em 1830, cria-se a Guarda real durante a Regência, período de grandes insurgências, devido a não aceitação do Regente por parte da população, e a partir de 1831 dissemina-se no país a ideia da polícia protetora do Estado. Já em 1919, as forças armadas e polícias militares são organizadas, e em 1946 os corpos de guardas municipais. O caráter de proteção do estado, leia-se aqui das classes dominantes, está presente em toda a trajetória evolutiva do aparato policial, inclusive na Constituição Cidadã de 1988, que trata a questão em termos de violência ostensiva e preservação da ordem pública, o que lhe confere o caráter de defesa apenas do Estado. Portanto, até os dias atuais a polícia se configura como o braço da violência do grupo que ocupa o Estado. Com o estado exceção, a violência potencial da polícia tem passado rápida e constantemente para a violência em ato, com o intuito de intimidar os movimentos sociais e o povo que se insurge contra os crimes do de governos golpistas.

No Brasil do pós golpe o aparato judicial policial se transformou em polícia política”, declarou o preso político José Dirceu à jornalista Mônica Bergamo, sobre o período pós golpe de 2016. Porém de toda esta avaliação fica a triste constatação de que, em nosso país, o golpe e o golpismo são sustentados em uma relação promíscua entre o poder e a força, onde somos meros objetos de uma orgia sadomasoquista nacional.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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terça-feira, 10 de setembro de 2024

O FILME BACURAU, E O RETORNO HERÓICO DE LAMPIÃO

 

O filme Bacurau, lançado em 2019, é um filme de aventura, de ação e uma ficção dos cineastas pernambucanos Kleber Mendonça Filho, que também dirigiu o excepcional Aquarius, e Juliano Dornelles. A história ambienta uma comunidade ameaçada no interior do sertão nordestino, que sofre com falta de água e de políticas públicas. Curiosamente, um dia essa cidade desaparece do mapa e seus habitantes ficam sem sinal de internet. O filme é bastante fiel à realidade nacional, contando inclusive com a população local em seu elenco. Isso foi importantíssimo para retratar um Brasil cheio de desigualdades, mas sobretudo de resistência popular. A história se passa num tempo futuro, e não se pode precisar exatamente quando. Mesmo sendo em algum lugar no futuro, identifica-se uma relação direta com acontecimentos do presente e do passado na realidade nacional, trazendo um dos períodos mais críticos e um dos personagens mais importantes na história do Nordeste do país. Pode-se dizer que o filme é uma perfeita alegoria da realidade brasileira.

A atmosfera ameaçadora, que nos aguarda na pequena cidade de Bacurau, é anunciada desde o início da trama, com o surgimento de caixões no meio do caminho de uma personagem que chega à cidade num caminhão. Eles anunciam a tragédia da cidade e antecipam o desfecho do filme. Esse desfecho também se anuncia dentro da própria Bacurau, quando nos deparamos com o velório de uma senhora negra, idosa, e que parece ter sido muito importante para a comunidade. A importância das mulheres e do matriarcado fica evidente a partir desse evento fúnebre, tendo a personagem Carmelita, a senhora falecida, gerado uma enorme família, constituída por pessoas de todos os tipos, uma relação clara com a diversidade que formou nosso país. O nome do vilarejo, Bacurau, é também o nome de uma ave com hábitos noturnos, muito encontrada no cerrado brasileiro. Essas informações são reveladas por meio de uma moradora da cidade, quando ela é questionada por um casal de turistas, que trata o povo com desdém. É possível traçar uma relação direta entre as características desse pássaro e as do povo de Bacurau, que, assim como o animal, está bastante atento ao que acontece à sua volta. Mas, a resposta à pergunta: - O que tem em Bacurau? gente! É perfeita e cheia de significados.

O prefeito da cidade é um homem que não está nem um pouco interessado em promover políticas públicas, ou melhorias para a comunidade. Mas, muito interessado em se aproveitar do povo, aproximando-se dele apenas em ano de eleições. Algo que nos é bastante particular, sobretudo nos últimos tempos, de grandes espetáculos, e com a formação que nós temos, hoje, em nosso parlamento. O tal prefeito representa o completo descuido, e até mesmo descaso com a educação, explicitado na cena em que é despejado de um caminhão um monte de livros, que caem no chão de qualquer forma, sendo completamente danificados. Esse mesmo cidadão também leva à força uma prostituta do local, evidenciando a violência de gênero e sexual que ela sofrerá, realidade que é tão presente no Brasil, com números alarmantes de feminicídio que só crescem, sobretudo depois do grande estímulo político à maldade e à violência chamado Bolsonaro.

Outra questão extremamente importante que é abordada no filme é o chamado complexo de vira-latas do brasileiro, essa abordagem se concretiza por meio de um casal de motoqueiros, que aparece no povoado, aparentemente como turistas. Eles são oriundos da região Sudeste e Sul do Brasil, e por conta disso, se sentem superiores ao povo nordestino. Na realidade, eles estão lá para contribuir com planos de extermínio daquela comunidade, por parte de forasteiros norte-americanos que se fixaram na região. Esse fato traz uma relação direta com a dependência ao imperialismo, a supervalorização do Estado norte-americano, e o completo desprezo com a cultura e a história da própria nação. Além disso, pode-se fazer um paralelo daquela situação com o que ocorre em um âmbito mais estrutural, no qual as elites brasileiras desprezam o povo, aliando-se aos interesses estrangeiros.

As personagens da trama são todas de extrema importância para a compreensão da mensagem da obra, porém há duas personagens, Lunga e Domingas que são quase como pilares da história. Lunga é uma das personagens mais emblemáticas do filme. Por meio daquela figura são expostas questões de identidade de gênero, uma figura cuja definição de gênero é incerta, aliada a uma força bruta que desconstrói a ideia preconcebida do gênero, e com um enorme impulso por sobrevivência. Essa personagem, um foragido e procurado pela polícia, numa clara alusão à figura de Lampião, que apesar da força bruta bordava e compunha, transita entre os gêneros masculino e feminino. É com a chegada dele no vilarejo que a população se organiza ainda mais e se prepara para resistir aos ataques que sofrerão dos ianques. Lunga, assim como Lampião, simboliza o desejo de transformações radicais na sociedade. Ele vem travestido em uma figura que tem o poder de unir, a princípio, elementos díspares, como o cangaço e a transexualidade. A personagem Domingas é a médica do povoado, que ajuda a população com seus problemas de saúde, ao mesmo tempo em que sofre, ela própria, com o alcoolismo. É uma personagem complexa que parece representar a energia e a garra da mulher nordestina em meio a uma dura realidade existencial. É a grande mãe, que acolhe e ajuda na libertação.

Mas, se é que podemos destacar algum elemento mais importante no cenário e na ambientação da trama, o museu da cidade é esse elemento de suma importância, senão o mais importante na trama. Em diversas cenas a população cita o local, dizendo para o casal de turistas para irem até lá. Até parece uma advertência sobre seu próprio destino. Em um dado momento, descobre-se que o museu abriga um acervo de fotografias e objetos do cangaço, que sugerem que o povoado fez parte desse universo no passado, possuindo um histórico de lutas e resistência. Esse é um dos locais escolhidos pela população como esconderijo quando sofrem os ataques dos americanos. Essa escolha também pode ser vista como um símbolo da importância da cultura e da memória na história de um povo. Uma questão que vale salientar é a relação possível entre o passado de Bacurau com o passado de luta do próprio povo nordestino, por meio do Cangaço, e de outras revoltas populares como Canudos, a Cabanagem, a Conjuração Baiana, a Revolta dos Malês, o Quilombo dos Palmares e a Revolução de 1817, entre outras. Além do museu, outro local que acolhe os moradores é a escola da cidade. Lá, os habitantes se escondem enquanto os "ianques" fazem seu jogo perverso em busca de vítimas, sem saber que, na verdade, eles é que serão eliminados.

A luta contra a opressão interna, e externa no caso em questão, a violência empregada na autodefesa e o apelo à memória, nos remetem diretamente ao personagem da vida real, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Virgulino entrou no Cangaço por motivos pessoais, mas encampou uma luta contra a opressão do braço armado do Estado, saindo a fazer justiça com as próprias mãos pelos sertões nordestinos. Ainda hoje, discute-se se Lampião foi um Herói, um fora da Lei contra o Estado opressor, ou um simples bandido, mas esta é uma questão complexa, que não pode absolutamente ser tratada com a simplicidade do pensamento do senso comum. Lampião foi fruto de seu tempo, e com certeza uma cria de um sistema opressor e corrupto, que é a marca registrada da elite dominante em nossa cultura desde as Capitanias Hereditárias. Uma marca que produziu e produz miséria, subserviência, sofrimento e morte, mas que também, - graças à natureza humana! -, produz revoltosos e arautos da liberdade. A forma como se busca essa liberdade é outra questão, e que pode se expressar de diferentes formas, inclusive com extrema violência. Não se pode esquecer que falamos do ser humano, o maior predador que jamais existiu sobre a face da terra, e da pulsão de morte, que participa da construção e da destruição com a mesma energia e força.

Bacurau tem na personagem Lunga, andrógino e indefinido, mas estrategista e organizador de libertação, a tábua de salvação para a sobrevivência de toda aquela comunidade. Talvez, exatamente por seu caráter perverso, ele possa vislumbrar e se prestar a esse papel de libertador. Papel que hesitou em assumir, mas que assumiu para o bem comum. O livro LAMPIÃO Senhor do Sertão, de Élise Jasmim, nos leva até Lampião, que basculhava entre o ser e o não ser, entre deus e o diabo, mas que na verdade era apenas um homem, com sua visão de mundo, com todas as características e possibilidades da alma humana, preocupado constantemente com sua imagem, e que se defendeu com o que tinha e como pode dos ataques da "civilização", Então, a relação de Lunga com Lampião é mais do que clara quando se percebe "as hesitações de Lampião quanto à imagem que gostaria de transmitir à sociedade: a do bandido que desafia as autoridades policiais e governamentais, a do chefe guerreiro à frente de um grupo para o qual ele assegura a vida material como um pai de família, a de um bandido profissional que às vezes presta serviços aos chefes políticos locais, a de um homem que ama a vida que leva, não tendo a opção de ter outra, a do bandido de honra que não para de perseguir seus inimigos, a de quem faz questão de que saibam que não é um covarde de acordo com as representações heroicas da cultura do sertão e, finalmente, a de um homem que respeita as classes sociais opulentas.” (JASMIN, Élise, 2006)

Numa entrevista, em pleno sertão, em meio à caatinga, “Lampião define seu mundo, justifica suas opções, abandona-se, mas ainda não impõe uma imagem unívoca: quer que saibam o que ele é e ainda preserva uma espécie de diálogo com a sociedade, afirmando, aliás, que está ali para protegê-la: Vim agora ao Cariry porque desejo prestar os meus serviços ao governo da Nação. Tenho o intuito de incorporar-me às forças patrióticas do Juazeiro e com elas oferecer combate aos rebeldes. Tenho observado que, geralmente, as forças legalistas não têm planos estratégicos e d’ahi os insucessos dos seus combates que de nada têm valido. Creio que se aceitassem os meus serviços e seguisse os meus planos muito poderia fazer. Incontestavelmente, o ano de 1926 registra uma virada na vida de Lampião. Sua incorporação aos batalhões patrióticos devia, na verdade, ser seguida de uma anistia e da obtenção oficial da patente de capitão. Sabemos que não foi nada disso. As promessas não foram mantidas: ao sair de Juazeiro, Lampião continuava a ser um criminoso perseguido pelas forças policiais, e sua patente de capitão não tinha estritamente nenhum valor. Lampião compreendeu que não havia possibilidade nem vontade política de reintegrá-lo à sociedade nem de anistiá-lo: continuava sendo um fora-da-lei aos olhos das autoridades administrativas, policiais e governamentais dos diferentes Estados do Nordeste.” (JASMIN, Élise, 2006) Chega a ser irônico este momento, pois o governo cogitou utilizar a força e o conhecimento de Lampião para o combate a um outro grupo, que à época ainda não era revolucionário, pois não detinha o conhecimento teórico e prático das relações na sociedade, como o próprio bando de Lampião, mas que como ele questionava as relações do poder na sociedade. Um questionava o poder político e suas práticas nada democráticas e/ou republicanas, e o outro o poder da força a serviço deste mesmo poder político. Uma questão interessante que se relaciona a esta controvertida concessão de patente de capitão a Lampião, e que lhe foi “outorgada” pelo Padre Cícero Romão Batista, outra personagem icônica da vida real brasileira e nordestina, é a ideia disseminada de que o padre, que era prefeito de Juazeiro na época, teria, por isso, se unido a Lampião. Na verdade, qualquer um que se visse com "esse poder" e que recebesse uma figura tão temida e envolta em tantas histórias de atrocidades, certamente, lhe condecoraria com qualquer coisa, se esse fosse o seu desejo. 

Uma outra questão interessante, e que nos remete ao filme e às personagens femininas, notadamente Domingas, é a postura das mulheres nesse movimento, ao mesmo tempo solidária, doce, mas também afirmativa, e às vezes violentas, o que nos faz pensar nessa personagem de Sônia Braga no filme Bacurau, pois “a maioria das mulheres esperava ser servida. Dadá conta, inclusive, que Zé Baiano, o mais perverso dentre os cangaceiros, aquele a quem apelidavam “pantera negra dos sertões”, servia a comida à sua mulher: colocava-lhe um guardanapo ao redor do pescoço, escolhia os melhores pedaços de carne que cortava e lhe punha afetuosamente na boca. Depois da refeição servia-lhe bebida e em seguida limpava-lhe delicadamente a boca com um pano de boa qualidade. Diz ela: (...) Era uma convivência maravilhosa. Todo mundo tinha seu marido. Um amor danado. Uma costurava, outra ajeitava um vestidinho, uma coisa. Uma vida bacana. Com Lampião, ali, ninguém dava um nome, ninguém se enxeria com coisa nenhuma. Agora, se ela saísse fora da linha, o chumbo comia, matavam, como aconteceu com Cristina e Lídia. (...) Os cangaceiros eram muito amorosos, tinham tanto carinho que eram capazes até de se esquecer das armas.” (JASMIN, Élise, 2006) Dadá, assim como outras mulheres do cangaço também protagonizaram cenas de grande violência, inclusive já fora do cangaço, quando alvejou um ex volante, e o deixou alijado. Questionada que tinha errado o tiro, ela disse que não, e que ele produziu o efeito que queria produzir, para causar maior sofrimento.

Há registros importantes do dia a dia de Lampião e do cangaço, memórias que foram registradas em filme por Benjamin Abrahão. Embora muito se questione os motivos de todo esse trabalho jornalístico, “se o senhor Benjamin Abrahão tivesse tido um projeto ideológico, esse filme ofereceria a ocasião ideal para se construir uma imagem repulsiva que teria servido aos objetivos do regime Vargas. Mas não foi assim, o cineasta ficou à parte e propiciou aos cangaceiros uma oportunidade de se mostrarem tal como queriam ser vistos. O filme provocou a irritação do Governo Federal e, de maneira particular, do Departamento de Imprensa e Propaganda. Finalmente, depois da dura campanha do governo Vargas contra seu filme, em pleno Estado Novo, e não podendo mais receber a proteção dos coronéis, estes também fragilizados, Benjamin Abrahão foi assassinado em maio de 1938, em Águas Belas, PE. Uma das múltiplas explicações para o seu assassínio seria a de que o cineasta teria feito de Lampião uma personagem muito importante. No momento em que Getúlio Vargas fazia uma forte pressão sobre os chefes políticos locais e se esforçava para reduzir suas prerrogativas, esse filme que os comprometia devia ser destruído. Urgia suprimir a qualquer custo as provas da vida opulenta levada pelo grupo de cangaceiros, vida que se devia, indiscutivelmente, à corrupção dos poderes locais. O poder do Estado tinha todo o interesse no desaparecimento desse filme no momento em que se empenhava em criar a lenda negra do cangaço na impressa e nas operações de propaganda, apresentando esses bandidos como seres abjetos, sistematicamente violentos, cruéis, estranhos à sociedade e à civilização.” (JASMIN, Élise, 2006), mesmo depois de ter tentado se aliar a eles no combate à Coluna Prestes.

Porém, depois de tentar usar Lampião e seu bando para combater a Coluna, “a partir da Revolução de 1930, esse tipo de discurso deixou de ser possível. Enquanto sob a República a repressão ao cangaço estava ligada a um projeto político unificador com relação ao Nordeste, constata-se a partir da instauração do regime de Vargas em 1930, e sobretudo a partir de 1935, uma vontade centralizadora que visava a associar o sertão a um projeto de Brasil “moderno”. A partir de 1935, após o fracasso da Intentona Comunista, o cangaço deixa de ser considerado pelas forças de repressão e pelo poder central uma especificidade regional. Torna-se um movimento subversivo capaz de pôr o Estado em perigo, da mesma forma que o comunismo. O governo Getúlio Vargas não se cansava de declarar publicamente a solidariedade entre os Estados e ressaltar os acordos de cooperação firmados entre todas as forças policiais do Nordeste. Por sua vez, os políticos dessa região afirmavam na imprensa, desde 1930, a importância dos laços que uniam os Estados nordestinos, prestando conta ostensivamente dos esforços de colaboração entre suas respectivas forças policiais e anunciando o fim iminente de Lampião.” (JASMIN, Élise, 2006). E, em uma possível continuidade do filme Bacurau, veríamos o Estado se armar para a destruição da comunidade perigosa para o regime, uma comunidade que só se armou para se defender, assim como já foi feito outras vezes, como em Canudos. 

“Olê, muié rendera,

Olê, muié rendá,

Tu mi ensina a fazê renda,

Eu ti insino a namorá.” 

Essa música, identificada como uma espécie de hino do cangaço, pois era a música preferida dos cangaceiros, é a cara de minha avó materna...lembro demais dela a cantarolar essa canção enquanto desenvolvia seus trabalhos domésticos. E se alguém quiser ter uma noção mais aproximada de como era (tipo e atitudes) a minha avó materna, é só dar uma olhada no documentário Mulheres do Cangaço, e prestar bem atenção na Dadá do Corisco falando. É exatamente daquele jeito que era minha avó Dolores, uma filha do Sertão, uma grande mistura de povos originários da terra, árabe, negro e português, uma mistura de maledicência e religiosidade raiz, uma costureira de mão cheia. Tinha uma doçura e ao mesmo tempo uma brabeza perversa que faz imediatamente lembrar as contradições que vicejavam no cangaço e nas mulheres que por ele transitavam. 

O livro Lampião Senhor do Sertão pode nos trazer algumas reflexões sobre a construção da personagem real Lampião, e, principalmente, os movimentos e os fenômenos do meio em que se desenrolou sua saga. Mas também a personagem da ficção Lunga nos traz Lampião, sua violência visceral e sua postura meio andrógina e  ambígua e, muitas vezes, protetora. A obra escrita demonstra, inicialmente, como o Estado buscou utilizar-se de um fora-da-lei para combater a divergência política expressa na Coluna Prestes, que nasceu do questionamento das mazelas da primeira República, contra o autoritarismo, a corrupção e o sistema de privilégios da política da época. Por uma série de fatores, a empreitada não deu certo, mas o evento demonstrou como o Estado pode se valer de qualquer meio na defesa de sua ideologia e dos privilégios da elite dominante. Fazendo um paralelo com o filme, onde se vê descaso e corrupção na atuação política, vive-se, no Brasil real  de sempre, tentativas constantes da elite do país, no combate, sem tréguas nem escrúpulos, à partilha, à inclusão social e ao desenvolvimento da nação. 

Outra questão interessante é, e isso está claro no depoimento de Dadá, que os cangaceiros não eram totalmente monstros, mas homens sertanejos, adaptados ao meio em que viviam, e que respondiam aos códigos vigentes na cultura que vicejava naquela região. Eram, portanto e sem sombra de dúvidas, justiceiros cruéis, em uma região onde imperava, e impera até os dias atuais, o domínio do latifúndio e a lei do mais forte, e onde o Estado, ausente ou caolho, é conivente com a criminalidade da elite abastada e obscurantista. A psicanálise, em seus longos anos de pesquisa histórica e experiência clínica, abriu-nos um enorme clarão sobre a questão da personalidade humana, e provou que a violência contra a própria espécie, e até contra si mesmo, é um traço eminentemente humano, e que tal traço também não é privilégio de certas estruturas psíquicas desviantes, mas constituinte do psiquismo de todo e qualquer indivíduo. A grande questão, então, é a influência exercida pelo meio em que se desenvolve e é moldada tais estruturas humanas, que pode facilitar ou não a expressão dessa violência constituinte. E o Estado, que precisaria ser o maestro das relações sociais, que deveria agir no sentido de propiciar o Bem-Estar Social, pode se tornar um grande facilitador e indutor de violência na civilização, inclusive utilizando-se dela em benefício de alguns. 

Parece claro que o cangaço, Bacurau, Lunga ou Lampião, são apenas um fenótipo, uma resposta do sertão ao abandono e à exclusão daquela região do Brasil, e que, em suas práticas, não difere absolutamente, de todas as práticas coronelísticas, policiais e estatais neste país ao longo de sua história. Vivemos uma guerra cruel, e camuflada, entre povo e elite que já dura 521 anos. Neste sentido, o cangaço, como um evento criminoso, torna-se apenas um grande bode expiatório que esconde a maldade humana real, espoliadora do Mais de Gozo, expondo-a e atribuindo-a apenas a um segmento, enquanto toda a estrutura que propicia a violência contra o povo é escamoteada, extrema violência praticada em larga escala pela elite nacional, e pelo Estado que a ela sustenta. Lampião, assim como Lunga, é, em última instância, apenas um filho do Sertão. Um filho da guerra entre a elite latifundiária, espoliadora e expansionista, e o povo desvalido. Um filho do abandono do Estado Nacional criminoso. Um filho da falta de justiça. Um filho legítimo do Sertão do Nordeste do Brasil. Lampião jamais deixará de retornar, assim como o Lunga da ficção ou como um outro qualquer da vida real, enquanto existir, ao sul do equador, opressores e oprimidos.



Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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domingo, 8 de setembro de 2024

O FILME A FORMA DA ÁGUA E UMA NOVA FORMA PARA A VIDA

 

A trama do filme se passa na décda de '60 do século passado, época em que a Guerra Fria corria solta, e a história é apresentada como uma espécie de fábula, onde a protagonista é uam espécie de "princesa sem voz". Muda e feliz, a faxineira Eliza Esposito trabalha numa base secreta dos Estados Unidos, e que inclui um laboratório comandado pelo Dr Hffstetler. 

A trama tem início quando uma criatura é capturada nos confins da América do Sul, o eterno quintal do tio Sam, e levada para esse laboratório. Aos poucios Eliza vai se afeiçoando à criatura que, a partir de sua curiosidade e tentativas de contato, começa a se "afeiçoar" a ela. Não se pode dizer que a criatura é bonita, mas tem seus encantos e, de acordo com o ditado, quem o feio ama bontito lhe parece.

Nada é aleatório no filme, Com ele, Guilhermo del Toro usa diversas ferramentas cinematográficas para criar um ambiente mágico, repleto de alegorias , e que iluminam aqueles seres que não se ancaixam no mundo. Quando os norte-americanos decidem usa a criatura como cobaia na corrida espacial, Eliza solicita ajuda de um vizinho, Giles, um pintor fracassado, mas que, como ela, também é fã de musicais, e sua companheira de trabalho, sua voz, chamada Zelda. No geral a obra parece ser uma ode aos "outsiders", com uma produção cativantemente bela, e um elenco afiado ao ponto.

A Forma da Água, para além das questões políticas e ambientais de exploração e expansionismo do imperialismo que busca explorar, e  da questão da guerra fria, é um filme sobre o ser humano e sua visão do mundo, a partir dos supostos três níveis existenciais: o mundo superior, o mundo inferior e o mundo humano, encontrados em todas as mitologias, em todas as culturas. 

No filme, o mundo dos deuses, o mundo dos humanos e o submundo se entrelaçam na ideia de uma criatura que carrega todas as características desses três níveis, um Deus produto da Água. O que pode ser uma clara alusão à nossa origem mais primitiva, antes de nossa migração, como seres que saíram da água para a ocupação e domínio da terra.

A forma da água é a forma projetada da humanidade. É a forma perfeita às voltas com a degenerescência produzida pelos seres humanos, e que sugere como solução um impossível retorno à água, mas que sustenta a proposta  de um resgate do equilíbrio com a própria natureza. Isso nos coloca diante da necessidade de revermos, urgentemente, nossa conduta diante da natureza e da vida, enquanto natureza perversa em relação à própria natureza, e enquanto ainda há tempo.

 

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O FILME MÃE, E O ETERNO RETORNO AO CAOS

 

A trama conta a história de um poeta e de sua esposa, que habitam uma casa que foi reconstruída depois de um incêndio. O clima de tranquilidade e sossego, semelhante, não por coincidência, ao paraíso, termina subitamente com a achegada de um convidado totalmente inesperado.

Símbolos e metáforas se sobrepõem na trama, e é preciso ficar muito atento, pois as questões propostas são jogadas no ar, e flutuam ao sabor do discernimento e conhecimento prévios, necessários ao entendimento das metáforas. O poeta é uma representação metafórica de Deus, e seu único interesse é criar. 

A esposa, que representa a virgem Maria, mas também a Mãe natureza, está submetida a um poder patriarcal avassalador e sempre é ignorada em seus apelos racionais. A humanidade, obra maior do Deus poeta, erra num ciclo de criação e destruição sob a indiferença do poeta e o desespero daquela Mãe.

A ação humana sobre a Natureza é extremamente deletéria, pondo sempre em risco o paraíso, e está traduzido no fogo e destruição, numa clara alusão à crise climática sob a qual tentamos sobreviver nos dias atuais. O olhar egoísta do poeta, que só pensa em sua obra, e na bajulação de seus visitantes, traduz seu comportamento arrogante e egocêntrico, transformando a divindade que representa em um criatura quase humana.

No mais, é possível vislumbrar trechos do texto bíblico, desde a história de Adão e Eva, do fruto proibido e a expulsão do paraíso, passando por Caim e Abel e o dilúvio, até o nascimento e morte de Jesus Cristo, culminando com a ideia da redenção dos pecados de toda aquela gente, e, diante do desespero da Mãe, o demiurgo Deus ainda tenta convencê-la a perdoar os algozes de seu filho.

Trata-se de um filme que coloca o ser humano no centro dos desequilíbrios ambientais e da natureza, representada pela Mãe revoltada, e pela interferência de um Deus irresponsável, um demiurgo condescendente com as atitudes de sua estúpida criação. Para melhor acompanhar o desenrolar da trama, é importante ter, ao menos um pouco de conhecimento, mesmo que superficial, do texto bíblico, do velho ao novo testamento, que norteia e é o eixo central de toda a narrativa do início ao fim.

Um filme muito inteligente e ousado, na crítica da humanidade, onde a pulsão de morte se produz e se manifesta em diversos momentos da história. O ápice dessa manifestação se dá na relação entre Deus, a humanidade e o menino Jesus, o que desencadeia uma reação violenta por parte da Mãe Maria Natureza, concluindo um ciclo e sinalizando para o recomeço de um próximo, onde a mulher é apenas um objeto, sem voz e explorada até o limite.

Esse eterno retorno ao caos sugere que a história da humanidade é feita de ciclos perversos que, recorrentemente, chegam sempre a um termo, numa continua vivência de construção e destruição. Um breve olhar na história da humanidade, com o contínuo surgimento e queda de civilizações, com os eventos cíclicos de guerras e violências dirigidas à humanidade e ao meio ambiente, confirmam o flerte permanente desta com a extinção. O movimento continuado entre vida e morte, como num bailado histórico perfeito, constituem a nossa essência, e o retorno ao inanimado, a máxima realização de gozo em nossa relação com Deus.

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