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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

O GOLPE DE 2016 E O GOLPISMO NO BRASIL



Falar sobre o golpe de 2016 requer um esforço hercúleo no sentido de fazer entender, sobretudo ao senso comum, manipulado pelos meios de comunicação de massa, que, apesar da ausência de tanques nas ruas, da ausência de assassinato de mandatários e da ausência da quebra do rito processual, sofremos sim um golpe de estado, cujo ator principal foi o parlamento brasileiro, capitaneado por alguns atores políticos corruptos e corruptores que não mediram esforços para apear do governo uma presidente eleita democraticamente e sem crime de responsabilidade.

Duas falas públicas de atores do golpe são suficientes para sustentar a veracidade deste fato. Uma delas, do próprio golpista que usurpou o poder, o senhor Michel Temer, quando, em visita à ONU, logo após o processo do golpe, declarou que Dilma Roussef só sofreu o impeachment porque não aceitou o projeto ultraneoliberal Ponte para o Futuro, que a partir de então foi implementado no país. A outra fala importante, e que nos dá a dimensão exata do processo desenvolvido e implementado nos bastidores para destituir a mandatária, foi o do corruptor Marcelo Odebrecht, que declarou ter liberado 40 milhões de reais para o senhor Eduardo Cunha, que presidia a Câmara de Deputados à época, e que capitaneou o golpe naquela casa, para comprar os votos necessários à consumação da ação golpista.

Outro fator importante de análise é o fator de sustentação do processo de impeachment, as chamadas pedaladas fiscais, que nada mais são que ajustes gerenciais para fechamento de contas, e que não poderiam jamais se configurar enquanto crime de responsabilidade, e que também não tinham relação direta com a presidência da república. O Golpe teve ainda uma importante e decisiva participação dos meios de comunicação de massa, que mobilizaram os inúmeros preconceitos de classe, de raça, de sexualidade, que subexistem na cultura brasileira, sob o berço explêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, ocultos pela ideia falaciosa da nação tropical da festa, da paz e do amor fraterno.

E para além dos fatos acima citados, e que certamente dão substância à narrativa do Golpe, há a questão política que define o Golpe como "uma ruptura da ordem constitucional legítima, visando a tomada do poder por um determinado grupo político". O Golpe, na verdade, se constitui como um processo político que se iniciou já nos primeiros passos do primeiro Governo de Dilma Rousseff, ao dar início à desconstituição do projeto político da centro-esquerda, substituindo-o por outro, de um outro grupo, profundamente sedimentado na ruptura da conciliação de classe efetivada por aquele governo, e que se aprofunda até os dias atuais. Para entendermos a questão da ruptura da conciliação efetivada nos dois primeiros governos de centro-esquerda, é preciso entender a mudança nos eixos da política de governo iniciada no terceiro mandato da centro-esquerda no país. Na política proposta nos dois primeiros governos há três eixos importantes, a saber: 1. Um amplo esforço de investimento público para o crescimento econômico, 2. Distribuição de renda que, além dos auxílios que promoveram a inserção de uma enorme massa na economia, produziu aumentos reais no salário mínimo e nos salários, e 3. O fornecimento significativo de crédito para a população. A partir do terceiro mandato houve uma mudança considerável nesta política, com 1. Corte significativo do investimento público, 2. Redução da taxa de juros e 3. Acatamento absoluto das exigências do mercado, com um processo de desoneração fiscal que passou da casa dos 50 para a casa dos 250 bilhões. Essa nova direção, paulatinamente foi desconfigurando a chamada conciliação de classes, e o governo começou a perder seu apoio e sua sustentação, o que escancarou a porta para o golpismo de direita. Na verdade, substituiu-se um jogo de ganha-ganha por um outro que se revelou de perde-perde, embora mantendo-se alguns benefícios sociais.

O golpe desnudou a nação brasileira, fez cair a máscara da fraternidade, e fez eclodir o ódio que vicejava por todo o sempre como fogo de munturo, sob a grande hipocrisia nacional. A colonização de pilhagem e os trezentos anos de escravidão negra no país explicam, em parte, o que hoje desfila despudoradamente em manifestações públicas da classe média brasileira, desde a pequena classe média à alta, e nas redes sociais, onde se diz o que de fato se quer dizer, já que não se diz para ninguém, embora se diga para todos. Umberto Eco, pouco antes de falecer, chegou a dizer que a internet deu voz aos imbecis, eu diria que ela não só deu voz aos imbecis, mas também propiciou a expressão profunda de traços não muito bonitos e palatáveis da alma humana, antes reprimidos pela presença do Outro no diálogo face a face.

Os golpes que acontecem no Brasil, e desde a sua Independência, passando pela República, mesmo o Estado Novo, pelo Suicídio de Getúlio Vargas, pela Renúncia de Jânio Quadros, pela tomada do poder pelos militares e a deposição de Jango, e finalmente pela deposição de Dilma Roussef, são movimentos das classes dominantes que, sempre que se sentem ameaçadas, agem para a manutenção de seu status quo, e para manter a relho e a reza para as classes menos favorecidas. Durante todos esses processos, o povo foi alijado da ação defensiva, com a retórica do não derramamento de sangue pelos golpeados. Essa retórica está materializada no discurso de Pedro II, no suicídio de Getúlio, no discurso de Jango e, mais recentemente, na renúncia de Lula à desobediência civil.

O golpe de 2016 segue a lógica do recrudescimento das relações do poder opressor, embora bem mais sutil, mas eficaz no que diz respeito ao uso do discurso da legalidade, mesmo burlando completamente a Lei. À parte a diferença em relação às demonstrações de força e intimidação, largamente utilizados no golpe de '64, com tanques nas ruas e deslocamento de militares, além da presença de porta-aviões norteamericanos no Rio de Janeiro, fato comprovado pelo sociólogo e professor Rodrigo Czajka, em pesquisas recentes em território americano, há similaridades gritantes entre os dois eventos.

Periodicamente o sistema entra em crise e busca no confisco dos benefícios sociais a sua salvaguarda. A partir de 2008, o sistema mergulhou em uma crise estrutural sem precedentes. Alguns analistas chegam a afirmar que a crise de 2008 foi maior que a de 1929. À parte seu funcionamento crítico e não planejado, com suas crises periódicas de autoajuste, o sistema capitalista é um produtor de enormes desigualdades. No Brasil apenas 3% de sua população são de empregadores/capitalistas, no mundo esse número não passa de 5%. 2/3 da população brasileira é de assalariados que recebem até 2 salários mínimos, ou 25% da população. A globalização econômica e o avanço neoliberal destruiu a burguesia nacional existente, herdeira do surto desenvolvimentista a partir da era JK, e anterior ao Golpe de '64. Hoje, não há burguesia nacional suficientemente forte para defender o país e construir um projeto de capitalismo nacional. O Golpe de 2016 acabou de liquidar com o sonho desenvolvimentista mais recente e consequentemente com o que restava de burguesia nacional no Brasil.

Das capitanias hereditárias, com sua constituição duvidosa e com objetivos meramente extrativistas, brotou uma elite mercenária que jamais olhou para a terra colonizada como pátria e que, nas acomodações do tempo, tratou de produzir lacaios para ocupar os espaços de poder a seu serviço, de forma permanente e hereditária, na estrutura do estado. A composição político familiar presente nas instituições do estado, que se repete de há muito, não deixa dúvidas quanto à perpetuação de certos núcleos familiares que se reproduzem nos círculos de poder. 2/3 da Câmara e 3/4 do Senado é composto por famílias que se perpetuam naqueles espaços. Dados estes fornecidos pelo professor da sociologia Ricardo de Oliveira. O atraso dessas famílias e suas ramificações na esfera política é tão grande que não conseguem sequer suportar a própria democracia burguesa, e um mergulho mais recente na cultura do país nos dá a dimensão dessa dificuldade, tanto na constituição de uma elite nacionalista, como para o desenvolvimento da nação. A elite nacional, e consequentemente a classe média nela espelhada, é tão subdesenvolvida que sequer suportam a universalização da educação, e a própria democracia burguesa.

O embate entre classes antagônicas sempre esteve presente nas disputas políticas, embora, segundo o economista e professor Claus Germer, no golpe de '64 tivemos um embate entre burguesia urbana ascendente, nascida do surto desenvolvimentista a partir de JK, unida aos trabalhadores por uma certa convergência de interesses, versus burguesia rural decadente, por conta da ascensão da burguesia urbana, unida aos interesses oportunistas norteamericanos no país. No golpe de 2016, e pelo avanço do projeto neoliberal no mundo, a globalização e a ausência de um contraponto ao sistema capitalista, vemos um embate entre a massa proletária e uma burguesia internacionalizada, e por isso aliada mais uma vez de interesses estrangeiros no país, notadamente dos Estados Unidos da América do Norte.

Os últimos governos de centro-esquerda no país ousaram enfrentar o domínio americano na região, o que, evidentemente, não agradou a Washington. A tentativa de unificação da América Latina, pelo fortalecimento do Mercosul, com a participação de governos de centro-esquerda surgidos nas últimas décadas, os investimentos estratégicos na infraestrutura de países do bloco, além da criação do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que hoje somam 11 países) e seu banco, com o claro objetivo de fazer face à hegemonia da moeda norteamericana, além da descoberta do pré-sal no Brasil, foram fatores decisivos para o posicionamento de Washington contrário à ascensão da socialdemocracia brasileira. Na América Latina, onde Washington não conseguiu produzir uma mudança de rumo pela via da democracia burguesa, como na Argentina e no Chile, patrocinou e instrumentalizou um golpe de estado, a exemplo do Paraguay, Honduras e, mais recentemente, Brasil. Seguem na resistência Uruguay, Bolívia e Venezuela, com um governo controverso e mais à esquerda que os dois primeiros.

No Brasil, a partir do golpe de 2016, produziu-se o maior ataque de todos os tempos aos direitos dos trabalhadores, direitos estes conquistados a partir da década de '30 do século passado, e a desconstrução do frágil, e que se encontrava em processo de desenvolvimento, estado de bem-estar social nacional. O desmantelamento da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), a Lei das terceirizações irrestritas; a reforma do ensino, que tem o objetivo claro de restringir o pensamento crítico e produzir mão de obra barata e não especializada na classe trabalhadora; o congelamento do gastos públicos por vinte anos, com o claro objetivo de sufocar a administração pública, forçando seu desmantelamento, como já acontece com as Universidades e outros setores; as privatizações no setor público, inclusive em áreas estratégicas; e o desmantelamento da seguridade social, com o desmonte da Previdência Pública, cujo órgão estratégico foi o primeiro a ser ceifado, com o corte de 95% (noventa e cinco por cento) da verba para a Assistência Social, e o recente acordo com a FEBRAPLAN (Fedração Brasileira de Planos de Saúde), com o objetivo claro de extinção do SUS, e transferência da verba pública para a iniciativa privada, dão a dimensão exata da arquitetura da destruição projetada e promovida pelo golpe de estado de 2016 em nosso país.

O objetivo dessa arquitetura é claríssimo, demantelar o estado de bem-estar social brasileiro, e em seu lugar instituir o estado mínimo neoliberal, conforme preconiza o acima referido Projeto Ponte para o Futuro, e é constrangedor que cidadãos brasileiros natos estejam envolvidos nesse processo. Um processo que, além de destruir o bem-estar social, nos coloca de joelhos diante do capital internacional, entregando nossas riquezas e empresas construídas ao longo dos anos com o suor do povo brasileiro. Como se isso já não fosse estarrecedor, o golpe flertou cada dia mais com o totalitarismo e a intolerância, haja vista as ações ilegais que produziu, a desmoralização das Instituições e dos Poderes da República, a desmoralização das forças armadas, e a dessiminação do ódio e da violência no seio da sociedade brasileira, que já produziu agressões, tentivas de homicídio, além de suicídio, assassinatos e prisões ilegais patrocinadas pelo próprio Estado.

Apesar dos avanços contidos no PNDH-3, de 2010, com seus seis eixos integrados para a questão da segurança pública, na prática, não houve melhora na questão da violência no país. Ao contrário, houve uma aumento considerável nos números da violência, conforme dados disponíveis para pesquisa e repassados pelo historiador Clovis Gruner, da UFPR: violência no Brasil / dados de 2016: 61,6 mil assassinatos / 4,6 mil mortes em ações policiais / 437 mil PMs mortos em serviço. Destes números 92% são homens, 82% têm entre 12 e 29 anos e 76% são negros, portanto traduzindo esta realidade é possível afirmar que as vítimas de violência em sua quase totalidade são de homens jovens, negros e pobres, o que evidencia a situação de embate social, que se desenrola entre a população pobre e o aparato miliciano do estado burguês, o que evidencia a existência de uma guerra civil permanente no Brasil de há muito, que apenas não é declarada como tal. O tráfico de drogas se apresenta como uma cortina de fumaça neste conflito de classes, tendo em vista que ele está relacionado a todos os segmentos da sociedade, tanto em termos de consumo como em termos de comercialização. Uma interessante declaração do traficante Fernandinho Beira-Mar dá a dimensão deste fato: "No tráfico, negro e favelado não chega ao topo, mas onde lhe é permitido chegar.". As recentes notícias de envolvimento de parlamentares com o tráfico, e o flagrante do "helicoca", só confirmam o real alcance do braço armado da polícia burguesa. Entre 1992 e 2017 houve um aumento de 400% na população carcerária do Brasil, que hoje ocupa, apenas abaixo dos Estados Unidos e da China o terceiro lugar em população carcerária.

A mais recente intervenção militar no Rio de Janeiro não cumpriu absolutamente nenhum papel no combate à violência, sendo antes uma jogada política, por meio de apropriação simbólica e institucional de um governo sem nenhuma sustenção democrática no poder. Ademais, tal ação, que desvia completamente a finalidade das forças armadas, pode favorecer certos grupos criminosos, em detrimento de seus rivais, que comandam o crime organizado nas favelas dos grandes centros urbanos do país. Sabe-se que as favelas do Rio de Janeiro são redutos do CV, muito menos perigoso que o PCC, que atua na capital paulista, e cujo advogado foi alçado a Ministro do Supremo pelo governo golpista e intervencionista.

Já a partir de 1530, e não apenas a partir da ditadura militar de 1964, iniciou-se a formação de uma polícia política, com Martim Afonso, na defesa das capitanias hereditárias que se instalavam no território. Em 1809, funda-se no Rio de Janeiro, a Guarda Real da Polícia, com o objetivo de proteção da familía real portuguesa chegada no Brasil, fugindo das guerras napoleônicas, um ano antes. Em 1830, cria-se a Guarda real durante a Regência, período de grandes insurgências, devido a não aceitação do Regente por parte da população, e a partir de 1831 dissemina-se no país a ideia da polícia protetora do Estado. Já em 1919, as forças armadas e polícias militares são organizadas, e em 1946 os corpos de guardas municipais. O caráter de proteção do estado, leia-se aqui das classes dominantes, está presente em toda a trajetória evolutiva do aparato policial, inclusive na Constituição Cidadã de 1988, que trata a questão em termos de violência ostensiva e preservação da ordem pública, o que lhe confere o caráter de defesa apenas do Estado. Portanto, até os dias atuais a polícia se configura como o braço da violência do grupo que ocupa o Estado. Com o estado exceção, a violência potencial da polícia tem passado rápida e constantemente para a violência em ato, com o intuito de intimidar os movimentos sociais e o povo que se insurge contra os crimes do de governos golpistas.

No Brasil do pós golpe o aparato judicial policial se transformou em polícia política”, declarou o preso político José Dirceu à jornalista Mônica Bergamo, sobre o período pós golpe de 2016. Porém de toda esta avaliação fica a triste constatação de que, em nosso país, o golpe e o golpismo são sustentados em uma relação promíscua entre o poder e a força, onde somos meros objetos de uma orgia sadomasoquista nacional.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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terça-feira, 10 de setembro de 2024

O FILME BACURAU, E O RETORNO HERÓICO DE LAMPIÃO

 

O filme Bacurau, lançado em 2019, é um filme de aventura, de ação e uma ficção dos cineastas pernambucanos Kleber Mendonça Filho, que também dirigiu o excepcional Aquarius, e Juliano Dornelles. A história ambienta uma comunidade ameaçada no interior do sertão nordestino, que sofre com falta de água e de políticas públicas. Curiosamente, um dia essa cidade desaparece do mapa e seus habitantes ficam sem sinal de internet. O filme é bastante fiel à realidade nacional, contando inclusive com a população local em seu elenco. Isso foi importantíssimo para retratar um Brasil cheio de desigualdades, mas sobretudo de resistência popular. A história se passa num tempo futuro, e não se pode precisar exatamente quando. Mesmo sendo em algum lugar no futuro, identifica-se uma relação direta com acontecimentos do presente e do passado na realidade nacional, trazendo um dos períodos mais críticos e um dos personagens mais importantes na história do Nordeste do país. Pode-se dizer que o filme é uma perfeita alegoria da realidade brasileira.

A atmosfera ameaçadora, que nos aguarda na pequena cidade de Bacurau, é anunciada desde o início da trama, com o surgimento de caixões no meio do caminho de uma personagem que chega à cidade num caminhão. Eles anunciam a tragédia da cidade e antecipam o desfecho do filme. Esse desfecho também se anuncia dentro da própria Bacurau, quando nos deparamos com o velório de uma senhora negra, idosa, e que parece ter sido muito importante para a comunidade. A importância das mulheres e do matriarcado fica evidente a partir desse evento fúnebre, tendo a personagem Carmelita, a senhora falecida, gerado uma enorme família, constituída por pessoas de todos os tipos, uma relação clara com a diversidade que formou nosso país. O nome do vilarejo, Bacurau, é também o nome de uma ave com hábitos noturnos, muito encontrada no cerrado brasileiro. Essas informações são reveladas por meio de uma moradora da cidade, quando ela é questionada por um casal de turistas, que trata o povo com desdém. É possível traçar uma relação direta entre as características desse pássaro e as do povo de Bacurau, que, assim como o animal, está bastante atento ao que acontece à sua volta. Mas, a resposta à pergunta: - O que tem em Bacurau? gente! É perfeita e cheia de significados.

O prefeito da cidade é um homem que não está nem um pouco interessado em promover políticas públicas, ou melhorias para a comunidade. Mas, muito interessado em se aproveitar do povo, aproximando-se dele apenas em ano de eleições. Algo que nos é bastante particular, sobretudo nos últimos tempos, de grandes espetáculos, e com a formação que nós temos, hoje, em nosso parlamento. O tal prefeito representa o completo descuido, e até mesmo descaso com a educação, explicitado na cena em que é despejado de um caminhão um monte de livros, que caem no chão de qualquer forma, sendo completamente danificados. Esse mesmo cidadão também leva à força uma prostituta do local, evidenciando a violência de gênero e sexual que ela sofrerá, realidade que é tão presente no Brasil, com números alarmantes de feminicídio que só crescem, sobretudo depois do grande estímulo político à maldade e à violência chamado Bolsonaro.

Outra questão extremamente importante que é abordada no filme é o chamado complexo de vira-latas do brasileiro, essa abordagem se concretiza por meio de um casal de motoqueiros, que aparece no povoado, aparentemente como turistas. Eles são oriundos da região Sudeste e Sul do Brasil, e por conta disso, se sentem superiores ao povo nordestino. Na realidade, eles estão lá para contribuir com planos de extermínio daquela comunidade, por parte de forasteiros norte-americanos que se fixaram na região. Esse fato traz uma relação direta com a dependência ao imperialismo, a supervalorização do Estado norte-americano, e o completo desprezo com a cultura e a história da própria nação. Além disso, pode-se fazer um paralelo daquela situação com o que ocorre em um âmbito mais estrutural, no qual as elites brasileiras desprezam o povo, aliando-se aos interesses estrangeiros.

As personagens da trama são todas de extrema importância para a compreensão da mensagem da obra, porém há duas personagens, Lunga e Domingas que são quase como pilares da história. Lunga é uma das personagens mais emblemáticas do filme. Por meio daquela figura são expostas questões de identidade de gênero, uma figura cuja definição de gênero é incerta, aliada a uma força bruta que desconstrói a ideia preconcebida do gênero, e com um enorme impulso por sobrevivência. Essa personagem, um foragido e procurado pela polícia, numa clara alusão à figura de Lampião, que apesar da força bruta bordava e compunha, transita entre os gêneros masculino e feminino. É com a chegada dele no vilarejo que a população se organiza ainda mais e se prepara para resistir aos ataques que sofrerão dos ianques. Lunga, assim como Lampião, simboliza o desejo de transformações radicais na sociedade. Ele vem travestido em uma figura que tem o poder de unir, a princípio, elementos díspares, como o cangaço e a transexualidade. A personagem Domingas é a médica do povoado, que ajuda a população com seus problemas de saúde, ao mesmo tempo em que sofre, ela própria, com o alcoolismo. É uma personagem complexa que parece representar a energia e a garra da mulher nordestina em meio a uma dura realidade existencial. É a grande mãe, que acolhe e ajuda na libertação.

Mas, se é que podemos destacar algum elemento mais importante no cenário e na ambientação da trama, o museu da cidade é esse elemento de suma importância, senão o mais importante na trama. Em diversas cenas a população cita o local, dizendo para o casal de turistas para irem até lá. Até parece uma advertência sobre seu próprio destino. Em um dado momento, descobre-se que o museu abriga um acervo de fotografias e objetos do cangaço, que sugerem que o povoado fez parte desse universo no passado, possuindo um histórico de lutas e resistência. Esse é um dos locais escolhidos pela população como esconderijo quando sofrem os ataques dos americanos. Essa escolha também pode ser vista como um símbolo da importância da cultura e da memória na história de um povo. Uma questão que vale salientar é a relação possível entre o passado de Bacurau com o passado de luta do próprio povo nordestino, por meio do Cangaço, e de outras revoltas populares como Canudos, a Cabanagem, a Conjuração Baiana, a Revolta dos Malês, o Quilombo dos Palmares e a Revolução de 1817, entre outras. Além do museu, outro local que acolhe os moradores é a escola da cidade. Lá, os habitantes se escondem enquanto os "ianques" fazem seu jogo perverso em busca de vítimas, sem saber que, na verdade, eles é que serão eliminados.

A luta contra a opressão interna, e externa no caso em questão, a violência empregada na autodefesa e o apelo à memória, nos remetem diretamente ao personagem da vida real, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Virgulino entrou no Cangaço por motivos pessoais, mas encampou uma luta contra a opressão do braço armado do Estado, saindo a fazer justiça com as próprias mãos pelos sertões nordestinos. Ainda hoje, discute-se se Lampião foi um Herói, um fora da Lei contra o Estado opressor, ou um simples bandido, mas esta é uma questão complexa, que não pode absolutamente ser tratada com a simplicidade do pensamento do senso comum. Lampião foi fruto de seu tempo, e com certeza uma cria de um sistema opressor e corrupto, que é a marca registrada da elite dominante em nossa cultura desde as Capitanias Hereditárias. Uma marca que produziu e produz miséria, subserviência, sofrimento e morte, mas que também, - graças à natureza humana! -, produz revoltosos e arautos da liberdade. A forma como se busca essa liberdade é outra questão, e que pode se expressar de diferentes formas, inclusive com extrema violência. Não se pode esquecer que falamos do ser humano, o maior predador que jamais existiu sobre a face da terra, e da pulsão de morte, que participa da construção e da destruição com a mesma energia e força.

Bacurau tem na personagem Lunga, andrógino e indefinido, mas estrategista e organizador de libertação, a tábua de salvação para a sobrevivência de toda aquela comunidade. Talvez, exatamente por seu caráter perverso, ele possa vislumbrar e se prestar a esse papel de libertador. Papel que hesitou em assumir, mas que assumiu para o bem comum. O livro LAMPIÃO Senhor do Sertão, de Élise Jasmim, nos leva até Lampião, que basculhava entre o ser e o não ser, entre deus e o diabo, mas que na verdade era apenas um homem, com sua visão de mundo, com todas as características e possibilidades da alma humana, preocupado constantemente com sua imagem, e que se defendeu com o que tinha e como pode dos ataques da "civilização", Então, a relação de Lunga com Lampião é mais do que clara quando se percebe "as hesitações de Lampião quanto à imagem que gostaria de transmitir à sociedade: a do bandido que desafia as autoridades policiais e governamentais, a do chefe guerreiro à frente de um grupo para o qual ele assegura a vida material como um pai de família, a de um bandido profissional que às vezes presta serviços aos chefes políticos locais, a de um homem que ama a vida que leva, não tendo a opção de ter outra, a do bandido de honra que não para de perseguir seus inimigos, a de quem faz questão de que saibam que não é um covarde de acordo com as representações heroicas da cultura do sertão e, finalmente, a de um homem que respeita as classes sociais opulentas.” (JASMIN, Élise, 2006)

Numa entrevista, em pleno sertão, em meio à caatinga, “Lampião define seu mundo, justifica suas opções, abandona-se, mas ainda não impõe uma imagem unívoca: quer que saibam o que ele é e ainda preserva uma espécie de diálogo com a sociedade, afirmando, aliás, que está ali para protegê-la: Vim agora ao Cariry porque desejo prestar os meus serviços ao governo da Nação. Tenho o intuito de incorporar-me às forças patrióticas do Juazeiro e com elas oferecer combate aos rebeldes. Tenho observado que, geralmente, as forças legalistas não têm planos estratégicos e d’ahi os insucessos dos seus combates que de nada têm valido. Creio que se aceitassem os meus serviços e seguisse os meus planos muito poderia fazer. Incontestavelmente, o ano de 1926 registra uma virada na vida de Lampião. Sua incorporação aos batalhões patrióticos devia, na verdade, ser seguida de uma anistia e da obtenção oficial da patente de capitão. Sabemos que não foi nada disso. As promessas não foram mantidas: ao sair de Juazeiro, Lampião continuava a ser um criminoso perseguido pelas forças policiais, e sua patente de capitão não tinha estritamente nenhum valor. Lampião compreendeu que não havia possibilidade nem vontade política de reintegrá-lo à sociedade nem de anistiá-lo: continuava sendo um fora-da-lei aos olhos das autoridades administrativas, policiais e governamentais dos diferentes Estados do Nordeste.” (JASMIN, Élise, 2006) Chega a ser irônico este momento, pois o governo cogitou utilizar a força e o conhecimento de Lampião para o combate a um outro grupo, que à época ainda não era revolucionário, pois não detinha o conhecimento teórico e prático das relações na sociedade, como o próprio bando de Lampião, mas que como ele questionava as relações do poder na sociedade. Um questionava o poder político e suas práticas nada democráticas e/ou republicanas, e o outro o poder da força a serviço deste mesmo poder político. Uma questão interessante que se relaciona a esta controvertida concessão de patente de capitão a Lampião, e que lhe foi “outorgada” pelo Padre Cícero Romão Batista, outra personagem icônica da vida real brasileira e nordestina, é a ideia disseminada de que o padre, que era prefeito de Juazeiro na época, teria, por isso, se unido a Lampião. Na verdade, qualquer um que se visse com "esse poder" e que recebesse uma figura tão temida e envolta em tantas histórias de atrocidades, certamente, lhe condecoraria com qualquer coisa, se esse fosse o seu desejo. 

Uma outra questão interessante, e que nos remete ao filme e às personagens femininas, notadamente Domingas, é a postura das mulheres nesse movimento, ao mesmo tempo solidária, doce, mas também afirmativa, e às vezes violentas, o que nos faz pensar nessa personagem de Sônia Braga no filme Bacurau, pois “a maioria das mulheres esperava ser servida. Dadá conta, inclusive, que Zé Baiano, o mais perverso dentre os cangaceiros, aquele a quem apelidavam “pantera negra dos sertões”, servia a comida à sua mulher: colocava-lhe um guardanapo ao redor do pescoço, escolhia os melhores pedaços de carne que cortava e lhe punha afetuosamente na boca. Depois da refeição servia-lhe bebida e em seguida limpava-lhe delicadamente a boca com um pano de boa qualidade. Diz ela: (...) Era uma convivência maravilhosa. Todo mundo tinha seu marido. Um amor danado. Uma costurava, outra ajeitava um vestidinho, uma coisa. Uma vida bacana. Com Lampião, ali, ninguém dava um nome, ninguém se enxeria com coisa nenhuma. Agora, se ela saísse fora da linha, o chumbo comia, matavam, como aconteceu com Cristina e Lídia. (...) Os cangaceiros eram muito amorosos, tinham tanto carinho que eram capazes até de se esquecer das armas.” (JASMIN, Élise, 2006) Dadá, assim como outras mulheres do cangaço também protagonizaram cenas de grande violência, inclusive já fora do cangaço, quando alvejou um ex volante, e o deixou alijado. Questionada que tinha errado o tiro, ela disse que não, e que ele produziu o efeito que queria produzir, para causar maior sofrimento.

Há registros importantes do dia a dia de Lampião e do cangaço, memórias que foram registradas em filme por Benjamin Abrahão. Embora muito se questione os motivos de todo esse trabalho jornalístico, “se o senhor Benjamin Abrahão tivesse tido um projeto ideológico, esse filme ofereceria a ocasião ideal para se construir uma imagem repulsiva que teria servido aos objetivos do regime Vargas. Mas não foi assim, o cineasta ficou à parte e propiciou aos cangaceiros uma oportunidade de se mostrarem tal como queriam ser vistos. O filme provocou a irritação do Governo Federal e, de maneira particular, do Departamento de Imprensa e Propaganda. Finalmente, depois da dura campanha do governo Vargas contra seu filme, em pleno Estado Novo, e não podendo mais receber a proteção dos coronéis, estes também fragilizados, Benjamin Abrahão foi assassinado em maio de 1938, em Águas Belas, PE. Uma das múltiplas explicações para o seu assassínio seria a de que o cineasta teria feito de Lampião uma personagem muito importante. No momento em que Getúlio Vargas fazia uma forte pressão sobre os chefes políticos locais e se esforçava para reduzir suas prerrogativas, esse filme que os comprometia devia ser destruído. Urgia suprimir a qualquer custo as provas da vida opulenta levada pelo grupo de cangaceiros, vida que se devia, indiscutivelmente, à corrupção dos poderes locais. O poder do Estado tinha todo o interesse no desaparecimento desse filme no momento em que se empenhava em criar a lenda negra do cangaço na impressa e nas operações de propaganda, apresentando esses bandidos como seres abjetos, sistematicamente violentos, cruéis, estranhos à sociedade e à civilização.” (JASMIN, Élise, 2006), mesmo depois de ter tentado se aliar a eles no combate à Coluna Prestes.

Porém, depois de tentar usar Lampião e seu bando para combater a Coluna, “a partir da Revolução de 1930, esse tipo de discurso deixou de ser possível. Enquanto sob a República a repressão ao cangaço estava ligada a um projeto político unificador com relação ao Nordeste, constata-se a partir da instauração do regime de Vargas em 1930, e sobretudo a partir de 1935, uma vontade centralizadora que visava a associar o sertão a um projeto de Brasil “moderno”. A partir de 1935, após o fracasso da Intentona Comunista, o cangaço deixa de ser considerado pelas forças de repressão e pelo poder central uma especificidade regional. Torna-se um movimento subversivo capaz de pôr o Estado em perigo, da mesma forma que o comunismo. O governo Getúlio Vargas não se cansava de declarar publicamente a solidariedade entre os Estados e ressaltar os acordos de cooperação firmados entre todas as forças policiais do Nordeste. Por sua vez, os políticos dessa região afirmavam na imprensa, desde 1930, a importância dos laços que uniam os Estados nordestinos, prestando conta ostensivamente dos esforços de colaboração entre suas respectivas forças policiais e anunciando o fim iminente de Lampião.” (JASMIN, Élise, 2006). E, em uma possível continuidade do filme Bacurau, veríamos o Estado se armar para a destruição da comunidade perigosa para o regime, uma comunidade que só se armou para se defender, assim como já foi feito outras vezes, como em Canudos. 

“Olê, muié rendera,

Olê, muié rendá,

Tu mi ensina a fazê renda,

Eu ti insino a namorá.” 

Essa música, identificada como uma espécie de hino do cangaço, pois era a música preferida dos cangaceiros, é a cara de minha avó materna...lembro demais dela a cantarolar essa canção enquanto desenvolvia seus trabalhos domésticos. E se alguém quiser ter uma noção mais aproximada de como era (tipo e atitudes) a minha avó materna, é só dar uma olhada no documentário Mulheres do Cangaço, e prestar bem atenção na Dadá do Corisco falando. É exatamente daquele jeito que era minha avó Dolores, uma filha do Sertão, uma grande mistura de povos originários da terra, árabe, negro e português, uma mistura de maledicência e religiosidade raiz, uma costureira de mão cheia. Tinha uma doçura e ao mesmo tempo uma brabeza perversa que faz imediatamente lembrar as contradições que vicejavam no cangaço e nas mulheres que por ele transitavam. 

O livro Lampião Senhor do Sertão pode nos trazer algumas reflexões sobre a construção da personagem real Lampião, e, principalmente, os movimentos e os fenômenos do meio em que se desenrolou sua saga. Mas também a personagem da ficção Lunga nos traz Lampião, sua violência visceral e sua postura meio andrógina e  ambígua e, muitas vezes, protetora. A obra escrita demonstra, inicialmente, como o Estado buscou utilizar-se de um fora-da-lei para combater a divergência política expressa na Coluna Prestes, que nasceu do questionamento das mazelas da primeira República, contra o autoritarismo, a corrupção e o sistema de privilégios da política da época. Por uma série de fatores, a empreitada não deu certo, mas o evento demonstrou como o Estado pode se valer de qualquer meio na defesa de sua ideologia e dos privilégios da elite dominante. Fazendo um paralelo com o filme, onde se vê descaso e corrupção na atuação política, vive-se, no Brasil real  de sempre, tentativas constantes da elite do país, no combate, sem tréguas nem escrúpulos, à partilha, à inclusão social e ao desenvolvimento da nação. 

Outra questão interessante é, e isso está claro no depoimento de Dadá, que os cangaceiros não eram totalmente monstros, mas homens sertanejos, adaptados ao meio em que viviam, e que respondiam aos códigos vigentes na cultura que vicejava naquela região. Eram, portanto e sem sombra de dúvidas, justiceiros cruéis, em uma região onde imperava, e impera até os dias atuais, o domínio do latifúndio e a lei do mais forte, e onde o Estado, ausente ou caolho, é conivente com a criminalidade da elite abastada e obscurantista. A psicanálise, em seus longos anos de pesquisa histórica e experiência clínica, abriu-nos um enorme clarão sobre a questão da personalidade humana, e provou que a violência contra a própria espécie, e até contra si mesmo, é um traço eminentemente humano, e que tal traço também não é privilégio de certas estruturas psíquicas desviantes, mas constituinte do psiquismo de todo e qualquer indivíduo. A grande questão, então, é a influência exercida pelo meio em que se desenvolve e é moldada tais estruturas humanas, que pode facilitar ou não a expressão dessa violência constituinte. E o Estado, que precisaria ser o maestro das relações sociais, que deveria agir no sentido de propiciar o Bem-Estar Social, pode se tornar um grande facilitador e indutor de violência na civilização, inclusive utilizando-se dela em benefício de alguns. 

Parece claro que o cangaço, Bacurau, Lunga ou Lampião, são apenas um fenótipo, uma resposta do sertão ao abandono e à exclusão daquela região do Brasil, e que, em suas práticas, não difere absolutamente, de todas as práticas coronelísticas, policiais e estatais neste país ao longo de sua história. Vivemos uma guerra cruel, e camuflada, entre povo e elite que já dura 521 anos. Neste sentido, o cangaço, como um evento criminoso, torna-se apenas um grande bode expiatório que esconde a maldade humana real, espoliadora do Mais de Gozo, expondo-a e atribuindo-a apenas a um segmento, enquanto toda a estrutura que propicia a violência contra o povo é escamoteada, extrema violência praticada em larga escala pela elite nacional, e pelo Estado que a ela sustenta. Lampião, assim como Lunga, é, em última instância, apenas um filho do Sertão. Um filho da guerra entre a elite latifundiária, espoliadora e expansionista, e o povo desvalido. Um filho do abandono do Estado Nacional criminoso. Um filho da falta de justiça. Um filho legítimo do Sertão do Nordeste do Brasil. Lampião jamais deixará de retornar, assim como o Lunga da ficção ou como um outro qualquer da vida real, enquanto existir, ao sul do equador, opressores e oprimidos.



Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
Copyright © 2024 by SÉRGIO MOAB AMORIM DE ALBUQUERQUE All rights reserved

domingo, 8 de setembro de 2024

O FILME A FORMA DA ÁGUA E UMA NOVA FORMA PARA A VIDA

 

A trama do filme se passa na décda de '60 do século passado, época em que a Guerra Fria corria solta, e a história é apresentada como uma espécie de fábula, onde a protagonista é uam espécie de "princesa sem voz". Muda e feliz, a faxineira Eliza Esposito trabalha numa base secreta dos Estados Unidos, e que inclui um laboratório comandado pelo Dr Hffstetler. 

A trama tem início quando uma criatura é capturada nos confins da América do Sul, o eterno quintal do tio Sam, e levada para esse laboratório. Aos poucios Eliza vai se afeiçoando à criatura que, a partir de sua curiosidade e tentativas de contato, começa a se "afeiçoar" a ela. Não se pode dizer que a criatura é bonita, mas tem seus encantos e, de acordo com o ditado, quem o feio ama bontito lhe parece.

Nada é aleatório no filme, Com ele, Guilhermo del Toro usa diversas ferramentas cinematográficas para criar um ambiente mágico, repleto de alegorias , e que iluminam aqueles seres que não se ancaixam no mundo. Quando os norte-americanos decidem usa a criatura como cobaia na corrida espacial, Eliza solicita ajuda de um vizinho, Giles, um pintor fracassado, mas que, como ela, também é fã de musicais, e sua companheira de trabalho, sua voz, chamada Zelda. No geral a obra parece ser uma ode aos "outsiders", com uma produção cativantemente bela, e um elenco afiado ao ponto.

A Forma da Água, para além das questões políticas e ambientais de exploração e expansionismo do imperialismo que busca explorar, e  da questão da guerra fria, é um filme sobre o ser humano e sua visão do mundo, a partir dos supostos três níveis existenciais: o mundo superior, o mundo inferior e o mundo humano, encontrados em todas as mitologias, em todas as culturas. 

No filme, o mundo dos deuses, o mundo dos humanos e o submundo se entrelaçam na ideia de uma criatura que carrega todas as características desses três níveis, um Deus produto da Água. O que pode ser uma clara alusão à nossa origem mais primitiva, antes de nossa migração, como seres que saíram da água para a ocupação e domínio da terra.

A forma da água é a forma projetada da humanidade. É a forma perfeita às voltas com a degenerescência produzida pelos seres humanos, e que sugere como solução um impossível retorno à água, mas que sustenta a proposta  de um resgate do equilíbrio com a própria natureza. Isso nos coloca diante da necessidade de revermos, urgentemente, nossa conduta diante da natureza e da vida, enquanto natureza perversa em relação à própria natureza, e enquanto ainda há tempo.

 

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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O FILME MÃE, E O ETERNO RETORNO AO CAOS

 

A trama conta a história de um poeta e de sua esposa, que habitam uma casa que foi reconstruída depois de um incêndio. O clima de tranquilidade e sossego, semelhante, não por coincidência, ao paraíso, termina subitamente com a achegada de um convidado totalmente inesperado.

Símbolos e metáforas se sobrepõem na trama, e é preciso ficar muito atento, pois as questões propostas são jogadas no ar, e flutuam ao sabor do discernimento e conhecimento prévios, necessários ao entendimento das metáforas. O poeta é uma representação metafórica de Deus, e seu único interesse é criar. 

A esposa, que representa a virgem Maria, mas também a Mãe natureza, está submetida a um poder patriarcal avassalador e sempre é ignorada em seus apelos racionais. A humanidade, obra maior do Deus poeta, erra num ciclo de criação e destruição sob a indiferença do poeta e o desespero daquela Mãe.

A ação humana sobre a Natureza é extremamente deletéria, pondo sempre em risco o paraíso, e está traduzido no fogo e destruição, numa clara alusão à crise climática sob a qual tentamos sobreviver nos dias atuais. O olhar egoísta do poeta, que só pensa em sua obra, e na bajulação de seus visitantes, traduz seu comportamento arrogante e egocêntrico, transformando a divindade que representa em um criatura quase humana.

No mais, é possível vislumbrar trechos do texto bíblico, desde a história de Adão e Eva, do fruto proibido e a expulsão do paraíso, passando por Caim e Abel e o dilúvio, até o nascimento e morte de Jesus Cristo, culminando com a ideia da redenção dos pecados de toda aquela gente, e, diante do desespero da Mãe, o demiurgo Deus ainda tenta convencê-la a perdoar os algozes de seu filho.

Trata-se de um filme que coloca o ser humano no centro dos desequilíbrios ambientais e da natureza, representada pela Mãe revoltada, e pela interferência de um Deus irresponsável, um demiurgo condescendente com as atitudes de sua estúpida criação. Para melhor acompanhar o desenrolar da trama, é importante ter, ao menos um pouco de conhecimento, mesmo que superficial, do texto bíblico, do velho ao novo testamento, que norteia e é o eixo central de toda a narrativa do início ao fim.

Um filme muito inteligente e ousado, na crítica da humanidade, onde a pulsão de morte se produz e se manifesta em diversos momentos da história. O ápice dessa manifestação se dá na relação entre Deus, a humanidade e o menino Jesus, o que desencadeia uma reação violenta por parte da Mãe Maria Natureza, concluindo um ciclo e sinalizando para o recomeço de um próximo, onde a mulher é apenas um objeto, sem voz e explorada até o limite.

Esse eterno retorno ao caos sugere que a história da humanidade é feita de ciclos perversos que, recorrentemente, chegam sempre a um termo, numa continua vivência de construção e destruição. Um breve olhar na história da humanidade, com o contínuo surgimento e queda de civilizações, com os eventos cíclicos de guerras e violências dirigidas à humanidade e ao meio ambiente, confirmam o flerte permanente desta com a extinção. O movimento continuado entre vida e morte, como num bailado histórico perfeito, constituem a nossa essência, e o retorno ao inanimado, a máxima realização de gozo em nossa relação com Deus.

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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quinta-feira, 29 de agosto de 2024

A ÉTICA DE SPINOZA E A ILUSÃO DE DEUS



No início era ou estava o verbo! 

Quem és?! 

EU SOU!

No grego, a palavra para verbo é logos, que também significa "palavra", mas muito mais, pois logos se refere à linguagem; ao pensamento ou razão; à norma ou regra, ao ser ou realidade íntima de alguma coisa, logo ao saber ou conhecimento. Conhecimento/Palavra ou Palavra/Conhecimento nos remetem à revolução cognitiva que nos trouxe até aqui.

"Por Sua palavra, Deus criou o mundo e tudo que existe (Hebreus 11:3)." Assim, a palavra de Deus representa seu poder e sua autoridade. O Verbo, então, é Deus, agindo no mundo, ou nele mesmo, e, de acordo com o livro de Gênesis, limitando o poder do homem, que, desobediente, precisou ser severamente punido.

Gostaria de começar este texto dizendo que Baruch de Spinoza foi um gênio, matematizou o pensamento ético assim como Lacan matematizou os discursos na Psicanálise, e é, de longe, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Poder-se-ia dizer que este homem, que partiu muito cedo em sua época, usando a matemática para sustentar seu pensamento, foi um grande cientista, sendo a própria ciência a prática da filosofia. Não há ciência sem filosofia, assim como não há filosofia que não nos leve à prática da ciência. E essa parece ser a lógica de sua obra tão instigante. O uso da ética filosófica para a prática da razão.

Mas antes de navegar pelo cerne lógico da questão da ética em Spinoza, ou seja, Deus e o comportamento humano, ou ainda, o comportamento humano na construção da lógica divina, vamos tentar entender, primeiro, esse conceito da ética, que diz respeito à estrutura do comportamento humano na civilização. Para Platão a ética consistia na busca pela felicidade por meio não somente do comportamento de um único indivíduo, pois um indivíduo não pode ser feliz em uma comunidade viciosa, mas também a coletividade deve alcançar tal felicidade. Enquanto a ética é definida como a teoria, o conhecimento ou a ciência do comportamento moral, que busca explicar, compreender, justificar e criticar a moral ou as diversas morais de uma sociedade, a moral se refere aos modos, que submetido à vontade, propicia maneiras pelas quais se vivencia a ética. A ética é uma área da filosofia que busca problematizar as questões relativas a costumes e moral de uma sociedade, sem recorrer ao senso comum. A ética tenta estabelecer, de maneira moderada e com uma visão questionadora, o que é o certo e o errado, estabelecendo uma linha, muitas vezes tênue, entre bem e mal.

Como eu gostaria de encontrar Spinoza e bater um longo papo, e perguntar: sobre afetos, paixões, conatus, livre-arbítrio e desejo. Perguntar também se desdizer Deus dizendo foi uma estratégia para escapar das chamas criminosas da igreja católica, da absoluta soberba do judaísmo, ou da violência pulsional castradora presente no Islã?! No texto O Futuro de uma Ilusão, Sigmund Freud, um ateu convicto, um judeu sem Deus, como o nomeou Peter Gay, seu biógrafo, que, ao longo de sua vida profissional como neurologista e psicanalista, se dedicou a desvendar os mistérios do funcionamento psíquico, parece fazer uma crítica radical e bastante coerente, dentro da lógica psicanalítica, ao Deus pensado por Spinoza. Muito embora, no pensamento desse grande pensador, já encontramos traços claros do futuro, e longínquo, pensamento psicanalítico, como a ideia dos afetos e do desejo, e da construção da estrutura psíquica a partir do outro. Também a dinâmica pulsional já se encontra presente em Spinoza, pois, como nos diz ele, “quando imaginamos algo que comumente nos agrada por seu sabor, desejamos desfrutá-lo, ou seja, comê-lo. Mas enquanto assim o desfrutamos, o estômago torna-se cheio e o corpo fica diferentemente disposto. Se, pois, com o corpo agora diferentemente disposto, por um lado, a imagem desse alimento é, por sua presença, intensificada, e, consequentemente, é também intensificado o esforço ou o desejo por comê-lo, por outro lado, a esse esforço ou desejo, se oporá aquela nova disposição e, consequentemente, a presença do alimento que apetecíamos se tornará odiosa. É a isso que chamamos de fastio ou enfado.” (Spinoza, p.140), ou a relação escópica do empuxo de órgão frente ao objeto de satisfação libidinal. Em suas definições sobre os afetos, Spinoza declara que “o desejo é a própria essência do homem” (Spinoza, p. 140), e faz uma clara observação sobre o que Freud muito tempo depois, entenderia por um caos pulsional, quando declara que “compreendo, aqui, portanto, pelo nome de desejo, todos os esforços, todos os impulsos, apetites e volições do homem, que variam de acordo com o seu variável estado e que, não raramente, são a tal ponto opostos entre si que o homem é arrastado para todos os lados e não sabe para onde se dirigir. (Spinoza, p. 141).

Porém, o que se pode, muitas vezes, não perceber, ou não, é que o discurso pode estimular e proporcionar aquilo a que se propõe desconstruir, ou querer modificar no cotidiano humano, o que pode também ser compreendido como um traço esquizo perfeito, sendo a esquizofrenia a coexistência de duas realidades distintas, uma cisão da realidade.  Uma dubiedade intrigante e, a meu ver, ao mesmo tempo instigante está presente na conceituação de Deus em Spinoza. Mas talvez essa dubiedade faça parte da nossa projeção de Deus. Freud, em seu O Futuro de uma Ilusão, parece fazer uma crítica coerente ao Deus de Spinoza, quando declara que “no que tange aos problemas da religião, o homem é culpado de uma série de uns cem números de insinceridades e de vícios intelectuais. Os filósofos forçam o significado das palavras até não conseguir conservar mais nada de seu sentido primitivo, dão o nome de “Deus” a uma vaga abstração criada por eles e se apresentam diante do mundo como deístas, vangloriando-se de haver descoberto um conceito muito mais elevado e puro de Deus, mesmo que seu Deus não seja mais que uma sombra inexistente e não a poderosa personalidade do dogma religioso.” (Freud, in O Futuro de Uma Ilusão, numa tradução livre de um trecho do texto na edição espanhola das Obras Completas, Ed Nueva Madrid). O que Freud quis dizer aqui é que desdizer Deus colocando em seu lugar uma despersonalidade não ajuda em absolutamente nada em uma possível evolução na civilização, e ainda destitui o Totem, substituto do pai primevo, sem nada oferecer em troca. Freud, apesar de reconhecer a inexistência de Deus, entende a importância da estrutura para a formação psíquica do indivíduo e da civilização. Mas é evidente que esses conceitos não estavam presentes no tempo cultural de Spinoza, e sua ideia parece sempre desconstruir Deus afirmando sua existência.

Há uma passagem no Velho Testamento, em que Deus responde a Moisés: “Eu Sou”, ou seja, “aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente” (Spinoza, p.13). A partir dessa inferência, em consonância com o texto do velho testamento ou da torá, pode-se dizer que Deus seria absoluto, mas também indescritível, um verbo, uma ideia sem forma para a qual os humanos, necessitados de referência construíram uma forma e, por referência, “aqueles que confundem a natureza divina com a natureza humana, facilmente atribuem a deus afetos humanos, sobretudo à medida que também ignoram de que maneira os afetos são produzidos na mente.” (Spinoza, p. 16). É assim que, Spinoza, de forma absolutamente inteligente, utiliza as definições existentes de Deus para simplesmente negar sua existência. E vai muito além, quando afirma que Deus é absoluto porque Deus é a própria natureza, da qual tudo e todos fazem parte, sendo Deus unicamente um verbo.

O Deus-natureza de Spinoza é ao mesmo tempo absoluto e obsoleto, sendo este obsoleto nada a destituição do Deus projetado, mas, que ao mesmo tempo, também é conteúdo, conteúdo do não existir, do não ser, e, portanto, infinito, onipotente, onipresente, onisciente. “E se continuamos assim, até o infinito, conceberemos facilmente que a natureza inteira é um só indivíduo, cujas partes, isto é, todos os corpos, variam de infinitas maneiras, sem qualquer mudança do indivíduo inteiro.” (Spinoza, p. 65). Percebe-se que Spinoza utiliza o discurso religioso e seus conceitos de Deus em benefício de sua despersonalização de Deus. E afirma que “se os homens, entretanto, não têm, de Deus, um conhecimento tão claro quanto o que tem das noções comuns, é porque ligam o nome de Deus às imagens das coisas que eles estão acostumados a ver, o que dificilmente podem evitar, por serem continuamente afetados pelos corpos exteriores.” (Spinoza, p. 87). Ora, aqui, talvez sem o saber, Spinoza reconhece a importância do imaginário para a construção simbólica no homem.

Mas o Imaginário se assenta sempre sobre um Real, e é nesse lugar que podemos vislumbrar Deus, no Real impossível, o objeto pequeno a, ao redor do qual circula a construção simbólica humana. A partir dessa ideia, “vemos, assim, que, mais por preconceito do que por um verdadeiro conhecimento delas, os homens adquiriram o hábito de chamar de perfeitas ou de imperfeitas as coisas naturais. Com efeito, mostramos, (...), que a natureza não age em função de um fim, pois o ente eterno e infinito que chamamos Deus ou natureza age pela mesma necessidade pela qual existe. Mostramos, com efeito, que ele age pela mesma necessidade da natureza pela qual existe (...). Portanto, a razão ou a causa pela qual Deus ou a natureza age e aquela pela qual existe é uma só e a mesma. Logo, assim como não existe em função de qualquer fim, ele também não age dessa maneira. Em vez disso, assim como não tem qualquer fim em função do qual existir, tampouco tem qualquer princípio ou fim em função do qual agir.” (Spinoza, p. 156), e, portanto, se descortina assim a impossibilidade de Deus, impossibilidade como projeção humana e impossibilidade enquanto ente alcançável, e por isso é absoluto no infinito nada.

São as necessidades humanas de proteção, sobretudo se remontarmos aos primórdios da existência, quando ocupávamos as cavernas para nos proteger, e pouco compreendíamos das forças da natureza, mas dávamos os primeiros passos na Revolução Cognitiva que, passamos a imaginar “que o sol está tão próximo não por ignorarmos a distância verdadeira, mas porque a mente concebe o tamanho do sol apenas à medida que o corpo é por ele afetado.” (Spinoza, p.160). Esta afirmação de Spinoza nos remete à ideia de que o mundo existe, da forma que existe, a partir de nossas sensações e necessidades. É verdade, o mundo é nomeado de acordo com nossa conveniência. Uma árvore não sabe que é uma árvore, ela simplesmente é, assim como uma cadeira não sabe que é uma cadeira, ou para que serve, elas apenas são, e se prestam àquilo que nos convém. Nós as nomeamos, damos-lhes um sentido para existir, ou não, conforme as transformamos em objetos desejados por nós, em função de nossas necessidades.

Mas a grande questão, subjacente, presente em Spinoza é a construção humana de Deus, e uma descrição do deus do antigo testamento, na obra Deus, um Delírio, de Richard Dawkins, segundo a qual, ele “é talvez o personagem mais desagradável da ficção: ciumento, e com orgulho; controlador, mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo.” (Dawkins, p. 55), parece confirmar o nosso espelhamento em Deus, já que todas essas características sustentam a verdade do maior predador que jamais existiu na natureza.  Sim, nós mesmos. Nós, os humanos, projetamos um deus à nossa imagem e semelhança. Todas as mazelas que permeiam a nossa existência foram transferidas para esse Deus, e desfilam diuturnamente nos noticiários de nosso dia a dia existencial. Apenas “aqueles que são acostumados desde a infância ao jeitão dele podem ficar dessensibilizados com o terror que sentem. Um naif dotado da perspectiva da inocência tem uma percepção mais clara.” (Dawkins, p. 55). Mesmo o suposto Deus da bondade, da ligação libidinal, da partilha e do desprendimento, pode ser uma projeção, ou não, já que este Deus seria eminentemente humano, e destituiu o Deus dos Céus. Mas, um ou outro, nos levam a pensar no campo pulsional, seja este dual, como queria Freud, ou uno, sob o qual se constrói a dualidade, como sugeriu Lacan.

No tocante ao mundo das religiões, uma instituição da Cultura na Civilização, “o grande e indizível mal no cerne da nossa cultura é o monoteísmo. A partir de um texto bárbaro da idade do Bronze, conhecido como Antigo Testamento, evoluíram três religiões anti-humanas – o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de deus-no-céu. São, literalmente, patriarcais – Deus o Pai Onipotente -, daí o desprezo às mulheres por 2 mil anos nos países afligidos pelo deus-no-céu e seus enviados masculinos terrestres. Gore Vidal.” (Dawkins, p. 63). Na verdade, o monoteísmo não tem sua origem em Abraão, mas em origens bem mais antigas, como no culto ao círculo solar de Akhenaton, que provocou uma verdadeira Revolução no Egito Antigo, e posteriormente, com a morte de Akhenaton o restabelecimento do domínio de Amon e sua corte politeísta. Coincidentemente, foi, talvez, a partir de um príncipe egípcio, que surgiu a primeira Religião monoteísta pós Akhenaton, e que surgiu com uma força de uma Lei titânica, provavelmente pela morte violenta desse príncipe, repetindo o mito do pai primevo, e estabelecendo as bases do judaísmo e sua descendência. Assim, “a mais antiga das três religiões abraâmicas, e a clara ancestral das outras duas, é o judaísmo: originalmente um culto tribal a um Deus único e desagradável, que tinha uma obsessão mórbida por restrições sexuais, pelo cheiro de carne queimada, por sua superioridade em relação aos deuses rivais e pelo exclusivismo de sua tribo desértica escolhida.” (Dawkins, p. 63). E para esta tribo, o suposto Deus de Israel apontou o caminho, definiu o espaço, ordenou a morte dos ocupantes originários das terras, coisa que seus súditos seguem fazendo até os dias atuais, e o exigiu que o glorificassem eternamente, até sua suposta vinda dos céus, em suposto Juizo Final. Deus é, sem sombra de dúvidas, o maior e mais eficiente mecanismo de defesa já criado pelos humanos. Se deus preenche lacunas, e as lacunas impulsionam o homem desejante, deus é assim a negação e o tamponamento do desejo.

Os humanos, ocupando o lugar mais alto no pódio dos maiores predadores da natureza, “parecem ter sido lindamente “projetados” para capturar suas presas, enquanto as presas parecem tão lindamente “projetadas” quanto para escapar deles. De que lado Deus está?” (Dawkins, p. 182). Teria criado Deus presa e predador apenas para sua diversão?! Mas há uma outra questão, bem mais afeta à psicanálise que a filosofia, e que diz respeito a certas práticas dentro do monoteísmo, e que são as práticas autodestrutivas como forma de combate ao outro, e que não estão circunscritas ao campo da religião. “Os homens-bomba fazem o que fazem porque acreditam mesmo no que lhes ensinaram nas escolas religiosas: que o dever para com Deus supera todas as outras prioridades, e que o martírio a serviço dele será recompensado nos jardins do Paraíso. E eles aprenderam essa lição não necessariamente com extremistas fanáticos, mas com instrutores religiosos decentes, gentis, normais, que os colocaram em fileiras em suas madraçais (casa de estudos islâmicos), abaixando e levantando ritmadamente a cabecinha enquanto aprendiam cada palavra do livro sagrado, como papagaios malucos. A fé pode ser perigosíssima, e implantá-la deliberadamente na cabeça de uma criança inocente é gravemente errado.” (Dawkins, p. 395). Mas há questões de um mais além aqui, que não diz respeito apenas ao aprendizado, mas ao impulso para a morte e a autodestruição, tão presente, de diversas formas, na história humana ao longo do tempo.

Mas a religião não é só destruição, ela também liga e “oferece consolo e reconforto. Ela estimula o sentimento de união. Ela satisfaz nosso desejo de entender por que existimos. (Dawkins, p. 215), embora prescindindo de toda e qualquer racionalidade. “Martinho Lutero sabia bem que a razão é a arquiinimiga da religião. E frequentemente advertia sobre seus perigos. “A razão é o maior inimigo que a fé possui; ela nunca aparece para contribuir com as coisas espirituais, mas com frequência entra em confronto com a palavra divina, tratando com desdém tudo que emana da palavra de Deus.” De novo: “Quem quiser ser cristão deve arrancar os olhos da razão.” E de novo: “A razão deve ser destruída em todos os cristãos.””  (Dawkins, p. 251). Durante séculos a religião católica cerceou o desejo de saber, proibindo, perseguindo e até destruindo quem se atrevesse a questionar seus dogmas, suas fantasias e seus delírios.

Para o elemento humano, a questão da religião não é de ser o bem ou o mal, mas de ajudar a lidar com insuportável realidade da finitude da vida, após uma suposta expulsão do paraíso. Além disso, “Se você acha que, na ausência de Deus, “cometeria roubos, estupros e assassinatos”, revela-se uma pessoa imoral, “e faríamos bem em nos manter bem longe de você”. Se, por outro lado, você admite que continuaria sendo uma boa pessoa mesmo quando não estiver sob a vigilância divina, você destruiu fatalmente a alegação de que Deus é necessário para que sejamos bons.” (Dawkins, p. 295-296), e você foi inundado pela razão. Mas também “é preciso dizer, para ser justo, que grande parte da Bíblia não é sistematicamente cruel, mas simplesmente estranha, como seria de esperar de uma antologia caótica de documentos desconjuntados, escrita, revisada, traduzida, distorcida e “melhorada” por centenas de autores anônimos, editores e copiadores, que desconhecemos e que não se conheciam entre si, ao longo de nove séculos.” (Dawkins, p. 305-306), e que nasceu dentro e como um poder de Estado, nas três vertentes do monoteísmo, sendo o Catolicismo a mais emblemática nesse sentido, e a mais bem sucedida experiência de uma religião que sobreviveu ao fim do Estado que a criou, e que, tendo ela própria se tornado um supra Estado, possui uma enorme abrangência global.

Mas a crítica freudiana ao Deus de Spinoza é perfeitamente compreensível, porque o Deus de Spinoza é um Deus do Não-lugar, um Deus que é sem realmente sê-lo. Embora, se pensarmos no nó górdio lacaniano, o Deus de Spinoza estaria exatamente no centro, no lugar do objeto pequeno a que é indizível, inalcançável, intocável, impossível. Mas insisto em afirmar que foi uma forma extremamente inteligente de dizer da não existência de Deus, peremptoriamente afirmando-o, o que confirma e reconfirma a genialidade de Spinoza.  E para finalizar esta minha humilde avaliação, uma frase do livro de Richard Dawkins se faz eclodir com a sutileza de uma erupção vulcânica, como a obra de Spinoza: “O fato de um crente ser mais feliz que um cético não quer dizer muito mais que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio.” (Dawkins, p. 220).

Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
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O FILME A HORA DA ESTRELA – UMA ANÁLISE DO CONTEÚDO LISPECTORIANO

 

𝄞Alagoas, estrela radioosa...♪

O filme A Hora da Estrela, de 1985, baseado no último e único livro factual da obra de Clarice Lispector, nos traz uma crítica social contundente, que poderia servir muito bem para qualquer lugar sob o domínio econômico e castrador do capital, mas que retrata de forma absoluta a relação do povo com a cultura, a dominação do corpo e a impossibilidade da alma intelectual, na região onde nasci – Alagoas. 

Sim, A Hora da Estrela trata da dor existencial e do destino de uma alagoana pobre que migra para a cidade do Rio de Janeiro em busca de futuro, embora seu destino já estivesse traçado nas relações deletérias que a construíram na Terra dos Marechais. Quando Clarice publicou A Hora da Estrela, já estava doente e veio a falecer mais ou menos uns três meses após o seu lançamento. Clarice é Macabéa? Pode ser, não há obra sem seu autor e, consequentemente, numa simbiose perfeita, não há autor sem a sua obra. 

Clarice pode ser considerada um pouco alagoana, como Macabéa. Ela nasceu nos idos de 1920, na longínqua Ukrânia, de família judia, que precisou emigrar, e veio aportar no Brasil, devido a conflitos civis na sua região de origem. Sua primeira parada em território nacional foi em Alagoas, onde chegou aos dois anos de idade, e onde sua família foi recebida por parentes que já se encontravam naquela localidade. Ali a família permaneceu por três anos, onde seu pai trabalhou, fez novos registros civis para as filhas, com mudança do nome de Clarice, que antes se chamava Haya. Desentendimentos com os familiares fizeram a família emigrar de Maceió para o Recife, onde ela permaneceu até os seus 15 anos, quando emigrou mais uma vez com seu pai para o Rio de Janeiro, onde permaneceu até o fim de sua vida. 

Clarice é ou não Macabéa?! O nome Macabéa está relacionado aos judeus macabéus, que em um determinado período da história ocuparam Jerusalém. Teria Macabéa este nome por conta da origem judaica de Clarice?! Pouco importa, pois Clarice foi um presente de valor incomensurável para o Brasil, por sua inteligência e pelo conjunto de sua obra. Macabéa/Clarice ou Clarice/Macabéa mostrou de forma contundente e definitiva, embora com muita sutileza, os efeitos de uma cultura coronelística e perversa, que despreza a intelectualidade, afastando como Medusa seus intelectuais, que glorifica a folia vazia e administra os corpos de seu povo para a servidão abnegada e rasteira. 

Como um observador nato, - herança de meu pai poeta! - identifiquei imediatamente em Macabéa o povo bom e servil de minha terra, que a todos, com uma condição econômica um pouco melhor, chama de doutor. Porque este também é um traço da elite dominante, que entre seus pares, faz questão de colocar um Dr na frente do nome. Isso também traz a minha memória um episódio com meu avô paterno: Um dia fui pedir a bênção a ele, coisa que fazíamos naturalmente obrigados, e ele, cego depois de uma cirurgia de catarata malsucedida, me pergunta se eu era o doutor, provavelmente me confundido com meu irmão, que se formou em direito. Para ele só a medicina, o direito e a engenharia eram profissões dignas de reverência. Ele tem quatro netos médicos e dois advogados...os outros são apenas os outros. Eu respondi a ele que eu era o Sérgio, e ouvi: Ah, é o Sérgio! Não sei se consigo traduzir aqui todo o escárnio daquela fala... 

Tenho amigos, - grandes amigos, por sinal! - que até sofrem com os efeitos dessa cultura nefasta, dominadora e excludente, e que sempre disseram desejar emigrar, mas não o fizeram até hoje, e talvez jamais o façam. Mas por quê?! Talvez aqui possamos voltar a Macabéa, já que a origem e as necessidades que nela há, não estão presentes neles. Às vezes, ser alguém, mesmo por meio do massacre e da injúria, pode ser bom, coloca o injuriado e o massacrado em lugar de destaque, que, como já vimos, é de importância suprema na cultura alagoana. Ademais, além de nenhum deles passar fome, sobrevive-se da história do sobrenome. Essa é outra questão que me traz lembranças do meu núcleo familiar, lembro bem das conversas na casa de meus avós paternos. Eu não lembro de outro assunto que não girasse em torno das desagradáveis e entediantes histórias sobre propriedades e parentescos. Ah, havia um outro, mas menos frequente, embora contundente quando vinha à tona: o preconceito contra negros. 

Macabéa traduz muito bem o povão subserviente e servil que tão bem conheci nos antigos alagados do sul, nas fazendas, nas favelas e nas ruas de Maceió, junto da gente mais humilde. A alagoana subserviente, tolhida e castrada pelo sistema, sempre pedindo desculpas...até por existir, que tem uma enorme vontade de conhecer e saber, uma sonhadora com uma dor existencial profunda, Macabéa...𝄞a estrela radiosa𝄞...radiante em seu momento sublime... E que, por fim, encontra a morte pelas mãos do mesmo sistema negligente e perverso, representado por um poder econômico na forma de um "almofadinha" e de uma estrela, marca de uma máquina Mercedes, símbolo de um poder econômico e social que a doutrinou, impossibilitou, e finalmente a atropelou, desferindo o golpe definitivo em sua vida miserável.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política
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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O FILME O ANTICRISTO, O IDENTITARISMO E O PREJUIZO AO INTELECTO

 

Realmente o identitarismo pode ser algo muito ruim, sobretudo quando começa a minar a inteligência daquele que é, de fato, inteligente.


Pode ser um deslize infeliz, mas o filme escolhido e sua análise, para iniciar o artigo de Márcia Tiburi, na Cult de maio, a meu ver, foi um desastre.


O filme em questão é O Anticristo, do magnífico Lars. Nele, uma mulher que já dava sinais de uma estrutura comprometida, após a morte de seu filho, na qual o filme sutilmente sugere sua conivência, busca se isolar em uma cabana e, lá, começa a ter alucinações. Seu marido, um psicólogo desavisado, quiçá um pouco displicente e negligente, tenta ajudá-la, embora ao cabo do tempo, torna-se alvo dos delírios persecutórios da esposa, sendo obrigado, à medida que a situação piora a cada momento, a eliminá-la para salvar a própria vida.


Durante um certo tempo fiquei tentando entender a relação do conteúdo do filme com seu título, o anticristo. Seria ele? Que mesmo sendo da área psi não se apercebeu dos problemas da esposa, e deixou que seus sintomas evoluíssem para aquele desfecho?! Seria ela? Que em busca de seu próprio prazer deixou seu filho cair da janela, e, por culpa, depois começou a ter alucinações persecutórias?! Mas o filme também sugere que já haviam alguns sinais anteriores que, como uma antecipação do sintoma, demonstravam a estrutura comprometida, a psicose paranoide.


Ainda, a cena que ilustra esse texto, e que de fato faz parte do filme, parece uma tentativa desesperada de recuperação do filho "perdido", do status fálico do existir, à sombra de uma árvore macabra repleta de mãos desesperadas, que nos remetem ao mito da criação e da subsequente castração. A castração para o saber, imposta por um suposto deus que supostamente tudo comanda e tudo vê.


Mas ainda assim, retorna a pergunta: onde está o anticristo?! Ele ou Ela?! Talvez nenhum dos dois. Talvez para entender o anticristo seja preciso entender o Cristo, ou, o que, no imaginário cristão, se convencionou associar ao personagem Cristo. Talvez retomar um pouco do conteúdo do livro O Assassinato de Cristo, de Wilhem Reich, onde ele discorre sobre o desamor ou o esforço por destruir  a vida viva na civilização. Podemos também, utilizar a dualidade pulsional da psicanálise freudiana, e associar definitivamente o anticristo à pulsão de morte. Pulsão que se impõe definitivamente a partir dos desencontros entre a negligência do profissional e a loucura da esposa.


A cena final é uma ode à pulsão de morte, numa alusão clara às fogueiras da inquisição, promovidas em nome do suposto Cristo para a glória do Anticristo. Nesse sentido, os personagens são apenas joguetes no tabuleiro de guerra entre o Cristo e o Anticristo, ou as pulsões de vida e a pulsão de morte. A ligação e o desligamento, o amor e a violência para além da loucura e da negligência, o descaso, para demonstrar a metapsicologia determina nossas ações e nos comanda para além de toda e qualquer racionalidade. 


Bem, a meu ver, a escolha do filme para ilustrar um texto ótimo sobre machismo e feminicídio foi extremamente equivocado, pois, apesar de um desses elementos estar presente no filme, não é disso que o filme trata. O filme é extremamente profundo e não foi tratado com o devido cuidado na relação com o tema.


E, a partir disso, só posso imaginar que a questão identitária, de grande importância para os processos de desenvolvimento humano e inclusão, mas que tem se perdido nas teias do pensamento neoliberal, está por trás desse desentendimento cruel.


Sérgio Moab Amorim de Albuquerque - CRP 08/08067-7
Psicólogo / Servidor Público
Formação em Gestão Estratégica de Pessoas / Abordagem Psicanalítica / Sociologia Política

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